quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Nicácio Fernández e o arquirrival, o escritor Paulo Coelho

     

    Nicácio Fernández era, antes de tudo, rancoroso por natureza ou, ao menos, circunstâncias. Nascido no dia 24 de agosto de 1947 no Rio de Janeiro, então capital do país, guardava tal similaridade astrológica com o afamado escritor Paulo Coelho. Talvez por isso, o sujeito também tenha sido puxado, de alguma forma, ao mundo da redação dos jornais, onde passou a se destacar por seus textos elogiados pelos editores e colegas, o que não o livrou de intrigas de certos invejosos. 

          De tão bom, alguém, não se sabe exatamente quem, o incentivou a escrever crônicas e contos. Nicácio pensou, pensou, pensou e, não tardou, imaginou-se o próprio Otto Lara Resende. Não era para tanto, mas a ilusão o envolveu de certa maneira que, algum tempo depois, foi diagnosticado como portador da síndrome da realidade paralela.

          Foi justamente quando a sua tragédia pessoal se instalou que o caminho de Nicácio cruzou pela primeira e única vez com o de Paulo Coelho, que, à época, era parceiro de músicas de um tal Raul Seixas. 

          — Bicho, tu tem que partir para romance.

          — Tipo Jorge Amado, Paulo?

          — Se eu fosse você, faria algo exotérico, que vai vender muito mais.

          — Mais do que ele?

          — Muito mais!

          — Sabe, Paulo, uma coisa que considero um absurdo?

          — O quê, Nicácio?

          — Não é revoltante que o Jorge Amado seja o brasileiro que mais vende livros no mundo? Muito mais do que o Machado de Assis. É um acinte! 

          — Gosto é gosto, bicho. Cada um tem o seu.

          — Veja bem, não estou falando mal do Jorge Amado, mas não dá pra compará-lo com o Machado de Assis, com o Lima Barreto...

          — Te entendo, bicho. Mas é como te falei. Parta pra algo exotérico. 

          — Tipo alquimia?

          — Hum...

          — Sabe, Paulo, valeu pelo conselho, mas não estou a fim de ser conhecido como o alquimista da literatura. Vão acabar me colocando a pecha de coach do mundo literário.

          — Hum...

          — O que foi, Paulo? Falei algum absurdo?

          — Nada, nada. O alquimista, né?

          — Seria ridículo, né?!

          Paulo Coelho, com brilho nos olhos, teria apertado a mão do Nicácio e, num gesto de agradecimento, lhe deu um abraço apertado e se despediu.

          — Valeu, bicho! Tenho que ir. O Raulzito tá na loucura de imaginar que nasceu há dez mil anos atrás. Pode uma coisa dessas? 

          Os próximos anos correram que nem poeira no deserto. Paulo Coelho após parceria de sucesso ao lado do Raul Seixas, foi se meter a escrever livros, entre os quais O alquimista, cujo sucesso estrondoso o ajudou a tomar o lugar do Jorge Amado como o escritor brasileiro mais vendido do planeta Terra. Quando ao Nicácio, desde aquele histórico encontro, sua trajetória foi constante ladeira abaixo. 

          O antes cronista número 1 se transformou em persona non grata na redação dos jornais por onde passou. Ninguém suportava sua arrogância, já que o sujeito se achava tanto, que o único jeito que Juvenal, editor-chefe, encontrou foi demiti-lo. E a fama de chatonildo agudo se espalhou por todas as outras redações, o que fez com que Nicácio, precisando sobreviver, implorar um emprego para um político que conhecia. 

          — Olha, Nicácio, o que posso te arrumar é uma vaga de contínuo num cartório lá em Brasília. Topa?

            — Você não tá precisando de um assessor de imprensa?

            — Nicácio, você tá de brincadeira, né?! Eu preciso me reeleger!

           Pois foi no início dos anos 1990 que Nicácio trocou a Cidade Maravilhosa por Brasília. Logo de cara, percebeu que morar no Plano Piloto seria impossível, haja vista a miséria que recebia. O jeito foi arrumar um conjugado na Ceilândia.

            Vendo o reconhecimento cada vez maior do Paulo Coelho, Nicácio apostou no próprio talento e juntou seus melhores contos e crônicas e os enviou para várias editoras. Nada. Nem mesmo uma mísera resposta. Aquilo era uma afronta tão grande ao seu talento, que, não satisfeito, decidiu contratar os serviços de uma editora menor. 

                    — Nicácio Fernández, o seu livro será um sucesso!

                    — Você acha mesmo, Lauro?

                    — Se acho? Tenho certeza, meu amigo! Vai vender que nem água.

                    — Se vai vender que nem água, não tem como vocês bancarem a edição?

                    — É o que eu mais queria. Acredite! Mas esses planos do governo atrapalharam com o caixa da nossa editora. 

                     — Entendo.

                    — Mas pode ficar tranquilo, que logo, logo você vai recuperar todo o seu investimento. Ficará rico! Ainda mais porque tenho meus contatos nos principais jornais. Pode deixar a publicidade com a nossa editora.

