quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Salviano, o homem do sorriso fácil

    

      Salviano Quintanilha, por conta do sorriso largo, conseguia encantar as pessoas ao redor. Tanto é que, desde menino, percebeu o próprio charme, pois até a professora sempre lhe reservava maiores afagos nos lindos cachos negros que nem anu. Os coleguinhas, a despeito de possíveis queixumes, também se sentiam felizes pela inebriante presença do garoto. 

          O gajo cresceu e se tornou um rapagão boa-pinta. De tanto usar gel, as madeixas deram lugar a um cabelo rente, o que provocava reboliço entre as moçoilas solteiras, além de algumas comprometidas. Dizem que até as mulheres casadas se sentiam atraídas pelo bonitão, sem se importar com a presença dos maridos. No entanto, tudo ocorria na maior discrição, sempre na proteção das coxias. 

          O homem, diante do banquete, preferia manter a solteirice. Entretanto, percebeu que precisava arrumar um casório o mais rápido possível, mesmo porque fora picado pela mosquinha da política. Era de bom alvitre ser casado e ter alguns herdeiros para garantir o sucesso na carreira.

          Salviano tratou de escolher, entre tantas pretendentes, a que mais condizia com o almejado posto de vereador. Aldenora Carvalho de Albuquerque, além de boa procedência, era-lhe agradável aos olhos. O rapaz, após o pedido formal ao patriarca da família da moça, cumpriu o longo período de noivado para não restar dúvida da honestidade da senhorita. 

          Os pombinhos se casaram no primeiro dia de maio, justamente o mês das noivas. Diante do figurino mais que perfeito, foram passar a lua de mel na capital. Retornaram duas semanas após e, não tardou, a agora senhora Aldenora Carvalho de Albuquerque Quintanilha começou a sentir os primeiros enjoos próprios das mulheres desposadas. 

          Salviano Quintanilha Filho nasceu em fevereiro do ano seguinte, para alegria dos pais, dos avós e de toda a família. Enquanto o bebê era amamentado pela mãe, o pai iniciava a trajetória na vida pública. Candidatou-se a vereador e, para a surpresa de ninguém, elegeu-se com o maior número de votos que aquela região havia visto. 

          Político de sucesso nos anos seguintes, Salviano viu a família crescer com a chegada das gêmeas Maria Lúcia e Maria de Fátima. De tão confiante que estava, resolveu concorrer ao prestigiado cargo de prefeito. Elegeu-se com sobras e, não obstante às ações um tanto inescrupulosas, continuou com a popularidade em alta. Prova disso é que, após ser reeleito para a prefeitura, começou a se imaginar deputado estadual.

          Novas eleições, e os eleitores não negaram a maior votação ao amado candidato. Deputado estadual por dois mandatos seguidos. Sucesso que, à custa de emendas pouco probas, instigou Salviano a pretender galgar degraus mais elevados. E por que não deputado federal? Pois foi o que fez, com a coragem dos que sabem que a história é escrita por quem é destemido. 

          Aos 60 anos, o deputado federal Salviano Quintanilha, com alguns milhões de eleitores fiéis, estava sentado em sua confortável poltrona na sala de sua mansão. Filhos criados, todos com posição de destaque nas devidas profissões que escolheram, alguns netos correndo pelo quintal. O homem olhou para a esposa e sorriu aquele sorriso fácil, que ludibriava até o mais incrédulo dos seres.

          — Aldenora, meu amor, sabe que estava pensando aqui com os meus botões?

          — O quê?

          — Se eu tivesse escolhido ser padre, é possível que hoje o papa fosse brasileiro.

          — Talvez.

          — Quem sabe até eu fosse canonizado, não é verdade?

       — Salviano, meu amado marido, pegar algumas notas de cem e jogá-las pra plateia nunca o tornará um santo.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Salviano, o homem do sorriso fácil" foi publicado por Notibras no dia 22/8/2024.
  • https://www.notibras.com/site/salviano-do-sorriso-facil-so-nao-comprou-papado/
  • O conto "Salviano, o homem do sorriso fácil" faz parte da edição Crescer da revista Contos de Samsara 16. 


