domingo, 16 de junho de 2024

Salvo pelo guarda-chuva

    Gostava de se travestir, seja de repórter investigativo, seja de astro do rock, seja de qualquer personagem que lhe trouxesse calafrios. Sentia prazer no desespero e na aflição, ainda mais diante de situações que precisava agir de supetão. Pensamentos lógicos não faziam parte do seu repertório. Agia por instintos, na maior parte imprecisos.  

        Argemiro Cantagalo, certa feita, engraçou-se para o lado de mulher casada. Acabou de caso sério com a tal esposa de outrem. Tudo parecia dentro dos conformes, pois o traído não desconfiou a princípio. O problema foi logo após alguns meses, quando o marido notou, assim que retornou ao lar, que os chinelos estavam molhados. 

        — Alzira, por acaso você usou meus chinelos?

        — E eu lá ia usá-los por quê, Cornélio?

       O gajo ficou com a pulga e mais um monte de insetos atrás das orelhas. Não passaria daquela semana. Se houvesse algo para ser descoberto, que fosse descoberto, custasse o que custasse. Cornélio estava disposto a pagar pelo preço, por mais elevado que fosse.

        Foi na quarta-feira, que dizem ser o dia mais propício para os amantes agirem. Cornélio, que nunca chegava antes das sete da noite, tratou de fazer uma visita surpresa à esposa no meio da tarde. Mal passou a chave na porta do apartamento, parece que Alzira percebeu o barulho. Ela tratou de cutucar o amante, que dormia completamente nu ao lado.

        Argemiro jogou as roupas e os sapatos pela janela. Pensou em pular. Segundo andar, um pouco alto. Melhor seria enfrentar a situação. Conversaria de homem para homem com o marido da amante e, civilizadamente, resolveria a pendenga. 

            O pelado, covarde como ele só, mudou de ideia, pegou o guarda-chuva que estava no canto e, antes de pular, o abriu para amortecer a queda. Não amorteceu, mas, por milagre do santo dos concubinos, safou-se quase ileso. 

            Cornélio, assim que abriu a porta, viu a esposa dormindo languidamente na cama. Desconfiado, vasculhou todo o quarto. Nenhuma pista. Foi até a janela e viu o guarda-chuva lá embaixo.

            — Alzira, por que o meu guarda-chuva está na calçada?

            — Meu amor, pra que você quer aquilo? Em Brasília nunca chove.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Salvo pelo guarda-chuva" foi publicado por Notibras no dia 16/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/cornelio-como-diz-o-nome-e-ludibriado-por-alzira/

sábado, 15 de junho de 2024

Bigode grosso

    

Joel acordou decidido. Não passaria daquele dia. Decisão mais que tomada. Atitude, que lhe faltara por tantos anos, agora estava fazendo sala. Bastaria cuspir as palavras ensaiadas diante do espelho. Sim, isso mesmo! Cuspi-las-ias todas na cara da Lindaura, a esposa.

          Há tempos andava com complexo de Bentinho. Sim, Lindaura nada mais era do que uma Capitu, cuja lascívia era comentada por todos no bairro Cuiá, em João Pessoa. Uma despudorada, que nem sequer respeitava o bigode grosso do marido. Onde já se viu tamanho despautério?

          O homem vestiu o melhor terno, penteou os cabelos até colocar cada fio no devido lugar. Foi em direção à cozinha, onde Lindaura, xícara na mão, sorvia o café com leite. O pão, repousado no prato ao lado, completava o dejejum da mulher. Joel a encarou, mas a esposa nem deu bola. Ele deu uma fungada sonora, último ato para falar o que havia treinado. 

          Como o tempo estava curto, Joel achou por bem guardar para mais tarde o que precisava ser dito. Pegou as chaves do carro no gancho preso à parede e saiu sem dizer palavra. O trabalho o aguardava. 

          Quase uma hora da tarde, Joel retornou para casa. Agora não haveria hesitação. Mal abriu a porta, pisou firme no azulejo da sala. Entretanto, eis que algo lhe chamou a atenção. Que cheiro era aquele? Aroma melhor do que de rapariga fresca. 

          Joel foi até a cozinha, onde encontrou Lindaura colocando o almoço na mesa. Carne de sol com macaxeira frita, tudo regado a muita manteiga de garrafa. O marido puxou uma cadeira e se sentou. Por aquele dia, deixaria repousar toda a ânsia guardada. Todavia, de amanhã não passaria. Ah, não mesmo! Diante do prato cheio, Joel suspirou.

