— Voa, garoto! A dona das empresas precisa de luxo.
Aquela recomendação paterna, alguém poderia dizer, seria apenas
mais uma piada jogada ao acaso. Que fosse narrativa ou vivência transformada em
anedota, Aristides guardou-a como algo a se guardar com cuidado, apesar dos
atritos que, naquele tempo, tinha com o pai.
O então jovem se aventurou pelo mundo e, ocupado que estava
para sobreviver, não teve tempo de decifrar o dito pelo genitor e, assim, o guardou
em algum canto da mente e, como era de se esperar, esqueceu-o como quem nem se
lembra mais da tabuada, exaustivamente aprendida durante os tempos de
escola.
Enquanto buscava riqueza, os que o rodeavam pareciam mais
preocupados em ter o que comer no dia seguinte. Não que essa preocupação não o
afligisse, mas era como se fosse combustível para atingir o improvável para os
que vinham da sua realidade.
Após quase duas décadas de labuta, não ficou
rico, apesar das posses consideráveis, o que lhe garantiu conforto muito acima
do esperado para alguém que havia vindo de tão de baixo. E queria mais, nem que
tivesse que consumir cada minuto da sua existência.
Aristides evitou ao máximo envolvimentos
amorosos, mas foi incapaz de desviar o olhar quando se deparou com Francisca.
Mulher de atributos físicos e morais acima da média. Não que ela fosse
candidata à Miss Brasil 2000, que nem a famosa música da Rita Lee. Também não
chegava à pieguice das heroínas de época. Era de verdade.
O homem, ainda lutando contra seus instintos,
acabou por convidar Francisca para um cinema. Ele imaginou que aquele inocente
encontro não passaria de um flerte. Puro engano, já que foi o estopim para
levá-lo ao altar.
Casado, Aristides nunca havia sido tão feliz.
A esposa se mostrou não só apaixonada, como também companheira de vida e com
grande tino comercial. Tanto é que o patrimônio do casal quase triplicou nos
anos seguintes.
Certa noite, antes de dormir, as palavras do
pai vieram lhe cobrar memória. Aristides virou-se para Francisca e sorriu. Ela,
olhos arregalados, quis saber o motivo de tamanha felicidade.
— Que tal passarmos um mês fora daqui.
— Hum. Adoraria! Mas pra onde você quer ir, Aristides?
— Pra onde você quiser. Um mês somente nosso.
- Nota de esclarecimento: O conto "Voa, Aristides!" foi publicado no Notibras no dia 28/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/voa-aristides/

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