  • https://drive.google.com/file/d/15rZ7MYGZjeDlnMd9CRwIWbH7ed0TpCUY/view?ts=672567e0
  • O conto "Salviano, o homem do sorriso fácil" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 9/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/salviano-o-homem-do-sorriso-facil/

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Um certo julgado

   

       O tribunal estava totalmente tomado, com gente saindo pelo ladrão. Um fuzuê que parecia transformar a audiência num carnaval de rua. Na pipoca, era cada um por si, enquanto o trio elétrico ia adiante arrastando a multidão. Mas eis que a meritíssima, utilizando seu poder, ergueu a mão que julga e declarou o silêncio com duas batidas secas do malhete sobre a mesa.

          A turba se fez muda, olhares arregalados direcionados para aquela austera mulher de toga. Rosto firme, aparentando serenidade improvável em qualquer ser humano digno de confiança, a juíza deu por início a audiência. Enquanto isso, o réu, um tal Afrânio Gaudino, olhava para o jurado, como se tentasse entender aquelas mentes que iriam decidir pela sua improvável inocência ou, então, praticamente certa culpa. 

          Como de costume, regra e praxe, as testemunhas de acusação foram inquiridas primeiramente. De tantas que eram, levou a manhã inteira e boa parte da tarde. De vez em quando, surgia um murmurinho entre o público, que se mantinha atento a cada palavra.

          — Você viu? Esse crápula merece a pena máxima.

          — Pois é. É uma lástima não ter pena de morte.

          — É verdade. Nem que fosse perpétua.  

          Por conta do avançar das horas, a magistrada decidiu adiar o julgamento para o dia seguinte. Enquanto a plateia saía, o burburinho tomou conta do recinto. A maior parte revoltada porque o destino do salafrário não iria ser definido naquele momento, ainda mais diante de tantas provas irrefutáveis expelidas de bocas tão dignas, cada qual inquirida sob a proteção da palavra de Deus. 

          Pouco antes das 9h, diante dos quase imperceptíveis gatos-pingados na arquibancada, lá estavam a juíza, o promotor, a advogada da defesa, os jurados e a única testemunha. Pois é, apenas uma mísera pessoa para inquerir naquela manhã fria de agosto. A juíza. que até aquele momento estava convencida da culpa do réu, temeu por este não ter uma defesa condizente com a lei. Tanto é que chamou a advogada e o promotor para perto de sua mesa.

          — Doutora, o que a senhora pretende com isso?

          — Com o quê, vossa excelência?

          — Reparei que a senhora só tem uma testemunha de defesa.

          — Exato.

        — Pelo jeito, parece que a senhora não participou da audiência de ontem. A senhora reparou que todas as testemunhas de acusação afirmaram categoricamente que viram o réu sair correndo do local do homicídio?

          — Sim.

          — A senhora, então, vai querer convencer o jurado que todas aquelas testemunhas mentiram?

          — Em absoluto.

          — Então, qual é o seu jogo?

          — Que bom que vossa excelência mencionou isso.

          — O quê?

          — Jogo.

          — Jogo? Que jogo?

          — Bem, como todos sabemos, o crime pelo qual o meu cliente está sendo julgado aconteceu no dia 18 de junho de 2023, às 17h. 

          — E daí?

          — Daí é que meu cliente, como prova este vídeo, estava em Salvador assistindo ao jogo do seu time do coração, justamente ao lado daquele rapaz ali, que é a nossa única, mas valiosa, testemunha. Repare que é uma transmissão ao vivo de um importante canal de televisão, que, por vontade divina, calhou de flagrar o meu cliente comemorando ao lado do amigo justamente no momento em que seu time abriu o placar. Então, como é que o meu cliente poderia ter cometido esse crime, se estava a mais de mil quilômetros do local do fato?

          Diante de tamanha prova, a magistrada não teve outra opção. O promotor pediu pela absolvição do réu. Nenhum dos jurados contestou. O réu, apesar de absolvido, não aguentou a pressão da população da cidade e, na semana seguinte, se mudou para Salvador, onde, dizem, assiste aos jogos do seu time. E, até onde se sabe, nunca mais foi flagrado pelas câmeras de televisão. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um certo julgado" foi publicado por Notibras no dia 21/8/2024.
  • https://www.notibras.com/site/gol-do-time-do-coracao-salva-suspeito-de-perpetua/
  • O conto "Um certo julgado" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 22/2/2026,
  • https://www.notibras.com/site/um-certo-julgado/

Maria Aparecida, nome de santa

O ano, não sei ao certo, mas foi pelos idos de 1952, 1953. Talvez pouco antes ou tanto adiante, mas nada que atrapalhe a história, mesmo porque, naquela época, tudo me parece meio embaralhado. Meus netos dizem que é por conta da memória falha própria da idade. Tenho cá minhas dúvidas ou, então, sofro do mal que acomete boa parte das pessoas, que é esquecer o passado para repeti-lo como se fosse algo inédito. 