          — Hum, que delícia!

As três Marias, nenhuma Maria

    

            Não eram trigêmeas, o que poderia ser facilmente constatado pela flagrante diferença de idades, especialmente entre as duas maiores e a caçula. No entanto, de tão parecidas, era nítido que aquelas três possuíam semelhanças bem além do DNA. Eram irmãs, mas havia algo muito mais poderoso que as unia: o amor. 

          Poderia começar pela mais velha ou até mesmo pela mais nova. Todavia, iniciarei pela Mariana, cujos 21 anos poderiam ser contados a partir do dia do seu nascimento, ocorrido na cidade mais linda do mundo, a despeito dos despeitados de plantão. Pura inveja!

          Pois bem, essa garota, após alguns anos, devido a conjunturas da vida, acabou se mudando para um aprazível vilarejo chamado Coqueiral, que fica lá em Aracruz-ES. Mas, quando chegou o tempo de fazer faculdade, não teve dúvida. "Quero estudar na USP!" E lá foi a garota seguir seu sonho na capital paulista.

          Quanto à maior, aos 28 anos, é advogada em Brasília. Aliás, acredite ou não, a Ana Maria, pois é como se chama a moçoila, não raro, afirma categoricamente que está velha. Velha? Aos 28 anos? É sério? Deve ser porque a caçulinha, a Maria Luiza, está longe de completar o primeiro aniversário. Seja como for, daqui a 40 anos ou mais, caso a doutora resolva reler tal crônica, perceba que ninguém é velho em idade tão tenra. Certamente dará boas gargalhadas da sua equivocada percepção de agora.

          Já a Malulinha, antes de nascer, foi tema de altas discussões. A primeira, que na verdade nem é discórdia, mas constatação de algo que viria a acontecer, é que a Mariana ficou muito feliz e pulava que nem canguru em dia de feira. "Nem acredito que não vou ser mais a caçula! Agora vou ter alguém que posso mandar!" A verdadeira cizânia foi outra.

          Como a Ana Maria e a Mariana nasceram no Rio, elas queriam porque queriam que a irmã também nascesse na Cidade Maravilhosa. No entanto, após uma série quase infinita de reuniões acaloradas com a minha esposa, a famosa Dona Irene, eis que o palanque não funcionou. Valeu o bom senso da Malulinha nascer em Porto Alegre, que é onde moramos atualmente. 

          Pois é, a gauchinha da família, sempre que encontra as irmãs, se diverte muito, pois solta boas gargalhadas. É muito bom vê-las reunidas, ainda mais porque percebo que a Ana Maria e a Mariana não desistiram daquela pauta de tantas e tantas reuniões, pois fazem questão de falar com a caçulinha: "Não fique triste, pois você é carioca de coração!"

  • Nota de esclarecimento: A crônica "As três Marias, nenhuma Maria" foi publicada por Notibras no dia 15/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/malulinha-gaucha-cacula-e-carioca-de-coracao/

 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

O homem que queria ser Padilha

    

    Ernesto Padilha. Ernesto para a família, Padilha para o mundo. Até Adalgiza, a colega de trabalho com quem o gajo estava de caso, só o chamava pelo sobrenome, inclusive nas horas de alcova. Não se sabe se por conta do hábito ou, então, para não levantar suspeitas. Se bem que o buchicho corria solto entre os funcionários.

    Mal pisava em casa, a face do Ernesto se tornava funesta. Se dava um passo para fora, o sorriso estampava aquela cara de pau. Os amigos o recebiam de braços abertos, seja no bar, seja na repartição, seja na esquina para um bate-papo sobre as últimas desimportâncias. 

       Padilha andava com ideias de separação. Filhos quase criados, daqui a pouco era cada um por si e Deus para quem quisesse seguir a cartilha. Para Olívia, a esposa, deixaria a casa e uma pensão que não a deixasse passar fome. Estava de bom tamanho. Quanto a ele, cairia na esbórnia, pois sabia que um homem não pode fugir do próprio destino. Que assim fosse, como está escrito no manual dos canalhas.  

        Tudo parecia acertado para aquela sexta-feira. Pois é, uma sexta-feira! Melhor dia não poderia existir, já que sairia do serviço direto para o bar com os amigos e, de lá, rumaria para algum hotelzinho da região para passar mais uma noite com a Adalgiza. Pensando bem, já estava na hora de trocar a amante por outra, mesmo porque, vez ou outra, chega carne nova no açougue. 

