sábado, 3 de janeiro de 2026

Darlan, bilionário por acaso


          Darlan nasceu pobre. Não tão pobre de passar fome. Pobre que nem a maior parte de nós, que nascemos longe de berço de ouro, meros mortais fadados ao esquecimento ainda em vida. Mas eis que, por um milagre daqueles caprichados, Darlan se tornou o mais novo bilionário do Brasil.

          O único ganhador daquela derradeira rodada acumulada da Mega-Sena. Sim, isso mesmo! Quase um ano após se dirigir a uma agência da Caixa Econômica Federal para receber o vultoso prêmio, Darlan não acreditava na própria sorte. Teria Deus alguma coisa a ver com aquilo? E olha que o gajo, apesar de religioso, não era dos mais devotos. 

          Depois de gastar alguns milhões aqui, outros tantos ali, começou a investir em negócios que o tornaram um multibilionário. Tanto é que, não fazia muito tempo, havia saído na capa da Forbes como o brasileiro que transformava chumbo em ouro. Verdadeiro alquimista do século XXI.  

          Carrões, obras de arte, mansões espalhadas por cidades de todo o planeta, jatos capazes de encurtar distâncias a qualquer tempo. Bastava a vontade do Darlan para que ele fizesse um safári fotográfico no Quênia durante o dia e, à noite, tomasse champanhe acompanhado de uma beldade do cinema em Paris. 

          E foi numa dessas demonstrações de poder que ele acordou em Brasília, onde teria tido vários encontros com políticos. Mal abriu os olhos e, não se sabe por qual motivo, sentiu vontade de pegar a estrada. 

          — Tem certeza, patrão?

          — Tenho.

          — Vou alugar uma Ferrari. Ou o senhor prefere um Porsche?

          — Fusca.

          — O quê?

          — Um Fusca, Lucas. Compre um Fusca.

          — Tem certeza, patrão?

          — Acredita que nunca tive um Fusca? Já andei em um de um amigo, que nem gostava do carro. Era uma coisa com Opala, que achava Fusca carro de pobre. Flavio.

          — Flavio?

          — É. Flavio. É o nome dele. Sei que mora em Brasília. Veja se consegue encontrá-lo. 

          — Tem o sobrenome?

          — Bonesso. 

          — Bonesso?

          — Isso. Flavio Bonesso. 

          — Hum... Não deve ser difícil encontrá-lo. 

          — Pois veja isso o mais rápido possível. 

          Já na hora do almoço, Lucas encontrou Darlan no restaurante do hotel. Estava com um sorriso nos lábios, o que indicava que tivera sucesso.

          — Já almoçou?

          — Ainda não, patrão.

          — Coma primeiro, então.

          Lucas almoçou arroz, feijão e outras iguarias, enquanto Darlan ficou entretido com a leitura de Quincas Borba, de Machado de Assis. 

          — O senhor gosta mesmo de ler, né, Patrão?!

          — Sabe quantas vezes já li este romance?

          — Duas, três?

          — Mais de 10.

          — Sério?

          — É melhor do que qualquer livro de psicologia, filosofia e, de brinde, ainda dá boas aulas sobre economia. Você deveria lê-lo.

          — Não sou muito de ler, patrão, mas acho que você vai gostar do que consegui.

          — Encontrou o Flavio?

          — Essa foi a parte mais fácil. Difícil mesmo foi encontrar o Fusca.

          — Comprou?

          — Não. Mas consegui alugar um que possui até nome.

          — Nome?

          — É. O danado tem nome, patrão.

          — E qual é?

          — Maggiolino.

          — Gostei.

          — Pois vai gostar ainda mais depois de saber quem é o dono do Maggiolino.

          — Hum... Do Lula?

          — Não, patrão. Menos, né?!

          — Não sei. 

          — Pois o Maggiolino é do Daniel Marchi.

          — O escritor?

          — Sim! Acredita nisso?

          — Que eu saiba, ele mora no Rio de Janeiro. O que, então, esse Fusca está fazendo aqui em Brasília?

          — Ih, patrão, é uma longa história. Mas eu conto depois, pois o Flavio acabou de chegar. Vamos lá receber o seu amigo?

          Assim que se encontraram, Darlan e Flavio se abraçaram e ensaiaram algumas lágrimas. Conversaram por alguns minutos, enquanto Lucas se manteve à certa distância para não incomodar aquele momento. 

            — Lucas, por favor.

            — Pois não, patrão?

            — Que tal irmos até a chácara de outro amigo nosso?

            — Uma chácara, patrão?

            — Sim, homem! Não sabe o que é uma chácara? 

            — Claro que sei, mas...

            — Pois está decidido. Cadê as chaves do Maggiolino? É esse o nome, né?!

            E lá foram os três aventureiros a caminho do município goiano. 

            — Sabe, Flavio, ainda hoje me lembro daquele seu Fusca, o Azulão.

            — Darlan, aquele carro tinha história.

            Lucas, no banco de trás, ouvidos atentos à conversa, olhos se deliciando com a paisagem. Tanto é que começou a se acostumar com a dureza daquele carro, muito diferente das luxuosas máquinas do dia a dia de assistente do ricaço. 

          Apesar de um buraco aqui, outro ali, a viagem estava tranquila. E, no meio do caminho, Darlan se encantou com uma visão que há mais de década não vislumbrava. Uma barraquinha de pastel e caldo de cana na beira da estrada. Não teve dúvida. Parou.

          Em pé, os viajantes fizeram os pedidos. Não tardou, cada um com um pastel e um copo de caldo de cana nas mãos, pareciam crianças diante de algo tão simples.

          — Flavio, você acredita que nem me lembro mais de quando foi a última vez que comi pastel com caldo?

          Antes de responder, Flavio percebeu que Darlan, que já tinha dado a primeira abocanhada, pareceu triste. Engoliu. Mordeu de novo. Mastigou, mastigou, engoliu. Outro naco, mastigou, mastigou, mastigou, engoliu. Lágrimas, agora sem qualquer cerimônia, escorreram pela face do Darlan.

          — Ei, Darlan, o que houve? Você está bem?

           — Preciso colocar os pés no chão novamente.

           — Como assim? Você tem tudo na vida.

           — Não, meu amigo. Não tenho tudo. Percebi isso agora.

           — Agora? Aqui no meio deste fim de mundo?

           — Não consigo sentir mais o gosto de pastel. Acredita nisso?

          Flavio e Lucas só foram entender aquelas palavras quando deram a primeira mordida no pastel. As lágrimas também vieram, mas por motivo oposto. Que delícia!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Darlan, bilionário por acaso" foi publicado no Notibras no dia 3/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/darlan-bilionario-por-acaso/

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