            Dona Albertina e seu Francisco, na casa dos 50 anos, possuíam onze filhos, sendo apenas a caçula menina, Maria Aparecida. Ela recebera o nome como pagamento de promessa à santa favorita da família, que há muito desejava uma garotinha. Não que os outros filhos também não tivessem nomes de santos: Onofre, João, Nicolau, Antônio, José, Sebastião, Pedro, André, Érico e Jorge.

            Maria Aparecida era venerada por todos, que chamavam a miúda de Cidinha. Apesar dos mimos, ela não parecia mimada, mas gentil e amigável com todos. Além do mais, ajudava a mãe nas tarefas do lar, enquanto os irmãos, todos em idade para trabalhar, ajudavam o pai na padaria. Enquanto alguns faziam pão, bolos e salgados, outros atendiam no balcão.

            Certa feita, mudou-se para a casa ao lado uma família quase tão grande como a da Cidinha. Entretanto, era uma casa repleta de filhas e apenas um varão, justamente o mais velho, que raramente dava as caras, pois estudava na capital. As idades dos herdeiros das duas famílias se regulavam, inclusive das duas mais novas. Helena, justamente a mais bonita, contava lá seus 16 anos, a mesma idade da Cidinha e, naturalmente, fizeram amizade.

            Érico e Jorge se encantaram pela linda garota e tentaram de tudo para chamar a sua atenção. Todavia, Helena não parecia atraída pelos rapazes. Comentava-se até que a donzela estivesse de namorico com outro, pois, não raro, o carteiro entregava correspondência para a dita cuja. 

            Os enamorados, não se sabe se movidos por bom propósito ou por puro despeito, foram ter uma conversa com o pai. Eles disseram que não era de bom alvitre Cidinha ficar de conversa com Helena, pois esta não parecia ser de confiança. Preocupado, seu Francisco chamou a filha para uma conversa.

            — Cidinha, todos nós não estamos gostando da sua amizade com essa tal Helena. Os comentários sobre ela não são dos melhores. Como nós não a conhecemos, é melhor você parar com essa amizade.

            A garota, apesar de confusa, não quis contrariar o pai. Nos dias seguintes, ela evitou a amiga, até que a própria Helena deve ter percebido o que teria acontecido. Tanto é que nunca mais procurou pela filha da dona Albertina e do seu Francisco. 

            Quando chegou a idade de casar, Cidinha foi desposada por um homem escolhido pelo pai. Viveu uma vida quase idêntica à de sua mãe, apesar da prole um pouco menor: oito filhos, todos com nomes de santos. Quanto à Helena, não se sabe ao certo qual foi o seu destino, pois seu nome foi deixado de lado até que caiu por completo no esquecimento. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Maria Aparecida, nome de santa" foi publicado por Notibras no dia 21/8/2024.
  • https://www.notibras.com/site/nome-de-santa-aparecida-teve-de-obedecer-ao-deus-pai/


terça-feira, 20 de agosto de 2024

A sapiência de mamãe

   

           Nunca caí nessa falácia de meritocracia, que apela para bobagens tipo como aquela que afirma que se você quer, você consegue. Tolice que os bobocas costumam cair, quando se deparam com alguém que veio da sarjeta alcançar posição de destaque. Mas não estou aqui para abrir os olhos dos paspalhos que acreditam que a exceção faz a regra. 

          Mamãe, do alto de sua sabedoria, sabia que o mundo não é um lugar seguro quiçá para os defuntos, quanto mais para os que cismam em respirar esse ar poluído de ganância e inveja. Por conta disso, minha velha não dava mole nem para o Pedro, que tinha lá seus privilégios de caçula. 

          Maria Alice, minha irmã mais velha, e eu éramos os mais cobrados lá em casa. Lembro-me, ainda hoje, da voz rascante de mamãe quase gritando nos nossos ouvidos logo após o jantar. 

          — Não sou empregada de ninguém! Quem sujou, lavou! E quem lavou que lave o meu prato também, pois já fiz o favor de preparar a comida. 

