Cumprimentou dois ou três
conhecidos até que se aproximou do féretro. Lá estava o seu amigo de sempre,
desde os tempos remotos de menino. Jorge percebeu que as gargalhadas de Mariano
haviam dado lugar àquele sorriso de Mona Lisa.
O inevitável toque nas mãos rígidas e gélidas do defunto foi a
confirmação definitiva de que aquele mundo de fantasias se findara ali. Nada
mais de correrias pelo pátio da escola, nada mais de ir ao encalço da pelota na
rua para marcar mais um gol no imaginário Maracanã.
O homem suspirou, como se
quisesse se recompor. Lembrou-se da vez em que tomaram uma surra na saída do
colégio. Não deviam ter mais do que 13, 14 anos. E a confusão havia sido
provocada por ele, já que Mariano, apesar de gaiato, era esperto demais para
desafiar o garoto mais parrudo da sala. Como era mesmo o seu nome? Alberto ou
Gilberto? Não seria Lúcio? Do nada, chegou-lhe à mente Douglas, como se o morto
tivesse lhe soprado.
— Douglas? Você tem certeza, Mariano?
Uma mão tocou-lhe no ombro, o que fez com que olhasse assustado para
trás.
— Você está bem, Jorge?
Era a irmã do falecido.
— Oi, Laura! Pensei que você não
viesse.
— E como não vir? Cheguei mais
cedo, mas tive que sair para comprar alguma coisa pro povo comer. Tem
refrigerante também. Quer? Eu pego pra você.
— Não. Estou bem. Sem
fome.
Os dois se abraçaram,
enquanto as lágrimas perderam a cerimônia.
— Caramba, Laura! Ele era
mais novo do que eu.
— Dois meses.
— Que seja!
— Acontece. A gente nunca
sabe a nossa hora.
— É verdade, Laura. Você tem
razão. Mas eu acreditava tanto no que esse filho da mãe me falava. Ele dizia
que a gente ia envelhecer junto, que a gente ia ficar que nem aqueles velhos
chatos pra caramba.
— Bem, Jorge, não sei se isso
serve de consolo, mas chatos vocês sempre foram.
— É verdade! Você tem razão. Mas
o seu irmão era um chato legal pra dedéu.
— Isso é coisa de velho.
— O quê?
— Dedéu.
Jorge esboçou um leve
sorriso e, em seguida, virou-se para Mariano e disse:
— Tá vendo, seu
filho da mãe? Você tinha razão! Nós conseguimos! Conseguimos ser dois velhos
chatos pra dedéu.
E as lágrimas voltaram a escorrer ainda mais sinceras.
- Nota de esclarecimento: O conto "Inevitável desenlace" foi publicado no Notibras no dia 30/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/inevitavel-desenlace/

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