Entre tantas crianças que corriam de um
lado para outro, o idoso concentrou o olhar sobre uma menina e um menino, cada
um com seus sete, oito anos. A energia daqueles filhotes de gente parecia sem
limites, tamanha a quantidade de vezes que subiam e desciam o escorrega.
Impossível não se lembrar de quando, ele, ainda molecote, fazia o mesmo.
— Como o tempo voa, Lourdes.
— O que o senhor disse, seu Astolfo?
— A infância é a melhor fase da vida. Não
é?
— É verdade. Concordo.
Quando voltou os olhos para a dupla peralta,
Astolfo percebeu a presença de mais um guri, dois ou três anos mais velho, ao
lado dos menores. O velho deduziu que seria o irmão mais velho, haja vista as
características físicas.
O suposto primogênito
parecia sério, como se o mundo já estivesse lhe pesando sobre os ombros. Certa
altivez no olhar, o que deixou Astolfo intrigado. Nisso, o mais novo se
aproximou e puxou conversa com o parente.
— Quer brincar?
— Não.
— Por quê?
— Só vim vigiar
vocês.
— Vem brincar.
— Não.
— Por quê?
— Por que não.
A garota chegou
mais perto e entrou na conversa.
— Vem brincar.
— Não.
— Por quê?
— Por que já
sou grande.
— E daí?
— Daí o quê?
— Gente grande
não pode mais brincar?
O menino maior,
por um momento, pareceu incomodado. Ele voltou os olhos para trás, onde estava
um casal conversando. Provavelmente seus pais. Depois olhou os irmãos, sorriu e
saiu correndo para subir no escorrega.
As crianças brincaram, brincaram,
brincaram, até que os adultos as chamaram. Era hora de voltar para casa.
Astolfo pareceu satisfeito com as estripulias da meninada.
— Sabe,
Lourdes, minha mãe sempre me falava uma frase dita por vovó.
— E qual era, seu Astolfo?
— Os adultos deveriam aprender com a
gurizada a gastar o tempo com o que realmente importa.
- Nota de esclarecimento: O conto "Astolfo, as crianças e o parquinho" foi publicado no Notibras no dia 4/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/astolfo-as-criancas-e-o-parquinho/

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