         Chega de Ernesto, agora era só Padilha! E lá foi o homem, peito estufado, mais confiante que gorila em dia de briga contra mico, contar para o Juvenal, colega do trabalho. No entanto, aquele sorriso cheio de dentes bateu de cara contra a carranca do amigo.

            — O que houve? Que cara é essa, Juvenal?

            — O chefe me mandou te entregar isso. Ele mandou dizer que não é nada pessoal, mas apenas contenção de despesas.

            Padilha ficou branco assim que bateu os olhos naquele bilhete azul. Sem forças para proferir palavras, deu meia-volta e retornou para a casa. Encontrou apenas a Olívia, os filhos estavam na escola. A esposa, que de boba não tinha nada, percebeu que o marido havia sido despedido. Ela o abraçou e procurou confortá-lo.

            — Vai ficar tudo bem, Ernesto. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O homem que queria ser Padilha" foi publicado por Notibras no dia 14/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/ernesto-que-queria-ser-so-padilha-fica-sem-adalgiza/

 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Elma e o relógio

    

        Elma parou diante daquela preciosidade dourada, que reluzia ao menor facho de luz que entrava pelas frestas espremidas da cortina. Era o detalhe que faltava para realçar o pulso delicado, mas firme de mulher decidida a tomar as rédeas da vida. Parou em frente ao amplo espelho do quarto, quando ouviu a voz de Leandro, o marido.

          — Amor, já estamos atrasados.

          — Cinco minutinhos.

          O homem, apesar de impaciente, sabia que não teria chance em contenda contra a esposa. Professor de português que era, sabia que os tais cinco minutos era o mais descarado dos eufemismos. Que esperasse sem reclamar. É sina de marido que aprecia paz.

          — Como estou?

          — Linda!

          — Hum. 

          — Podemos ir?

          A mulher enlaçou o braço do marido e saíram. Apesar da distância até o local do evento ser de menos de um quilômetro, não era de bom-tom irem a pé, ainda mais quando se está em trajes de gala. O local era concorrido, o que fez com que o percurso durasse mais de meia hora. Assim que Leandro estacionou, entregou as chaves do veículo para um dos funcionários do local.

          O casal, mal entrou no recinto, foi cumprimentado por alguns conhecidos. Norma, esposa do Aristides, foi a primeira a notar o belo relógio de Elma.

          — Amiga, que preciosidade é essa?

          — Um mimo que o Leandro me deu no nosso último aniversário de casamento.

          — Aristides, você precisa aprender com o Leandro. Por que você nunca me deu um relógio?

          — Ué, pra quê? Você nunca olha as horas mesmo.

          Por impulso ou curiosidade, Elma olhou discretamente para o seu pulso esquerdo para saber as horas. Os ponteiros marcavam 3h25, quando era óbvio que já passava das 10h. Pior, os ponteiros não se mexiam. A mulher, impaciente, deu dois discretos piparotes no relógio, mas nada dele funcionar. Pensou até em guardá-lo na bolsa na primeira oportunidade. Todavia, o danado era tão lindo e, ainda por cima, completava o visual. 

          Na primeira oportunidade, Elma perguntou as horas para o marido. Tratou de acertar os ponteiros e, em seguida, deu umas sacudidelas no pulso. Nenhum movimento dos ponteiros. Ela, finalmente, confidenciou para o esposo.

          — Meu bem, a bateria acabou.

          — Bateria? Que bateria?

          — A bateria do relógio.

          — Elma, esse relógio é de corda.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Elma e o relógio" foi publicado por Notibras no dia 13/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/bateria-no-fim-que-nada-nem-tic-tac-e-de-graca/

O homem que morde

        Criança não é apenas um ser humano em miniatura. Não mesmo! Se fosse, era apenas questão de crescer braços, pernas, tronco, cabeça, o corpo todo. Se você duvida, eis uma história real, que aconteceu lá pelos lados de Formosa do Rio Preto, Bahia. 

      Pelo que me chegou, o fato ocorreu em uma casa modesta, que era cercada por tantas outras do mesmo estilo. Nesse lar, moravam a mãe, o pai e as crianças, que formavam uma escadinha. Salete, a maior, estava com quase oito. Silvano, apesar de ser o do meio, gostava de dizer que era o mais velho, mal contava com seis. Já a Nicolina, a caçulinha, havia completado quatro anos nos primeiros dias de janeiro. 