          Minha irmã e eu nos reversávamos nessa tarefa, enquanto sobrava pro Pedro lavar o banheiro. O moleque fazia aquela cara de nojo, mas não se atrevia a reclamar. Ele bem sabia que o chinelo de mamãe fazia curvas para atingir nosso couro. 

          Não sei se esse modo de criação foi o melhor, mas desconfio das melhores intenções da minha mãe. Era durona quando precisava ser, e realista na maior parte do tempo. E foi assim que ela agiu na última noite no leito do hospital, onde a derradeira batalha havia sido vencida pelo câncer. Meus irmãos e eu nos reunimos ao redor de mamãe, e ela segurou nossas mãos e acariciou pela última vez os rostos da prole.

          — Hoje não quero choro. Se tiverem que chorar, que chorem no meu enterro. E vamos que vamos, que a vida não pede passagem. Ela atropela!

  • Nota de esclarecimento: O conto "A sapiência de mamãe" foi publicado por Notibras no dia 20/8/2024.
  • https://www.notibras.com/site/leito-da-morte-ensina-que-vida-atropela-sem-pedir-passagem/

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Tereza, minha musa


         Gata! Aliás, gata que nada! Verdadeira pantera que tive a sorte de esbarrar no mês passado. E, desde então, não consigo tirá-la da cabeça, como se fosse chiclete nas ideias que pululam minha mente insana. 

          Por quatro ou cinco vezes, retornei àquela rua, onde os botecos e inferninhos brotam que nem as igrejas que arregimentam os pecadores pela cidade. Entre a cruz e a espada, prefiro me ater àqueles lábios carnudos, na esperança deles me convidarem para qualquer esquina longe de comentários alheios. Pensando melhor, que fofoquem! Não me importo. 

      Seu nome? Confesso que não havia descoberto até hoje pela manhã e, antes de descobrir, decidi chamá-la de Tereza. Prefiro Laura, mas Tereza tem a volúpia que imagino naquele jeito de olhar o que se passa ao seu redor. Lúcia também é nome de mulher daquela estirpe rara, se bem que Sônia também não é nada mal. 

          Pois bem, vamos de Tereza, pois necessito contar como tudo aconteceu. Lá estava eu sentado à mesa de um dos tantos bares naquela parte que não tem fama de honesta, quando esse ser enigmático passou. Calça e casaco de couro, cinto de fivela prateada, uma blusinha por baixo, que revelava o umbigo mais lindo que minha memória é capaz de se lembrar neste momento. 

         Devo ter feito cara de bobo, pois ela soltou um sorriso debochado em minha direção. Em seguida, seguiu caminho com aquele gingar de quem sabe que está sendo observada por uma horda de marmanjos. Depois de um ou dois goles na cerveja, tomei coragem de ir atrás do que julguei ser o amor da minha vida. Não a encontrei no meio da turba. Cheguei a imaginar que ela não teria sido apenas uma miragem.

      Essa dúvida sobre a existência de Tereza se desfez justamente no lugar mais improvável, pelo menos para mim. É que sou cirurgião-dentista e, quando já estava no consultório, fui informado pela minha secretária que uma nova paciente estava me aguardando. Pedi para que a deixasse entrar e, então, quase caí para trás. 

      Eu me apresentei à Tereza. Quer dizer, descobri naquele instante que a minha Tereza se chama, na verdade, Olívia. Não tardou, ela estava sentada na cadeira, com a boca escancarada, enquanto eu observava aqueles dentes tão agradáveis, caso não fosse por um detalhe. É que a minha musa estava sentindo dor num dos dentes sisos. Outra surpresa foi saber que até as deusas podem ter cárie. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tereza, minha musa" foi publicado por Notibras no dia 19/8/2024.
  • https://www.notibras.com/site/dentista-descobre-que-ate-as-deusas-tem-caries/

domingo, 18 de agosto de 2024

Aurelino, o empertigado

    

             Era desagradável por natureza. Alguns não gostavam das gravatas que usava, outros implicavam com o sotaque carregado de erres. No entanto, todos não suportavam o seu modo de dizer as horas.

          — 18 menos 5.

          Empertigado que nem pavão, Aurelino desfilava soberba por onde passava. Ninguém se atrevia a dizer coisa que o desabonasse, mesmo que o vaidoso merecesse ser achincalhado. Era homem de posição, e prudência era necessária para não ser alvo de perseguição por tolice. Um biltre, é verdade. Todavia, biltre com o alforje repleto de poder. 

