O único ganhador daquela derradeira rodada acumulada da
Mega-Sena. Sim, isso mesmo! Quase um ano após se dirigir a uma agência da Caixa
Econômica Federal para receber o vultoso prêmio, Darlan não acreditava na
própria sorte. Teria Deus alguma coisa a ver com aquilo? E olha que o gajo,
apesar de religioso, não era dos mais devotos.
Depois de gastar alguns milhões aqui, outros tantos ali,
começou a investir em negócios que o tornaram um multibilionário. Tanto é que,
não fazia muito tempo, havia saído na capa da Forbes como o brasileiro que
transformava chumbo em ouro. Verdadeiro alquimista do século XXI.
Carrões, obras de arte, mansões espalhadas por cidades de todo
o planeta, jatos capazes de encurtar distâncias a qualquer tempo. Bastava a
vontade do Darlan para que ele fizesse um safári fotográfico no Quênia durante
o dia e, à noite, tomasse champanhe acompanhado de uma beldade do cinema em
Paris.
E foi numa dessas demonstrações de poder que ele acordou em
Brasília, onde teria tido vários encontros com políticos. Mal abriu os olhos e,
não se sabe por qual motivo, sentiu vontade de pegar a estrada.
— Tem certeza, patrão?
— Tenho.
— Vou alugar uma Ferrari. Ou o senhor
prefere um Porsche?
— Fusca.
— O quê?
— Um Fusca, Lucas. Compre um Fusca.
— Tem certeza, patrão?
— Acredita que nunca tive um Fusca? Já andei
em um de um amigo, que nem gostava do carro. Era uma coisa com Opala, que
achava Fusca carro de pobre. Flavio.
— Flavio?
— É. Flavio. É o nome dele. Sei que mora em
Brasília. Veja se consegue encontrá-lo.
— Tem o sobrenome?
— Bonesso.
— Bonesso?
— Isso. Flavio Bonesso.
— Hum... Não deve ser difícil
encontrá-lo.
— Pois veja isso o mais rápido
possível.
Já na hora do almoço, Lucas encontrou Darlan
no restaurante do hotel. Estava com um sorriso nos lábios, o que indicava que
tivera sucesso.
— Já almoçou?
— Ainda não, patrão.
— Coma primeiro, então.
Lucas almoçou arroz, feijão e outras iguarias,
enquanto Darlan ficou entretido com a leitura de Quincas Borba, de Machado de
Assis.
— O senhor gosta mesmo de ler, né, Patrão?!
— Sabe quantas vezes já li este romance?
— Duas, três?
— Mais de 10.
— Sério?
— É melhor do que qualquer livro de
psicologia, filosofia e, de brinde, ainda dá boas aulas sobre economia. Você
deveria lê-lo.
— Não sou muito de ler, patrão, mas acho que
você vai gostar do que consegui.
— Encontrou o Flavio?
— Essa foi a parte mais fácil. Difícil mesmo
foi encontrar o Fusca.
— Comprou?
— Não. Mas consegui alugar um que possui até
nome.
— Nome?
— É. O danado tem nome, patrão.
— E qual é?
— Maggiolino.
— Gostei.
— Pois vai gostar ainda mais depois de saber
quem é o dono do Maggiolino.
— Hum... Do Lula?
— Não, patrão. Menos, né?!
— Não sei.
— Pois o Maggiolino é do Daniel Marchi.
— O escritor?
— Sim! Acredita nisso?
— Que eu saiba, ele mora no Rio de Janeiro.
O que, então, esse Fusca está fazendo aqui em Brasília?
— Ih, patrão, é uma longa história. Mas eu
conto depois, pois o Flavio acabou de chegar. Vamos lá receber o seu amigo?
Assim que se encontraram, Darlan e Flavio se
abraçaram e ensaiaram algumas lágrimas. Conversaram por alguns minutos, enquanto
Lucas se manteve à certa distância para não incomodar aquele momento.
— Lucas, por favor.
— Pois não, patrão?
— Que tal irmos até a chácara de outro amigo nosso?
— Uma chácara, patrão?
— Sim, homem! Não sabe o que é uma chácara?
— Claro que sei, mas...
— Pois está decidido. Cadê as chaves do Maggiolino? É esse o nome, né?!
E lá foram os três aventureiros a caminho do município goiano.
— Sabe, Flavio, ainda hoje me lembro daquele seu Fusca, o Azulão.
— Darlan, aquele carro tinha história.
Lucas, no banco de trás, ouvidos atentos à conversa, olhos se deliciando
com a paisagem. Tanto é que começou a se acostumar com a dureza daquele carro,
muito diferente das luxuosas máquinas do dia a dia de assistente do
ricaço.
Apesar de um buraco aqui, outro ali, a viagem estava tranquila. E, no meio do
caminho, Darlan se encantou com uma visão que há mais de década não vislumbrava.
Uma barraquinha de pastel e caldo de cana na beira da estrada. Não teve dúvida.
Parou.
Em pé, os viajantes fizeram os pedidos. Não
tardou, cada um com um pastel e um copo de caldo de cana nas mãos, pareciam
crianças diante de algo tão simples.
—
Flavio, você acredita que nem me lembro mais de quando foi a última vez que
comi pastel com caldo?
Antes de responder, Flavio percebeu que
Darlan, que já tinha dado a primeira abocanhada, pareceu triste. Engoliu.
Mordeu de novo. Mastigou, mastigou, engoliu. Outro naco, mastigou, mastigou,
mastigou, engoliu. Lágrimas, agora sem qualquer cerimônia, escorreram pela face
do Darlan.
— Ei, Darlan, o que houve? Você está bem?
— Preciso colocar os pés no chão novamente.
— Como assim? Você tem tudo na vida.
— Não, meu amigo. Não tenho tudo. Percebi isso agora.
— Agora? Aqui no meio deste fim de mundo?
— Não consigo sentir mais o gosto de pastel.
Acredita nisso?
Flavio e Lucas só foram entender aquelas palavras quando deram a primeira mordida no pastel. As lágrimas também vieram, mas por motivo oposto. Que delícia!
- Nota de esclarecimento: O conto "Darlan, bilionário por acaso" foi publicado no Notibras no dia 3/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/darlan-bilionario-por-acaso/

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