      A rotina daquela família era o pai sair cedo para trabalhar, as crianças irem para a escola no período da tarde, enquanto a esposa tomava conta de tudo, além de ganhar um dinheiro dando aula de reforço para os filhos das vizinhas. De tanto trabalho, não raro, assim que o marido jantava, a mulher se recolhia para recuperar as energias para o dia seguinte, que prometia ser duro como todos os demais. 

        Naquela noite, que nem estava tão adiantada assim, a mulher já sonhava com o paraíso, talvez para esquecer o que a esperava no outro dia. O pai, que havia jantado, estava tomando banho para também ir se deitar, enquanto as crianças brincavam na sala. Nisso, alguém bateu à porta. Salete, na sua autoridade de primogênita, foi ver quem era. 

        A menina trocou algumas palavras com o homem por detrás da porta. Em seguida, correu até o banheiro para avisar o pai, que ainda estava debaixo do chuveiro.

        — Pai, tem um homem lá na porta querendo saber se o senhor morde.

        — O quê? Que história é essa, menina?

        O pai, enrolado na toalha, tratou logo de ver que história era aquela. Foi até a porta, a abriu e, após trocar algumas palavras com o tal homem, retornou gargalhando.

        — Pai, o homem mordeu o senhor?

           — Que mordeu o quê, Salete! Ele queria saber onde era a casa do senhor Hermógenes.

  • Nota de esclarecimento: O conto "O homem que morde" foi publicado por Notibras no dia 13/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/salete-inocente-nao-entende-nome-de-hermogenes/

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Valdireno, o torcedor azarado

     

        Valdireno Pedreira, maranhense de nascimento, havia se mudado ainda criança para o Rio de Janeiro. Cresceu, a tia lhe arrumou colocação em uma repartição pública, onde progrediu até o posto de chefe de seção, indo parar em Brasília assim que a nova capital deu seus primeiros passos. Aposentou-se por lá e, por circunstâncias familiares, foi morar em Porto Alegre há pouco tempo, quando já estava batendo à porta dos 90 anos. 

          Na capital gaúcha, apesar de insistências dos novos amigos, não teve preferência na eterna disputa entre Grêmio e Colorado. No entanto, como o seu time do coração andava mal das pernas há quase uma década, começou a buscar outro esporte para assistir. Acabou por gostar de vôlei, o que gerou até uma rivalidade com a esposa, a Martalice, que foi torcer justamente para o principal rival.

          Torcida pra cá, torcida pra lá, o casal passou a curtir aqueles momentos, até que o inevitável aconteceu. Pois é, o time do Valdireno virou freguês justamente da equipe da esposa. O velho não aguentou tanta zoação e foi dar um passeio pelo bairro Menino Deus, justamente no dia da final do campeonato, que seria disputado pelos times do casal. Valdireno não suportaria assistir ao jogo com esposa cornetando ao lado. Ah, não mesmo! 

          Enquanto caminhava pelas largas calçadas, percebeu que o bar do Vavá, ali próximo, estava lotado. Gente colorada, gente gremista. Pelo visto, era dia de mais um Grenal. Como o bar estava lotado, resolveu pedir uma água com gás ali mesmo no balcão.

          Valdireno, próximo ao último gole, se lembrou da final do vôlei. Será que o seu time estava tomando mais uma surra? Impaciente como ele só, aproximou-se da enorme televisão do bar e não viu problema em trocar de canal, já que o Grenal nem havia começado. Acredite, o velho trocou!

          O homem, com tal gesto, conseguiu o impossível por aquelas bandas: uniu torcedores do Internacional e do Grêmio. Valdireno, depois de uma saraivada de palavrões dirigidos à sua pessoa, achou melhor pagar pela água com gás e voltar para casa, onde encontrou a esposa com aquele sorriso no rosto. Pois é, o time da Martalice havia aplicado mais uma surra no do marido. Durma com essa, Valdireno!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Valdireno, o torcedor azarado" foi publicado por Notibras no dia 12/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/valdireno-torcedor-azarado-engole-zoas-da-mulher/

terça-feira, 11 de junho de 2024

Salete, a tresloucada

    

Não sei se é verdade ou se foi apenas uma brincadeira da Salete, a senhora que mora aqui ao lado. Que ela é doida, não resta dúvida. Tanto é que, não raro, alguém lhe diz na lata: "Ih, Salete, nem vou tentar argumentar. Quem discute com louco também não é bom da cabeça."