          O traste empoderado, além da canalhice e da maneira de dizer as horas, era mais pontual que bexiga de velho durante as madrugadas frias. E ai de quem não estivesse pronto na hora marcada.

          — Seu Jorge, amanhã passo aqui às 10 menos 15 para que você me apare o bigode.

          — Não vai querer cortar o cabelo, doutor?

          — Semana que vem.

          O barbeiro, que era bom na tesoura, mas ruim em matemática, se desdobrava para descobrir a que horas o freguês iria aparecer. Por sorte, naquele dia, estava por ali o pequeno Juliano, menino afeito a contas. 

          — 9h45!

          — Tem certeza?

          — Se duvida, por que o senhor não faz as contas?

          Sem tutano para tanto, Jorge tratou logo de colocar a desconfiança de lado. Pegou o caderno de espiral debaixo do balcão e anotou o compromisso. 

          No dia seguinte, na hora marcada, lá estava Aurelino para cortar as pontas do bigode. Cumprimentou o barbeiro, que ligeiro foi dar algumas espanadas na cadeira para o ilustre freguês se acomodar.

          Corta daqui, corta dali, eis que, de repente, a cabeça do Aurelino tombou para o lado. O corpo seguiu caminho idêntico. Jorge, a princípio, imaginou que o mais ilustre cliente estaria lhe pregando uma peça. Que nada! O coração do homem havia cansado de bater exatamente às 10 menos 10.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aurelino, o empertigado" foi publicado por Notibras no dia 18/8/2024.
  • https://www.notibras.com/site/na-morte-nao-se-leva-nada-talvez-uma-ampulheta/
  • O conto "Aurelino, o empertigado' foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 11/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/aurelino-o-empertigado/

sábado, 17 de agosto de 2024

Carolina, a vovó Carol

    

    Carolina, a Carol, pouco passada dos 80 anos, parecia não se intimidar com as modernidades. Tanto é que se fazia presente nas redes sociais e possuía alguns milhares de seguidores, inclusive no exterior. Fluente em francês, italiano, espanhol e inglês, a mulher não se deixava ser tomada por medo, vergonha ou timidez diante de falantes de mandarim ou árabe. Nada como colocar no tradutor, que a comunicação andava que era uma beleza.

          Os curtos-circuitos, entretanto, costumavam ocorrer em português mesmo, ainda mais quando trocava mensagens com os netos. Esses imbróglios geralmente eram por causa de uma palavra ou outra que já caíra no esquecimento do povo há tempos, mas que a velha cismava em utilizar. Talvez para exercitar a memória ou, é possível, para causar espanto nos mais jovens.

          Aconteceu, certa vez, durante uma conversa virtual entre Carolina e duas netas, a Lúcia e a Helena. Uma das moças residia em João Pessoa, enquanto a outra estava passando uma temporada em Buenos Aires para tentar, por uma vez por todas, aprender o espanhol. O problema é que a garota havia arrumado um namorado brasileiro, que também teria ido para a capital da Argentina com o mesmo propósito. O resultado é que, até onde se sabe, os dois nunca conseguiram largar por completo o portunhol.

          Voltando ao tal bate-papo entre a vovó Carol e as meninas, eis que a matriarca resolveu vasculhar o dicionário atrás de uma palavra que até ela desconhecia. E, depois de algumas folheadas, conseguiu encontrar uma que parecia ideal. E, não demorou, tratou logo de usá-la como se fosse tão corriqueira como pedir um pingado no balcão da padaria.

          — Sabe, crianças, ontem conheci o vizinho que se mudou recentemente. Ele me pareceu ser um abnóxio. 

          — O que é isso, vovó? A senhora vive falando que não gosta de falar palavrão.

          — É mesmo! Mamãe disse que você até passava pimenta na língua dela toda vez que ela falava um.

— E por acaso falei palavrão?

— Ah, você xingou o homem aí de abi não sei o quê.

          — Abnóxio, Lúcia!

          — Então, isso aí mesmo. Tenho certeza de que esse troço aí é palavrão.

          — Abnóxio quer dizer inócuo.

          — Vovó! O que é isso? A senhora está com a boca suja hoje, hein!

          — Helena, inócuo é o mesmo que inofensivo.

