— Fale sobre você.
— O que você quer saber?
— Tudo o que você quiser falar.
Boris, com os olhos voltados para o tapete com formas
geométricas, tentou buscar seu passado mais longínquo, onde se encontrava com
seus lá quatro, cinco anos. Estava brincando no canto do escritório do pai,
Klauss Scherer.
O agora paciente herdou a aparência do pai, que, àquela época,
era mais jovem que ele é hoje. Não mais de 40 anos, talvez 36. Detalhes sem a
menor importância. Quanto ao temperamento, por mais que Klauss tivesse tentado
incutir seu modo de ser no filho, o fruto não poderia ter caído mais longe do
pé.
— Meu pai era controlador. Era um bom homem, mas gostava de
manter as rédeas firmes. Bruto, mas creio que todos os homens eram assim
naquela época. Minha mãe sempre me falava para respeitar meu pai, pois era ele
que mantinha a família unida. Ele era o homem da casa, o sustento de todos
nós.
Pelas próximas quase duas horas, o psicólogo escutou
atentamente o paciente e, ao final, os dois se despediram com um forte aperto
de mãos. Boris, apesar de contido nas emoções, não conseguiu esconder a
fragilidade no olhar ao remexer o passado. Mas parece ter saído aliviado e,
caminhando pelo amplo corredor, chegou ao elevador, que o levou até a garagem
do edifício. Ligou o automóvel e voltou para casa, onde encontrou a esposa
e os dois filhos adolescentes.
— Como foi a consulta, meu amor?
— Boa.
— Gostou do psicólogo?
— Sim. Agendei nova sessão para semana que vem.
A semana caminhou a passos lentos. Boris queria porque queria
contar tantas outras coisas para o psicólogo. É verdade que pensou em desmarcar
a consulta, pois não queria relembrar tempos tão difíceis. Todavia, ao recordar
da sensação de leveza que o acompanhou no caminho de volta para casa, desejou
reencontrar novamente o profissional.
Pouco antes do horário, Boris estava diante da porta do
consultório. José o recebeu de braços abertos, o que fez o paciente se sentir
acolhido de maneira incomum para o mundo que lhe fora apresentado desde a mais
tenra idade.
— Meu pai, sempre autoritário, não aceitava que eu chorasse.
Sempre dizia que homem não chora. Minha mãe, talvez receosa da reação do
marido, nada dizia. E, quando estávamos sozinhos, ela enxugava minhas lágrimas
em sua saia e me mandava lavar o rosto antes que meu pai retornasse. Aquilo
sempre me pareceu algo normal, que certamente acontecia em todas as famílias.
Levei anos para perceber que, apesar de acontecer com bastante frequência,
aquilo não era normal.
Boris, após quase seis meses de consultas, conseguiu se livrar
de vários traumas de infância. No entanto, um ainda estava instalado bem lá no
fundo do seu subconsciente. Mas, naquela sessão de agosto, tudo veio à
tona.
— Sei que estava prestes a completar dez anos, pois acompanhei
meus pais até o supermercado para comprar refrigerante. Estava eufórico, mas
contido para não tomar bronca do papai. Ele segurava firme o meu pulso, como um
carcereiro conduzindo o preso. Percebi um menino, praticamente da minha idade,
empurrando um carrinho de compras pelos corredores. Ele me pareceu bem feliz e,
obviamente sem querer, esbarrou o carrinho na minha perna. O garoto se voltou
para mim e tentou se desculpar, mas meu pai, ríspido, o segurou pelo braço.
Comecei a chorar, não sei se pela dor ou se por presenciar aquela violência.
Meu pai, ainda segurando firme o braço do menino, me mandou chutar a sua perna.
Eu não queria agredi-lo, mas meu pai me ordenou. Chutei a perna do menino uma,
duas, três, dez vezes. Não me lembro de quantas, até que a minha perna ficar
doendo demais para prosseguir. O menino, imóvel, aguentou sem derramar
lágrimas. Meu pai o soltou, e o menino foi embora. Desde então, isso me consome
de tal modo, que até hoje procuro por aquele menino para lhe pedir
desculpas.
O psicólogo abraçou o paciente, que chorou copiosamente por
minutos. Soluços, pedidos de desculpas para aquele menino do supermercado. Após
quase meia hora, Boris se despediu de José. A próxima sessão seria na semana
seguinte.
Naquele dia, José entrou em seu apartamento.
Não sentiu vontade de acender a luz. A escuridão era necessária para acalmá-lo
após mais um dia de trabalho. Que turbilhão de emoções! Pensou em se servir uma
dose de uísque, mas preferiu manter a mente limpa.
O psicólogo se dirigiu ao banheiro, onde ligou
o chuveiro, enquanto retirava a roupa e a jogava no cesto ao lado. Sentiu a
temperatura da água, entrou debaixo da ducha. A água morna caiu sobre sua
cabeça, seus ombros largos, como se tirassem toneladas de angústias guardadas
há tempos. Com o rosto virado para o chuveiro, as lágrimas foram levadas pela
água. Passou a mão pela perna esquerda. Ele não era o único que carregava o
trauma daquele dia.
- Nota de esclarecimento: O conto "Trauma de infância" foi publicado por Notibras no dia 6/6/2024.
- https://www.notibras.com/site/boris-vai-ao-passado-chora-e-faz-psicologo-chorar/
- O conto "Trauma de infância" faz parte da Coletânea Nossos Pais, do Projeto Apparere.
- O poeta e escritor Daniel Marchi escreveu matéria, publicada por Notibras no dia 27/2/2025, sobre a premiação do conto "Trauma de infância", que conquistou a medalha de ouro no concurso INTER/CAPOLAT.
- https://www.notibras.com/site/prata-da-casa-eduardo-martinez-vale-ouro-na-casa-do-poeta-latino-americano/
- A jornalista Cecília Baumann escreveu matéria, publicada por Notibras no dia 28/2/2025, sobre a repercussão da premiação do conto "Trauma de infância", que conquistou a medalha de ouro no concurso INTER/CAPOLAT.
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