                     Nicácio, apesar da dinheirama que entregou para o editor, voltou para casa confiante de que, não tardaria, seu livro seria o próximo best-seller. 

                     Dois meses após, lá estava o mais novo maior escritor do mundo, segundo a crítica especializada que nem sabia quem ele era, com os 500 exemplares em mãos. Quanto à tão propalada publicidade, nada além de uma pequena nota de rodapé em um jornal de bairro da capital. Como esperado, o livro encalhou, até que Nicácio, para recuperar o espaço no pequeno apartamento, começou a presentear amigos, colegas, conhecidos e até desconhecidos com sua obra literária.

                     Alguns anos mais, Nicácio imaginou que a virada do milênio era a oportunidade tão aguardada para lançar mais um livro. No entanto, ressabiado que estava com as editoras, resolveu ele mesmo produzir sua nova obra. Deu trabalho, mas a arte em si não ficou nada a dever ao seu livro anterior. 

                    As semelhanças entre os dois livros não acabaram por aí. É que o segundo livro vendeu tanto quando o primeiro, ou seja, nem sequer um mísero exemplar. E olha que Nicácio tentou de todas as formas, inclusive montou uma barraquinha na rodoviária do Plano Piloto. Além do desinteresse completo dos milhares de transeuntes, Nicácio teve o azar de ter uma operação de apreensão de mercadorias de vendedores ambulantes irregulares. Pois é, o rapa apareceu e confiscou tudo. 

            Aquele pareceu ser o golpe fatal na ambição de se tornar escritor reconhecido. Tanto é que Nicácio jurou que nunca mais iria se meter com essa coisa de literatura. E tal intento se manteve firme até que, com a internet bombando, ele, timidamente, começou a publicar seus textos em alguns sites especializados.

            Não tardaram, as curtidas pipocaram, até que alguns leitores começaram a dizer que Nicácio deveria publicar seus contos e crônicas. Impressionado com os incentivos, lá foi o escritor bancar mais uma nova seleção dos seus textos. Afinal, eram os seus fãs que estavam ávidos por ver impressos tantos escritos geniais. 

            Ressabiado que estava, começou a fazer propaganda do seu próximo lançamento. Muita gente elogiando e falando que iria comprar um, dois, três, dez exemplares. Foi o impulso para que Nicácio fizesse pesquisa de preços junto a gráficas. E, não demorou, lá foi o escritor buscar os mil exemplares de seu terceiro livro. 

                Mal chegou ao lar, doce lar, começou a postar nas redes sociais que os volumes já poderiam ser pedidos. E aí veio, sem piedade, o choque de realidade diante das mensagens dos ditos admiradores:

                "Maravilha, Nicácio! Estou apertada neste mês, mas no próximo pagamento vou comprar."

                "Deixa só o cartão virar."

                 "Parabéns, grande Nicácio! Você merece!"

                  "Sucesso!"

                  Vender que é bom, nadica de nada. Nicácio xingou aqueles ditos fãs da internet de falsos, tratantes, lembrou-se com gosto das mães de todos. 

                   Agora era definitivo. Nunca mais iria se deixar iludir por esse insinuante mundo literário. Todavia, não se desfez dos livros. Deixou-os em pacotes nos cantos da sala para se lembrar de jamais voltar a escrever nem mesmo uma mísera linha. 

                    Naquele mesmo ano, durante o amigo oculto dos moradores do edifício, eis que o velho Nicácio Fernández foi tirado pela bela Lucélia, mulher solteira de seus 30 anos. Sorridente, o sortudo logo percebeu que o presente era um livro. Entretanto, não conseguiu adivinhar qual seria o título. 

                Nicácio, assim que rasgou o embrulho, quase teve engulhos ao descobrir que acabara de receber O alquimista, do Paulo Coelho. Tentou disfarçar o desconforto e, em seguida, alegando cansaço por conta da idade, agradeceu pelo presente, se despediu de todos e retornou ao seu apartamento. 

                        Quem visse o sujeito naquele momento, certamente constataria que algo não estava bem. Nicácio jogou um dos livros mais lidos do mundo na lata de lixo. Em seguida, abriu a geladeira, pegou uma cerveja e se sentou à mesa. 

        Sentiu saudade do tempo em que o escritor brasileiro mais lido do mundo era Jorge Amado. Tomou dois ou três goles e, então, percebeu que a mesa estava bamba. Notou que havia uma incongruência entre os pés do móvel. Não teve dúvida. Pegou O alquimista na lixeira e, para sua surpresa, a espessura era exatamente a que fazia com que a mesa voltasse a ficar estável. 

        Nicácio bebeu o resto da cerveja e, criativo que se sentiu, abriu um dos inúmeros pacotes espalhados pela sala. Pegou um exemplar dos seus livros encalhados e, pés sobre a mesa, começou a lê-lo. Sentiu-se vingado por anos e anos de desprezo.     

  • Nota de esclarecimento: O conto "Nicácio Fernández e o arquirrival, /o escritor Paulo Coelho" foi publicado no Notibras no dia 7/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/nicacio-fernandez-e-o-arquirrival-o-escritor-paulo-coelho/

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