          Após a explicação, as três caíram na gargalhada. No entanto, a Lúcia, talvez querendo fazer um agrado, tocou em um ponto nevrálgico da avó.

          — Vovó, a senhora é tão moderna. Por que não pinta os cabelos e as unhas. Aliás, deveria até fazer uma plástica que nem a tia Márcia.

           — O quê? Você está querendo dizer que estou feia de cabelos brancos, sem pintar as unhas e ainda quer que roubem as minhas rugas de estimação? 

          — Vovó, a Lúcia só quis dizer que a senhora poderia ficar mais jovem.

          — Pois vou lhes dizer uma coisa, meninas. Estou muito bem com meus cabelos brancos, minhas unhas curtinhas e sem pintura. Quanto às minhas ruguinhas, não vou deixar nenhum cirurgião arrancar de mim o que a vida levou tanto tempo para desenhar.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Mariana, a desconfiada

    

            A vida de Naldo era da casa para o trabalho, do trabalho para casa, a não ser quando desejava comprar algum mimo para a esposa, a desconfiada Mariana. E não adiantava tamanha fidelidade do homem, cujos pensamentos, até onde se tem notícia, eram todos voltados para a amada. É verdade que, por conta da profissão de renomado ginecologista, ele passava boa parte do tempo com mulheres sem calcinha. 

          Mariana, que trabalhava como pesquisadora em um laboratório, vivia rodeada de experimentos, cálculos e análises de gráficos. No entanto, por mais que sua mente fosse focada no serviço, na hora da pausa para o cafezinho, não conseguia deixar de imaginar o que o marido estaria aprontando com todas aquelas pacientes que ele atendia. Será que alguma traição estava em curso naquele momento? 

          Com a pulga atrás da orelha, naquela sexta-feira, Mariana voltou para o lar, doce lar no horário de costume. Não tardou, eis que o marido abriu a porta e entrou. Um sorriso direcionado para a esposa fez com que ela tivesse a certeza de que antes eram só suspeitas. Certamente, Naldo estava de caso com alguma sirigaita que frequentava seu consultório.

          A mulher se aproximou e, olho no olho, observou o esposo. Ele, por sua vez, retirou do sobretudo uma caixa de bombons finos e presenteou a esposa. Em seguida, Mariana, mesmo a contragosto, aceitou o beijo nos lábios, mas a contenda ainda não estava terminada.

          — Que cara é essa, meu amor?

          — Naldo, algo de errado não está certo.

          — O quê?

          — Não sei. Você que tem que me dizer.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Mariana, a desconfiada" foi publicado por Notibras no dia 16/08/2024.
  • https://www.notibras.com/site/esposa-possessiva-pergunta-por-caso-que-nao-existe/

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Ataliba, o lutador cheio de medo

    

        Ataliba, apesar do corpo que nem fiapo, sempre foi afeito a trocar sopapos. Ligeiro igual macaco-aranha, deixava os adversários, por maiores que fossem, no farelo. Tamanha valentia chamou a atenção do Calixto, um empresário de lutas clandestinas, onde as apostas corriam soltas.

          O brigão passou a contar com um treinador, o Osvaldão. O homem, apesar de nunca ter vencido nem aquelas contendas nos tempos de escola, era um estudioso do ofício. Tanto é que ele já havia revelado alguns campeões, inclusive desses torneios conhecidos do grande público. Todavia, o que atraía o sujeito eram as disputas absconsas, onde o perigo iminente era recompensado com polpudas somas de dinheiro. 

          Além do Osvaldão, Calixto resolveu contratar uma psicóloga, a Ana Luísa, para umas sessões com seu pupilo. Não que Ataliba não estivesse correspondendo às expectativas, pois, até aquele instante, derrotara todos os adversários, por maiores que fossem. No entanto, o empresário não queria correr riscos por conta de alguma possível crise emocional. 

          Na primeira consulta, Ana Luísa, intrigada como é que aquele homem tão franzino conseguia se sair tão bem contra adversários muito maiores, o observou por um ou dois minutos. A profissional, então, começou a questionar o paciente, que, com fala arrastada, a tudo respondia.

— Não vai querer me dizer que você não tem medo.

— Tenho até demais, doutora.

— Então?

— Então, o quê?

— Como é que você consegue enfrentar aqueles trogloditas?

— Lutando.

— Como assim? Você dá conta de superar esse medo todo que você tem?

