domingo, 4 de janeiro de 2026

Astolfo, as crianças e o parquinho

    

        Astolfo, aos 97 anos, cuja mobilidade era limitada pela idade avançada, tinha o costume de tomar banho de sol confortavelmente sentado em sua cadeira de rodas, que era empurrada por Lourdes, a bela cuidadora de 32 anos. Rumavam para praça e ficavam próximos ao parquinho, de onde podiam apreciar os cantos dos passarinhos e os gritos de histérica alegria dos miúdos. 

          Entre tantas crianças que corriam de um lado para outro, o idoso concentrou o olhar sobre uma menina e um menino, cada um com seus sete, oito anos. A energia daqueles filhotes de gente parecia sem limites, tamanha a quantidade de vezes que subiam e desciam o escorrega. Impossível não se lembrar de quando, ele, ainda molecote, fazia o mesmo. 

          — Como o tempo voa, Lourdes.

          — O que o senhor disse, seu Astolfo?

          — A infância é a melhor fase da vida. Não é?

          — É verdade. Concordo.

          Quando voltou os olhos para a dupla peralta, Astolfo percebeu a presença de mais um guri, dois ou três anos mais velho, ao lado dos menores. O velho deduziu que seria o irmão mais velho, haja vista as características físicas. 

          O suposto primogênito parecia sério, como se o mundo já estivesse lhe pesando sobre os ombros. Certa altivez no olhar, o que deixou Astolfo intrigado. Nisso, o mais novo se aproximou e puxou conversa com o parente.

          — Quer brincar?

          — Não.

          — Por quê?

          — Só vim vigiar vocês.

          — Vem brincar.

          — Não.

          — Por quê?

          — Por que não.

          A garota chegou mais perto e entrou na conversa.

          — Vem brincar.

          — Não.

          — Por quê?

          — Por que já sou grande.

          — E daí?

          — Daí o quê?

          — Gente grande não pode mais brincar?

          O menino maior, por um momento, pareceu incomodado. Ele voltou os olhos para trás, onde estava um casal conversando. Provavelmente seus pais. Depois olhou os irmãos, sorriu e saiu correndo para subir no escorrega. 

          As crianças brincaram, brincaram, brincaram, até que os adultos as chamaram. Era hora de voltar para casa. Astolfo pareceu satisfeito com as estripulias da meninada. 

          — Sabe, Lourdes, minha mãe sempre me falava uma frase dita por vovó.

           — E qual era, seu Astolfo?

        — Os adultos deveriam aprender com a gurizada a gastar o tempo com o que realmente importa.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Astolfo, as crianças e o parquinho" foi publicado no Notibras no dia 4/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/astolfo-as-criancas-e-o-parquinho/

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