Desde então, o tempo voou para uns, arrastou-se
para outros, parou no meio do caminho para uma parcela e, infelizmente, ficou
lá atrás para quem ousou ir de encontro ao regime. Seja como for, Janete, aos
trancos e barrancos, sobreviveu. E hoje, beirando os 80 anos, poucos reconhecem
na senhora a mulher transgressora dos idos de 1970.
Viúva, desfruta da
aposentadoria ao lado da Elza, gata vira-lata de belos olhos alaranjados,
enquanto se debruça sobre um livro de contos ou de poemas. De vez em quando,
arrisca-se sobre um romance de algum escritor que descobre em bate-papos com
amigos no café da esquina, onde costuma ir às quartas-feiras.
Vida
pacata de quem não espera reviravoltas mirabolantes. Mesmo assim, duas ou três
vezes ao ano, Janete ainda consegue escrever boas histórias no seu diário,
quase adormecido por falta de assunto. Uma delas aconteceu recentemente no
apartamento do João, cujo pai um dia esteve no ventre de uma mulher que ousou,
há muito tempo, trajar biquíni com aquele barrigão de fora.
— Vovó, a senhora veio!
— E não era pra vir, João?
— Claro que era, vovó! Vem cá que quero apresentar os meus
amigos pra senhora.
Janete acompanhou o neto até a varanda, onde alguns jovens
sorridentes conversavam trivialidades. Não tardou, já acomodada em confortável num
sofá ladeada de duas moças de seus 20 anos, aceitou de bom grado compartilhar a
cerveja na mesa ao centro. E a conversa fluía agradavelmente até que o João fez
questão de apresentar para a avó o Renato, um convidado que acabara de
chegar.
— Vovó, este aqui é o Renato, o guru da galera.
— Guru?
— Sim, senhora. É como me chamam, mas eu prefiro ser
conhecido como aquele que enxerga adiante.
A idosa observou
aquele rapaz, que mal acabara de sair das fraldas, com o semblante carregado de
uma prepotência incomum até mesmo para os deslumbrados pelos próprios feitos.
Mas por que um moleque daqueles parecia ser tão reverenciado por todos?
Durante a quase uma
hora seguinte, Janete presenciou o inacreditável. Não somente o neto, como
também as duas garotas ao lado, bem como todos os outros presentes se sentaram
ao redor do tal guru para vê-lo adivinhar as coisas mais triviais sobre todos.
Cansada daquele
teatro mambembe, Janete pediu licença ao grupo, pois iria embora. Todavia,
Renato, o tal guru, ao tocar a sua mão, fechou os olhos, deu dois ou três tremeliques
no corpo franzino e, ao retornar do suposto transe, começou a dizer coisas
sobre a vida da avó do João.
— Meus amigos, estamos aqui diante de uma
mulher que honrou os pais, sempre foi recatada, obediente aos bons costumes, do
tipo fiel até que a morte os separe...
Bem,
apesar da enxurrada de elogios improváveis, ninguém ousou contestar o veredicto
do guru. Até mesmo a Janete lhe sorriu, fez cara de espanto, apertou a mão do
sujeito e, já de saída, foi questionada pelo neto.
— Vovó, não te falei que ele não erra uma?
— É verdade, João. O seu amigo guru erra todas!
- Nota de esclarecimento: O conto "Que nem Leila, mas sem sair em O Pasquim" foi publicado no Notibras no dia 13/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/que-nem-leila-mas-sem-sair-em-o-pasquim/

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