          A despeito de tamanha insanidade, de tantas besteiras proferidas, talvez uma ou outra coisa possa ser aproveitada, assim como acontece com aquela pepita de ouro escondida numa infinidade de areia. Vai quê! Pois foi o que parece que aconteceu por esses dias, justamente na porta da creche, onde fui buscar a minha filha. Lá estava a Salete de bate-papo com a Neide enquanto também esperavam por suas crias. 

          Ah, antes que me esqueça de um detalhe importantíssimo, é bom lembrar que aquelas duas mulheres adoram fazer uma fezinha no jogo do bicho. No entanto, talvez por azar ou falta de entendimento sobre os significados dos sonhos sonhados por elas ou por outrem, até onde se tem notícia, nunca acertaram nem no grupo, quanto mais no milhar a seco. 

          Azaradas que são, as duas tentavam decifrar como ficar rica no jogo do bicho. Pensa daqui, pensa dali, eis que a Salete, quase gritando com aquela voz característica de gralha, abriu aquele sorrisão.

          — Que jogo do bicho que nada, mulher!

          — Como assim, Salete?

          — Neide, quem fica rico é o banqueiro, nunca o apostador.

          — Tá. E daí?

          — Vamos criar o jogo da fruta.

          — Jogo da fruta?

          — Sim! Abacaxi, ameixa, amora, banana, carambola, jabuticaba. Vai ter até melancia, que é a minha fruta favorita.

          A conversa prometia, mas chegou a hora de pegar a Carol, minha garotinha. Voltei para casa pensando naquela ideia. Gente, até que a Salete, depois de tanta areia, conseguiu cuspir uma pepita de ouro. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Salete, a tresloucada" foi publicado por Notibras no dia 11/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/salete-a-tresloucada-acha-maneira-de-ficar-rica/


segunda-feira, 10 de junho de 2024

O mistério de tia Rosa

       

        Tia Rosa é afamada por tantos eufemismos. Não acredito que ela procure se esconder da crueza da vida, mas apenas floreá-la. Além disso, até onde me lembro, não é afeita a misticismo. Tanto é que nunca a vi em igrejas ou rezando ao pé de algum santo, costume tão comum na família.

          Casou muito cedo com o primeiro namorado, mas foi coisa que não durou mais que ano. Por sorte, como ela gostava de dizer, o tempo de alcova não foi suficiente para gerar fruto. A família nunca soube se foi por causa de prevenção de tia Rosa ou por conta de defeito do marido, que caiu no mundo e nunca mais se ouviu falar. Um traste, como todos se lembravam do sujeito.

          Lá pelos 30 anos, durante reunião de mulheres da família, minha tia revelou que estava grávida. Minha mãe logo perguntou quem era o pai, mas a buchuda sorriu e disse que não tinha certeza, para desespero do vovô, que estava sentado na cadeira de balanço no canto. De tão assustado, pensei que fosse enfartar. 

          Meu avô sobreviveu e, já beirando final de ano, conheceu o neto, José Carlos, que nasceu trigueiro como os nossos. Os olhos azuis, mesmo que denunciasse um antepassado por todos desconhecido, apontava para o Alfredo, dono da padaria, um dos poucos amigos da família com tal característica. O problema é que o homem era casado com uma prima nossa distante. 

          Apensar das desconfianças que sempre existiram, ninguém foi capaz de decifrar aquele mistério até anteontem. É que o Alfredo virou finado um dia antes. A parentada quase toda se fez presente no velório, inclusive tia Rosa e o filho, cheio de adolescências nos seus 14 anos. 

          — Mãe, quando é que a senhora vai me levar pra conhecer o meu pai?

          — Se aquieta, menino! Seu pai acabou de virar camisa de saudade.

  •  Nota de esclarecimento: O conto "O mistério de tia Rosa" foi publicado por Notibras no dia 10/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/filho-enfim-conhece-o-pai-mas-no-cemiterio/

domingo, 9 de junho de 2024

O desejo de Stella

 

     Otimista ao extremo, Stella não se deixava abater por contratempos, por maiores e mais cabeludos que fossem. Nada parecia abalar a confiança daquela mulher, que enfrentaria o que fosse necessário para atingir seu objetivo, que, naquela semana, era tomar um sorvete de casquinha com o moço bonito, que a atendia diariamente no balcão da padaria da esquina.

