sábado, 31 de janeiro de 2026

Família é tudo igual, mas a da Camila é muito pior

      

        Família é uma espécie de fauna que você não tem controle sobre os espécimes raros que aparecem a cada geração. Todos nós temos um parente ou outro que, temos certeza, já nasceu treinado para constranger os seus. No entanto, no caso da Camila, ela parece ter nascido em uma família premiada, tamanho o capricho do dedo de Deus.

          Jaime, um dos tios, era meio resmungão, meio filósofo de botequim, do tipo que quer porque quer encontrar razão até mesmo na quantidade de colheradas de açúcar que você põe ou deixa de colocar no café. 

          — Hum! Tá faltando amor na sua vida. Acertei?

          — O quê, tio?

          — Essa sua ânsia por açúcar. Quem é que coloca quatro colheres cheias de açúcar no café?

          — É proibido agora?

          — Falta de amor, Camila. Eu sabia!

          Carlos, o irmão, era devagar quase parando. Os pais até suspeitaram de anemia falciforme e levaram o rapaz ao médico. Que nada, o rapaz possuía mais hemácias do que a maioria de todos nós. 

          — Dona Júlia e seu Osmar, vocês podem ficar despreocupados, que o filho de vocês é normal. Um tiquinho lento, é verdade, mas jabuti também é e vive um montão. Não é verdade?

          Os pais até sentiram certo alívio, mas caíram na besteira de comentar sobre o tal episódio em almoço de domingo na casa dos avós da Camila. Pra quê? O avô não era fácil e já saiu com essa:

            — Ah, Júlia, que bom!

            — Também achei, papai.

            — E tem mais, minha filha.

            — O quê?

            — O Carlos vai arrumar amizade fácil, fácil.

            — É?

            — É!

            — Essa não entendi, papai.

            — É que todo mundo vai querer o Carlos por perto numa briga.

            — Briga? Papai, o senhor tá louco? E desde quando o Carlos vai se meter em briga?

            — Bem, Júlia, se vai se meter em briga por querer, não sei. Mas, que na hora da briga, ele vai ficar pra trás enquanto todos os amigos vão dar pinote, ah, isso vai. 

            Como você já deve imaginar, o avô era o engraçadinho da família. Quer dizer, ele tentava, pois a avó era mais talentosa. Mas não pense você que Camila gostasse disso, mesmo porque, não raro, ela deixava a garota de um jeito que a pobre não sabia onde meter a cara. 

             Não faz muito tempo, lá estava a Camila com o Mauro, com quem estava dando uns beijos por aí. Pense num sujeito bonito. Aliás, bonito é o Brad Pitt. O Mauro é lindo! E, para ser perfeito, só faltava ter nascido com a voz do Milton Nascimento. Mas...

              Pois lá estava o casalzinho em um churrasco na casa dos avós. Era a primeira vez que a moça levava um rapaz para a família conhecer. É óbvio que Camila, até por conta de certa vaidade, não via a hora de mostrar para todos que era capaz de conquistar aquele pedaço de mau caminho.

            A parentada toda animada na varanda, eis que os dois pombinhos chegaram de mãos dadas. A avó, assim que viu o namorado da neta, exclamou:

            — Camila, que rapagão bem-diagramado que você arrumou!

          Você já imaginou como é que a garota se sentiu, né?! Era um misto de orgulho mesclado com falsa timidez. Mas eis que algo inusitado aconteceu. 

            — Prazer, sou o Mauro. E a senhora deve ser a dona Martinha. A Camila me fala muito bem da senhora. 

            Você se lembra de que, para ser a perfeição em pessoa, bastaria o Mauro ter nascido com a voz do Milton Nascimento? Pois é, não nasceu. E a vovó não perdoou.

            — Mas, Camila, como o seu namorado é mal dublado!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Família é tudo igual, mas a da Camila é muito pior" foi publicado no Notibras no dia 31/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/familia-e-tudo-igual-mas-a-da-camila-e-muito-pior/

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