— Impossível.

— Então?

— Então, o quê?

— Como consegue brigar com aqueles homens, se você possui esse medo todo?

— Ah, isso é a parte mais fácil.

— Como assim?

— É que, toda vez que vou lutar, trato de pegar todo o meu medo e deixar guardadinho na gaveta de meias. Depois da luta, pego tudinho de volta.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Ataliba, o lutador cheio de medo" foi publicado por Notibras no dia 15/8/2024.
  • https://www.notibras.com/site/ataliba-franzino-sabe-como-vencer-trogloditas/

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

A quase defunta

    

       A pequena Júlia, apesar da pouca idade, era a criança mais séria do bairro e, se falasse alguma coisa, quase sempre os pais acreditavam. A família morava numa antiga rua em Recife, onde todos se conheciam naqueles idos pouco antes do golpe de 1964. Por ali, também morava Elisa, filha da dona Eulália e do senhor Jonas, homem austero e que exalava odor distinto por conta de colônias importadas.

          Naquele tempo, os moradores da rua inteira se conheciam, mesmo aqueles que preferiam levar uma vida mais secreta. A fofoca, por assim dizer, corria solta, mas a maldade não passava de meros casos extraconjugais, certamente influenciados pelo cinema francês. Uma pouca vergonha, diziam. 

          Um costume que se fazia presente naquele lugar era o da esposa tomar conta de todos os afazeres domésticos, enquanto o marido cumpria o papel que lhe era devido, o de provedor do lar, doce lar. E não era diferente na casa do cheiroso da região. Tanto é que dona Eulália, bem treinada que fora pela mãe, sabia até lustrar os objetos de alumínio que eram cuidadosamente depositados sobre as tábuas da prateleira cobertas por mimosos forros brancos, caprichosamente bordados por ela ou, então, herdados da matriarca ou da sogra. 

          Aos sábados, as ruas reluziam o brilho desses mimos, que secavam ao sol em um jirau perto da porta da cozinha. Esse costume, aliás, era encarado como uma amostra de quem era mais endinheirado, levando-se em conta não somente a quantidade, mas principalmente a raridade dos objetos. Por conta disso, dona Eulália fazia questão de colocar um lindo e ornado jarro em posição de destaque, o que chamava a atenção e provocava olhares invejosos nas outras mulheres, enquanto os homens folheavam as enormes e barulhentas folhas dos periódicos. 

          Pois aconteceu justamente num sábado, quando Elisa, com a tristeza estampada no seu rosto de menina, foi bater à porta das casas da vizinhança. E quem a recebia já era informado sobre o trágico ocorrido.

          — Mamãe morreu.

          Todos procuravam consolar a garotinha, que continuava sua sina de informar a todos sobre o inesperado falecimento da sua mãe. Pobre menina, que, depois de completar boa parte das residências, parou diante da casa da Júlia. Esta estava de saída com a genitora, que recebeu a notícia incrédula, mas cheio de pesar.

          — Meus sentimentos, Elisa. Vou já, já na sua casa.

          Assim que a garota se despediu, Júlia esperou que a coleguinha se afastasse o suficiente para não escutar o que precisava dizer.

          — Mamãe, a Elisa está mentindo.

          — Júlia, minha filha, respeite a dor da sua amiga. 

          — Mas ela é mentirosa, mamãe.

          — Que bobagem! Olha aquele povo todo em frente à casa da finada Eulália.

          Comovida pela notícia da partida da vizinha, lá foi a mulher e a filha prestar condolências para o Jonas. Mal juntou-se à pequena plateia em frente à casa do viúvo, eis que este saiu. Estava procurando pela filha, que havia saído sem pedir permissão. O homem estranhou aquela gente toda.

          — O que houve? Não vão me dizer que aconteceu alguma coisa com a minha Elisa?

          Aurora, uma das moradoras mais antigas, foi a primeira a prestar condolências para o sujeito, que, a princípio, não entendeu.

          — Minha senhora, a minha mulher está vivíssima da silva!

          E não é que dona Eulália apareceu, para surpresa da multidão. De avental molhado porque estava areando os alumínios, ficou furiosa com a filha. Por pouco a Elisa não tomou uma surra, mas ficou uma semana inteirinha de castigo. Quanto àquela gente toda, a quase defunta não teve alternativa melhor a não ser oferecer chá e torradas.