   A mulher estava acompanhada da Arlete, sua amiga de longa data, com quem guardava raras semelhanças e quase todas as diferenças. Talvez, por isso mesmo, as duas se davam tão bem na maior parte do tempo. Não que isso fosse uma verdade absoluta, como também estava longe de ser uma flagrante invencionice.

    Arlete, sejamos sinceros, guardava uma pontinha de inveja da quase irmã, mas nada que passasse de mera admiração por qualidades que enxergava em quase ninguém além da outra. A maior delas, provavelmente, era a audácia. Sim, isso mesmo! Audácia! Afinal, de nada vale o otimismo se não acompanhado da gana de ir atrás do que se deseja. 

    Na manhã seguinte, Arlete encontrou Stella com um sorriso maior do que a cara ali sentada à mesa do canto na padaria onde o bonitão trabalhava. Por que tamanha felicidade àquela hora? O relógio ainda teria que percorrer um longo caminho até dar 8 horas. Será que havia conseguido seu intento? Não era possível, haja vista, na noite anterior, tê-la acompanhado até seu apartamento, onde pediram uma pizza e assistiram a um filme até tarde. 

    Arlete se lembrava que havia ido embora quando já era quase meia-noite. No entanto, antes que pudesse questioná-la, eis que o balconista se dirigiu até a mesa ao lado, onde serviu um casal de idosos. Em seguida, o rapagão se virou e lançou um sorriso para Stella. Depois, ele retornou para o balcão, enquanto, finalmente, Arlete, mais curiosa do que nunca, quis saber o que estava rolando.

    — Ele me convidou para tomar sorvete mais tarde.

    — Como assim? Do nada?

    — Hum. Usei um antigo ensinamento da minha saudosa vovó.

    — O que você aprontou, Stella?

    — Pedi um café.

    — Não entendi. Um café? E o que tem isso a ver? 

    — Amiga, café torna tudo possível!

Nota de esclarecimento: O conto "O desejo de Stella" foi publicado por Notibras no dia 9/6/2024.

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Dirce e o mundo ao redor

     

Não se sabe exatamente como aconteceu, mas aconteceu naquela cidade no sertão do Nordeste. Dizem que começou com a Dirce, mulher já passada dos 70 anos, que, saudosa de tempos de outrora, esqueceu seu aparelho celular sobre a cômoda. Falam até que foi de propósito. 

          Dirce, que havia saído para fazer algumas compras na mercearia do bairro, quando se deu conta do canto de um sabiá-laranjeira, parou um instante para observá-lo. Ela conhecia tal pássaro de peito garboso, mas, a despeito de tentar buscar na memória, não conseguiu recordar a última vez que ouvira aquela melodia. 

        Na venda, a mulher reparou como as frutas estavam bonitas, especialmente as maçãs. Ela pegou uma e a levou até as narinas. Hum, que cheirinho gostoso de maçã. Dirce pensou que deveria fazer isso mais vezes. Fez o mesmo com as uvas, as laranjas e especialmente com a graviola, que a remontou ao tempo de menina, quando se lambuzava com os irmãos debaixo do pé dessa fruta no quintal da avó. 

          Com a sacola cheia, foi pagar pelas compras. Foi aí que reparou nos olhos do Amâncio, o dono do comércio. Eram de um castanho quase negro, com cílios que pareciam cortinas.

          — Aposto que você puxou os olhos da sua mãe.

          — É verdade. Mas os de mamãe eram mais bonitos.

          A velha retornou para casa, onde encontrou, de pé na calçada em frente à porta, os filhos: Marisa e Júlio. 

          — Mamãe, onde a senhora estava? Pensamos que tivesse acontecido alguma coisa.

          — Como assim, meu filho?

          — A senhora não respondeu as mensagens que mandamos. Nem atendeu o celular.

          — Ah, esqueci. Mas você sabe que foi até bom.

          — Por quê?

          — Minha filha, você já reparou nos olhos do Amâncio?

          — Amâncio? O da mercearia?

          — Sim. Sabia que ele puxou os olhos da mãe?

          — Mãe, a senhora está se sentindo bem? 

          — Melhor impossível! Ouvi até o canto de um sabiá.

          — Sabiá?

          — Sim! É tão lindo! E sinta o cheiro dessa graviola.

          — Mamãe, a senhora está muito estranha. 

