quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Fofoca no bloco C da SQN 312

    

    Há situações que acontecem por intenção ou acaso ou, como dizia minha saudosa avó, por mero descuido. E, até onde me consta, parece que foi assim que se deu no folclórico bloco C da SQN 312, em Brasília. 

    Dona Laura, moradora do estratégico apartamento 303, tem uma visão privilegiada do que acontece em boa parte do prédio. Não que consiga ficar ciente de tudo, mas se esforça tanto, que há gente que diz que a velha é mais eficaz do que o Mário Fofoca, antigo personagem da teledramaturgia nacional. Se é verdade ou não, vai depender de quem interprete os acontecidos. 

    Final de tarde de domingo, quando os ânimos estão aguçados para quase nada, eis que dona Laura entrou no elevador. Mal adentrou, percebeu a presença do André e da Lúcia e os cumprimentou. Até aí, nada demais, caso não fosse por um detalhe percebido apenas por quem possui a notável capacidade de decifrar as nuances da vida. 

    Para que você não fique boiando que nem ovo podre, vou tentar esclarecer algumas coisas. André é um solteirão que reside no 104, enquanto Lúcia mora nas alturas do 601. Para colocar ainda mais lenha na fogueira da intriga, eis que ambos estavam de cabelos molhados. E como mexerico pouco é bobagem, a mulher é casada com o Aurélio, que trabalha em esquema de plantão em uma delegacia na região. 

    Dizem que segredo de dois é segredo de Deus, mas quando a uma terceira pessoa é revelado... Ih, aí vira coisa do Diabo. Não que a pecha de fofoqueira lhe fosse corriqueira, mas não há quem possa dizer que não coube na dona Laura que nem uma luva. 

    — A senhora tem certeza?

    — Num tô te falando, Alzira? Tinha até marca de batom no cangote do André.

    — Num é possível uma sem-vergonhice dessa no nosso prédio e eu não vi.

    — Pois eu vi e me fingi de desentendida pra proteger a honra do Aurélio.

    — Pobre Aurélio. Será que ele sabe?

    — Espero que não, mas como esconder uma coisa dessas de um agente da lei?

    — É verdade, dona Laura. Mais cedo ou mais tarde, vai ter tragédia aqui no prédio.

    — E não é? 

    Apesar do fuxico, parece que nada chegou aos ouvidos do marido da Lúcia ou, caso tenha chegado, ninguém ficou sabendo. Mas a história não acabou por aqui, apesar do dito popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Isso porque não conhecem as coisas esdrúxulas que acontecem no bloco C da 312 Norte. Ah, nem desconfiam!

    Pois lá estava a dona Laura, num outro final de tarde de domingo em frente ao elevador, quando a porta se abriu. Ela arregalou os olhos e, então, constatou que os passageiros da vez eram o André e a Cíntia, moradora do 404. Para variar, ambos de cabelos molhados. Pronto! Agora não tinha jeito, pensou a velha. O sujeito era mesmo o garanhão das mulheres casadas do prédio. 

    — A senhora tem certeza?

    — Num tô te falando, Alzira? 

    — Mas era mesmo a Cíntia?

    — A própria! Numa desfaçatez sem tamanho.

    — Pobre Cláudio. Será que ele desconfia?

    — Espero que não, pois dizem que o sujeito é cardíaco.

    — Pois é...

    Apesar da famigerada rádio-corredor, não se sabe como, parece que a história não chegou aos ouvidos do marido da Cíntia. Devem ser os anjos protegendo a harmonia dos lares do bloco C.

    Mas eis que coincidência pouca é bobagem e, não demorou, aconteceu novamente. Sim, uma terceira vez e, acredite ou não, num final de tarde ensolarada de domingo. 

    Dona Laura, que havia se esquecido de comprar café, achou por bem ver se conseguia pegar a padaria aberta. Tomou um banho rapidinho e saiu. Apertou o botão de chamada do elevador, que logo chegou. A porta se abriu e, para sua surpresa, lá estava o André, cabelos molhados, entretido com o celular. Desconfiada, ela cumprimentou o vizinho, que respondeu com um breve sorriso e, então, voltou os olhos para o telefone. 

    A idosa percebeu que o elevador não se movimentava e, então, constatou que não havia tecla aceso e, por isso, apertou o térreo. No entanto, para sua surpresa, no meio do caminho, eis que a porta se abriu no segundo andar. E lá estava, boquiaberta, a Alzira, que parecia não acreditar no que acabara de ver. 

    A moradora do 203, com um sorriso nos lábios, cumprimentou os vizinhos. Era nítido o desconforto no rosto da dona Laura, enquanto o André parecia alheio a tudo aquilo. Finalmente, a porta se abriu novamente, agora no térreo, e o homem saiu. Dona Laura tentou fazer o mesmo, mas foi impedida pelas mãos da Alzira.

    — Dona Laura, mas até a senhora?    

  • Nota de esclarecimento: O conto "Fofoca no bloco C da SQN 312" foi publicado no Notibras no dia 1º/1/2026
  • https://www.notibras.com/site/fofoca-no-bloco-c-da-312/   

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