sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Inevitável desenlace

    

          Jorge, assim que entrou na capela, notou a ausência de quem acreditava encontrar ao lado do caixão. Nem mesmo Laura, a devota irmã do falecido. Teria passado mal diante do inevitável desenlace de todos nós, que, na noite anterior, havia acometido o quase sempre risonho parente?

          Cumprimentou dois ou três conhecidos até que se aproximou do féretro. Lá estava o seu amigo de sempre, desde os tempos remotos de menino. Jorge percebeu que as gargalhadas de Mariano haviam dado lugar àquele sorriso de Mona Lisa.

O inevitável toque nas mãos rígidas e gélidas do defunto foi a confirmação definitiva de que aquele mundo de fantasias se findara ali. Nada mais de correrias pelo pátio da escola, nada mais de ir ao encalço da pelota na rua para marcar mais um gol no imaginário Maracanã.

          O homem suspirou, como se quisesse se recompor. Lembrou-se da vez em que tomaram uma surra na saída do colégio. Não deviam ter mais do que 13, 14 anos. E a confusão havia sido provocada por ele, já que Mariano, apesar de gaiato, era esperto demais para desafiar o garoto mais parrudo da sala. Como era mesmo o seu nome? Alberto ou Gilberto? Não seria Lúcio? Do nada, chegou-lhe à mente Douglas, como se o morto tivesse lhe soprado. 

        — Douglas? Você tem certeza, Mariano?

        Uma mão tocou-lhe no ombro, o que fez com que olhasse assustado para trás.

— Você está bem, Jorge?

          Era a irmã do falecido. 

          — Oi, Laura! Pensei que você não viesse.

          — E como não vir? Cheguei mais cedo, mas tive que sair para comprar alguma coisa pro povo comer. Tem refrigerante também. Quer? Eu pego pra você.

          — Não. Estou bem. Sem fome. 

          Os dois se abraçaram, enquanto as lágrimas perderam a cerimônia. 

          — Caramba, Laura! Ele era mais novo do que eu.

          — Dois meses.

          — Que seja! 

          — Acontece. A gente nunca sabe a nossa hora.

          — É verdade, Laura. Você tem razão. Mas eu acreditava tanto no que esse filho da mãe me falava. Ele dizia que a gente ia envelhecer junto, que a gente ia ficar que nem aqueles velhos chatos pra caramba. 

          — Bem, Jorge, não sei se isso serve de consolo, mas chatos vocês sempre foram. 

          — É verdade! Você tem razão. Mas o seu irmão era um chato legal pra dedéu. 

          — Isso é coisa de velho.

          — O quê?

          — Dedéu.

           Jorge esboçou um leve sorriso e, em seguida, virou-se para Mariano e disse:

— Tá vendo, seu filho da mãe? Você tinha razão! Nós conseguimos! Conseguimos ser dois velhos chatos pra dedéu. 

          E as lágrimas voltaram a escorrer ainda mais sinceras. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Inevitável desenlace" foi publicado no Notibras no dia 30/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/inevitavel-desenlace/

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