          Marisa e Júlio até pensaram em internar a mãe, mas deixaram a coisa correr. Dirce, por sua vez, tratou de guardar o aparelho celular no fundo de uma gaveta qualquer e, depois de algum tempo, até se esqueceu de onde o havia colocado. 

          A mulher passou a caminhar pelo bairro, apreciava tudo ao seu redor, como se fosse a primeira vez que fazia aquilo. Não era, mas queria porque queria curtir cada instante, cada som, cada odor, cada flor que despontava nos canteiros ao longo das calçadas. De tão feliz, gerou curiosidade numa vizinha, que também passou a esquecer o celular. 

          Esse hábito acabou por pegar todas as pessoas da rua, que gerou uma onda nas ruas abaixo, até que tomou todo o bairro e, não demorou, chegou aos bairros ao lado. No final de dois meses, aquela estranha doença acometeu todos os habitantes da cidade.  A coisa ficou tão grave, que tem gente que até conversa em fila de banco. Quanto aos celulares, todos adormeceram por falta de bateria. Seja como for, está tudo bem.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dirce e o mundo ao redor" foi publicado por Notibras no dia 9/6/2024.
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A nada fácil vida de Luciana

    

Luciana, que precisou se fazer mulher antes dos 13 anos, suava por todos os poros para colocar comida na mesa. Sem conhecimento e cheia de inocência, foi ludibriada por Romão, homem feito, que prometeu proteção e conforto à garota. Bastava ser boazinha e seguir as instruções dadas.

          — Lu, meu amor, faça assim, que vai ser sucesso. Mas aquilo é apenas para quem tem os bolsos estufados. E nada de fiado, pois a praça está abarrotada de maus pagadores.

          Apesar da repulsa por certos clientes, Luciana não teve coragem de contrariar o namorado. E assim foi sobrevivendo com a promessa de dias melhores, até que, após beirar os 20 anos, viu-se desenganada. Todavia, para não criar pendenga com Romão, percebeu que havia criado uma muralha para impedir que qualquer sentimentalismo escorresse pela face já acostumada com safanões. Era sina e precisava aceitá-la.

          No seu aniversário de 36 anos, Luciana, tarimbada que havia se tornado, possuía uma clientela satisfeita e fiel com os serviços prestados. De tão competente que era, a mulher, vez ou outra, despertava paixões arrebatadoras. O mais notório caso aconteceu com o Osvaldo, recém-casado, que queria largar a esposa para se entregar à luxúria nos braços da Luciana. Todavia, profissional que era, sabia muito bem separar as coisas e tratou logo de colocar algum juízo na cabeça do homem. 

          Se Luciana conseguiu salvar o casamento do cliente, não se podia dizer que sua vida era um mar de flores com Romão. É que o homem danou a beber e gastar além da conta. Não importava quanto dinheiro a mulher conseguia fazer, lá ia o cafetão torrar tudo. Era um saco sem fundo, tamanha a gastança do gajo.

          Cansada daquela situação, Luciana, assim que retornou ao seu apartamento após uma noitada bastante movimentada, encontrou Romão esparramado no sofá. Várias latas de cerveja vazias ao lado e no tapete. De tão grogue, o homem apenas abriu os olhos e resmungou algo ininteligível. A mulher sacou um bolo de notas da bolsa, separou algumas cédulas graúdas e as atirou no rosto do sujeito.

          — Romão, acabou a sopa de minhoca! Pegue as suas coisas e suma daqui!

  • Nota de esclarecimento: O conto "A nada fácil vida de Luciana" foi publicado por Notibras no dia 10/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/cansada-dos-abusos-luciana-despacha-cafetao/


sábado, 8 de junho de 2024

Gildiane, James, Marisa e a terapia

        

        A baiana Gildiane, assim que bateu os olhos sobre o paraibano James, soube que se envolveriam de alguma forma. Não necessariamente se casariam, mas a cama era destino certo. E foi o que aconteceu quase dois meses após aquele primeiro encontro, lá pelos clandestinos idos de 1974, em Salvador.

       Debaixo dos lençóis, o casal percebeu que até poderia levar a vida separado. No entanto, os dois quiseram meter a cabeça e o coração naquele relacionamento. É verdade que, vez ou outra, aconteceram alguns entreveros, mas nada que fizesse a mulher e o homem desistirem de continuar juntos. E foi o que fizeram até que, após exatos 50 anos do primeiro olhar, Gildiane, fragilizada e cheia de dores por conta de um câncer descoberto tardiamente, sucumbiu. 

