quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Voa, Aristides!

     Quando Aristides saiu de casa para ganhar o mundo, ouviu do pai algo que só recentemente parece que lhe chegou o entendimento.

          — Voa, garoto! A dona das empresas precisa de luxo.

          Aquela recomendação paterna, alguém poderia dizer, seria apenas mais uma piada jogada ao acaso. Que fosse narrativa ou vivência transformada em anedota, Aristides guardou-a como algo a se guardar com cuidado, apesar dos atritos que, naquele tempo, tinha com o pai. 

          O então jovem se aventurou pelo mundo e, ocupado que estava para sobreviver, não teve tempo de decifrar o dito pelo genitor e, assim, o guardou em algum canto da mente e, como era de se esperar, esqueceu-o como quem nem se lembra mais da tabuada, exaustivamente aprendida durante os tempos de escola. 

          Enquanto buscava riqueza, os que o rodeavam pareciam mais preocupados em ter o que comer no dia seguinte. Não que essa preocupação não o afligisse, mas era como se fosse combustível para atingir o improvável para os que vinham da sua realidade. 

          Após quase duas décadas de labuta, não ficou rico, apesar das posses consideráveis, o que lhe garantiu conforto muito acima do esperado para alguém que havia vindo de tão de baixo. E queria mais, nem que tivesse que consumir cada minuto da sua existência.

          Aristides evitou ao máximo envolvimentos amorosos, mas foi incapaz de desviar o olhar quando se deparou com Francisca. Mulher de atributos físicos e morais acima da média. Não que ela fosse candidata à Miss Brasil 2000, que nem a famosa música da Rita Lee. Também não chegava à pieguice das heroínas de época. Era de verdade.

          O homem, ainda lutando contra seus instintos, acabou por convidar Francisca para um cinema. Ele imaginou que aquele inocente encontro não passaria de um flerte. Puro engano, já que foi o estopim para levá-lo ao altar. 

          Casado, Aristides nunca havia sido tão feliz. A esposa se mostrou não só apaixonada, como também companheira de vida e com grande tino comercial. Tanto é que o patrimônio do casal quase triplicou nos anos seguintes. 

          Certa noite, antes de dormir, as palavras do pai vieram lhe cobrar memória. Aristides virou-se para Francisca e sorriu. Ela, olhos arregalados, quis saber o motivo de tamanha felicidade.

            — Que tal passarmos um mês fora daqui. 

            — Hum. Adoraria! Mas pra onde você quer ir, Aristides?

            — Pra onde você quiser. Um mês somente nosso.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Voa, Aristides!" foi publicado no Notibras no dia 28/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/voa-aristides/

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