Salete girou duas, três, quinze vezes. E
não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o
tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de
ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil.
Telefonou para Paula e disse que
iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A
colega disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por
economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.
— Creio que será até bom
relembrar os tempos de pobretona.
— E por acaso ficou milionária e
está escondendo o jogo?
— Sou bancária e não banqueira,
Paula.
Já no ponto, Salete ficou atenta
aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um
pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume.
Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em
seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe a quantia, passou a
roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.
Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas
vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que
teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.
— Você promete?
— Vou ver se consigo, meu amor.
— Ah, mas ontem você disse que iria.
— Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?
— Mas você promete?
— Tá. Preciso descer no próximo ponto.
O homem, antes de se levantar,
deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se
cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de
última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os
nomes dos pombinhos.
Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos
apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era
impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de
ir para o emprego?
Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um
rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao
lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo
que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado
aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático
francês do século XVII, não estava enganado: "O coração tem razões que a
própria razão desconhece".
— Você é louco!
— Louco por você, meu amor!
— Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o
Ademir sempre desce aqui.
— Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.
Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou
que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate
ou num quarto de motel.
— Para! Não dá pra esperar?
— Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade.
— Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!
Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para
disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas
não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que
aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem
provocar barulho.
Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da
Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal
do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do
coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o
intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.
Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los... Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração.
- Nota de esclarecimento: O conto "O inusitado dentro do coletivo" foi publicado no Notibras no dia 5/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-inusitado-dentro-do-coletivo/

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