Aos 42 anos, o sujeito saía do trabalho,
passava no Bar do Bosco, ali na 709 da Asa Norte, em Brasília, onde todos
pareciam saber que a mesa do canto, quase encostada à parede, era sua por
tradição. Pedia uma cerveja, que logo se transformava em duas ou três, conforme
a companhia. Nada além disso, pois precisava ir trabalhar no dia
seguinte.
Sexta-feira, então, era a própria derrota,
quando o sábado era destinado para que ele se recuperasse da ressaca. E ficava
nessa até o domingo, quando tentava controlar as saídas ou, então, fingia que
não estava em casa para ninguém ir incomodá-lo. Era o dia de fazer rabiscos. O
problema é que lhe estava faltando inspiração.
Na segunda-feira, acordava por volta das 8h,
quando preparava um breve café amargo. Para acompanhar, no máximo meia fatia de
pão, já que o apetite costumava lhe faltar durante a manhã. Tomava um banho e
se arrumava para ir trabalhar na agência do Banco do Brasil, onde era caixa.
O homem tinha uma queda por Gertrudes, gerente de contas. No
entanto, faltava-lhe coragem para convidá-la para um cinema ou um café. Jantar?
Eis que havia um empecilho, não dele, mas dela, que parecia viver um tumultuado
romance com Fábio, o marido.
Elias sabia distinguir quando a quase amada e
o esposo atravessavam fases sorridentes ou ruins. E elas contrastavam de
maneira estranha na sua mente. Ciúme, inveja, raiva, pena do próprio ser que se
transformara.
Tentava escrever sobre Gertrudes. Quando
conseguia produzir algo que o agradava, logo amassava a folha e, para não cair
em qualquer tentação, tacava-lhe fogo.
Depois de uma semana carregada de conversas
com amigos de copo, coroada com uma bebedeira de fazer inveja a qualquer
exagero, eis que o sábado se tornou curto para recuperar a razão. E o domingo
se fez tempo de reflexão, que jurou cumprir a decisão de, finalmente, chamar
Gertrudes para sair. Sim! Isso mesmo!
O gajo acordou mais cedo do que de costume, tacou um pouco
de leite sobre o café sempre preto, passou generosa quantidade de manteiga em
duas fatias de pão. Teve certeza de que a vida o chamava e, por isso, carecia
de energia para encarar o que fosse preciso.
Mal pisou na agência, buscou com os olhos a linda Gertrudes.
Lá estava ela, sentada à mesa, mexendo no computador. Que cabelos lindos, que
sorriso perfeito, que olhos magníficos. Castanhos como se fossem duas avelãs
maduras. Decidido, foi em sua direção, mas eis que Francisco, outro colega, se
aproximou e o puxou pelo braço.
— Elias, preciso te contar uma coisa.
— Agora não posso.
— Por que não?
Aquele "por que não?" desestabilizou por completo
o homem. Nem prestou atenção no que saía dos lábios do Francisco. Maldição! Era
como se o cara estivesse falando debaixo d'água, dava para ouvir o som, mas
nada inteligível. Elias começou a se desesperar e, por um momento, imaginou-se
empurrando o chato de última hora, mas lhe faltou ímpeto, ainda mais quando viu
que a porta do banco se abriu para a multidão de clientes entrar.
Elias passou o dia remoendo sua falta de sorte, até que o
tempo de ir embora chegou. Já na saída, conseguiu trocar algumas palavras tolas
com Gertrudes, que aguardava o marido. O bom humor da colega indicava que ela e
Fábio estavam na fase romântica. E teve certeza disso assim que a mulher
enxergou o esposo do outro lado da rua. E foi quando aconteceu o seguinte
interlúdio:
— Estou vendo que você anda ansioso, Elias.
— É verdade. Estou ansioso pra começar a namorar e abandonar
os meus amigos.
Fábio se aproximou, beijou a mulher, cumprimentou o Elias
e, em seguida, o casal se despediu. Todavia, antes de desaparecer na esquina,
Gertrudes gritou:
— Elias, você vai conseguir! Torço muito por você!
- Nota de esclarecimento: O conto "Elias, bancário, queria ser poeta" foi publicado por Notibras no dia 15/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/elias-bancario-queria-ser-poeta/

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