      Desolado pela perda, James ficou sem saber o que fazer com os anos que ainda precisaria enfrentar sozinho. Depois de tanto tempo ao lado da amada, se sentiu tão frágil, que até para amarrar o cadarço do sapato precisava da ajuda da filha, Marisa. Esta, por sinal, apesar das feições parecidas com o pai, possuía o gênio da falecida. 

            Marisa acompanhou o martírio da mãe nos poucos meses de tratamento paliativo. Agora, para que a situação não degringolasse de vez, estava ciente de que o pai precisava de atenção redobrada. E foi o que fez. No entanto, mesmo as rochas sofrem com a tempestade e, não tardou, a mulher foi fazer terapia. 

        — Mamãe faleceu há um ano. Desde então, cuido do meu pai.

        — Marisa, a morte é dura.

        — Morrer é fácil, doutora. O problema é o que vem antes e a bagunça que fica depois.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Gildiane, James, Marisa e a terapia" foi publicado por Notibras no dia 8/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/gildiane-mae-james-pai-e-a-terapia-da-filha-marisa/

Francineide, Francinaldo e o sorriso banguela de Francenilde

 

Francineide e Francinaldo, casados há pouco mais de cinco anos, faziam questão de manter viva a chama da paixão. Era beijinho daqui, afago dali, até mesmo uma mão-boba acolá. Coisas de gente repleta de furor. 

          Aqueles dois nem pensavam em ter filhos. Mas eis que, numa linda manhã de meados de dezembro, Francineide acordou decidida a ser mãe. Sorriu aquele sorriso impossível de resistir, enquanto o marido ainda despertava para mais um dia de trabalho. Não deu outra. Francinaldo chegou tarde ao serviço naquele dia, mas nada que uma desculpa esfarrapada não pudesse ser usada. Bastava uma boa dose de óleo de peroba para passar naquela cara de pau.

          Para surpresa da mulher, as regras não vieram logo no mês seguinte até que, já nos primeiros dias de setembro, chegou ao mundo a menina mais linda, que, obviamente, teria que receber um nome à altura: Francenilde. Parece que a garotinha adorou, pois não parava de sorrir aquele sorriso repleto de gengiva e nenhum dente sequer. 

          Os primeiros dias foram todos dedicados à Francenilde, que, afinal, exigia atenção mais que redobrada dos pais. Hora de mamar, hora de dormir, hora de trocar a fralda. De novo? Sim, pois a pequenina não sabia nem engatinhar, quanto mais usar o penico. 

          Cólica, banho, choro bem cedinho. Ah, choro na hora do almoço. Solta o garfo e vá ver o que está acontecendo com a Francenilde. Ih, esse choro é de cólica. Não, não, acho que é de fome. Sabe de nada, Francinaldo. Isso é porque a fralda está cheia. Vá trocá-la, pois estou exausta.

          Apesar da correria, Francineide e Francinaldo estavam cada vez mais apaixonados pela filha. Mas como é que não fica apaixonado por criatura mais fofa? Impossível!

          Os meses fizeram com que Francenilde crescesse e ficasse cada dia mais participativa. Ela não queria agora só dormir e comer. Ah, não mesmo! Queria atenção de todos, que precisavam brincar com a guria. No entanto, aquele fogo entre Francineide e Francinaldo havia voltado. O problema era arrumarem tempo para se amarem.

          Pois o que aconteceu foi justamente numa manhã de março, quando, por um desses milagres mais raros do que gaúcho que não gosta de chimarrão, eis que aquele bebê dormia o sono mais profundo. Foi o gatilho para que Francineide lançasse aquele olhar de desejo sobre Francinaldo, que logo entendeu. 

          Trataram de se atracarem como dois famintos diante de um banquete. Era mão daqui, aperto dali, beijo acolá e tantas coisas mais acontecendo debaixo daqueles lençóis. Quanto desejo represado! Até que a mulher, com aquele instinto de mãe, resolveu dar uma espiadinha na filha, que estava no berço ao lado. Para espanto de Francineide, a menina, assim que avistou o rosto da mãe, sorriu aquele cativante sorriso banguela.

          — Oi, filhinha! Acordou? Mamãe já estava com saudade!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Francineide, Francinaldo e o sorriso banguela de Francenilde" foi publicado por Notibras no dia 8/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/francineide-francinaldo-e-o-sorriso-banguela-da-filha/