Confesso, meu amigo, que o ano que passou me foi seguramente o mais complicado. Difícil e deveras doloroso. Algo desalentador, em que a desesperança, tão comum na minha trajetória, encobriu qualquer resquício de fé que, porventura, tenha algum dia me visitado. Tanto é que, a despeito das minhas crenças, penso seriamente que Deus deveria ter piedade do meu padecimento e, assim, abreviasse a minha estada por aqui.
Ontem me visitou o nosso afável amigo Alfredo. Chegou com uma carranca no rosto, tudo por causa de discussão tola com Esmeralda, a esposa. Para você ver como são as coisas, meu querido, o problema enfrentado por nosso companheiro é que a mulher se recusa a engomar suas calças. Quem, nos dias de hoje, se preocupa sequer em passar roupas? Bobagem sem tamanho, é verdade. E, após longa e agradável conversa em que, parece, consegui incutir um pouco de razão em sua mente, ele se despediu com a face tranquila, apenas carregando as rugas inevitáveis e comuns por conta do tempo.
Queria eu ter os problemas do Alfredo. Desde que a minha Ludmila me foi levada, não consegui me desapegar de hábitos que nos eram tão caros. O café da manhã, por exemplo, ainda é o de maior relevância, que faço questão de lhe servir a mesma xícara com dois terços de leite e a terça parte de café sem açúcar.
— De doce já basta a vida, Mauro.
Ah, minha amada, depois que você se foi, o amargor tomou conta do meu único torrão de doçura, que era o seu sorriso. Antes tivesse sido eu, que certamente lhe pesaria menos do que sinto a sua ausência. Que castigo um homem pode suportar?
Anseio que exista mesmo um Paraíso, pois certamente você ocuparia um lugar. Teria eu o mesmo privilégio? Não por minhas ações, que nunca foram tão nobres como as suas, mas por compaixão do Senhor, por ter sido eu seu marido fiel, apesar de menos presente do que desejei. Nessa vida corrida, o trabalho me consumia, como se ganhar dinheiros, no plural, como você gostava de falar, parecia ter mais importância do que me perder em seus braços.
— Mauro, meu bem, já não está na hora de se aposentar?
Medo de perder a rotina de décadas, como se aquilo fosse espécie de sustento do meu ser. Ironicamente, após o último adeus, tomei coragem ou, então, fui acometido de desânimo de sair de casa, quando, finalmente, me aposentei. E você estava certa, deveria ter eu confiado nas suas sábias palavras para, assim, desfrutarmos os momentos que, não vividos, ainda me fazem falta.
- Nota de esclarecimento: O conto "O pior ano da vida de Mauro" foi publicado no Café Literário no dia 9/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-pior-ano-da-vida-de-mauro/

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