terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A catarata e o Frank Sinatra

         

    Demerval, aos 84 anos, foi acometido de vaidade, como se quisesse retornar ao vigor dos 30. Eunice, a esposa, nada dizia, apesar de fazer troça às escondidas. Não que ela fosse contra a repentina preocupação do marido em relação à aparência, mas considerava exagero pintar os parcos cabelos de acaju.

    Eunice, apesar de não ser daquelas que fazem drama ou buscam análise por conta do surgimento de mais uma ruga, gostava de se cuidar. Sem exageros, a não ser quando a traiçoeira balança a afrontava com o movimento ingrato do ponteiro. Aí não tinha jeito, era fechar a boca e aumentar o ritmo das caminhadas diárias ao redor da quadra onde morava, na Asa Norte, em Brasília. 

    — Ah, por que fui comer aquele monte de brigadeiro na casa da Regina?

    — Não gostou?

    — Estava uma delícia, mas olha esta barriga agora?

    — Você está ótima, meu amor.

    A vontade da mulher era mandar o marido para a moradia do Diabo, mas conteve tamanho ímpeto.

    — São os seus olhos, Demerval.

    — Azuis.

    — O quê?

    — Reparou que meus olhos estão ficando azuis?

    — Catarata faz isso.

    — O quê?

    — Catarata, Demerval. Ou já se esqueceu do que o oftalmologista disse na última consulta.

    — É verdade. Mas são azuis, né?

    — São iguaizinhos aos do Frank Sinatra. Só tá faltando você cantar My way pra mim.

    Os dois sorriram e se beijaram nos lábios, como sempre faziam várias vezes durante o dia. 

    Parece que Demerval gostou de ouvir que seus olhos estavam idênticos aos do famoso cantor. Tudo bem que era por causa da catarata cada vez mais avançada. E daí? Não é para qualquer um ter os olhos do Sinatra. 

    O sujeito imprimiu a letra de My way e, apesar de não ser fluente em inglês, sabia mais ou menos a pronúncia de várias palavras. Ensaiou a canção enquanto malhava na academia. Depois foi ao supermercado comprar um vinho de qualidade que o dinheiro de fim de mês conseguisse pagar. 

    Quando chegou ao lar, doce lar, Demerval colocou a garrafa na geladeira e foi tomar um banho caprichado. Eunice, ciente dos métodos de sedução do esposo, sabia que ele tentaria algo mais tarde. A mulher sorriu aquele sorriso próprio das esperançosas. Tanto é que entrou debaixo do chuveiro e vestiu aquela lingerie comprada há quase seis meses, passou um pouco de perfume e, quando percebeu, a mesa já estava posta.

        Duas taças, a garrafa de vinho, uma porção de queijo e salame. Ao lado, Demerval, microfone imaginário em uma das mãos, começou a cantar My way.

          "And now, the end is near

And so I face the final curtain

My friend, I'll say it clear

I'll state my case, of which I'm certain

I've lived a life that's full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way


Regrets, I've had a few

But then again, too few to mention

I did what I had to do

And saw it through without exemption

I planned each charted course

Each careful step along the byway

And more, much more than this

I did it my way..."

    Eunice ficou admirada com a performance do clone de Sinatra, até que ele começou a fazer algumas expressões faciais, que, a princípio, ela imaginou serem com o intuito de seduzi-la. Uma torção dos lábios do marido, a esposa teve quase certeza de que ele estaria passando de Sinatra para Elvis. Todavia, tais expressões, cada vez mais esquisitas, se transformaram em caretas. Mesmo assim, Eunice, que sabia que o marido era um brincalhão, imaginou que ele estivesse imitando o saudoso Ronald Golias. 

     Que nada! Demerval acabara de ter um AVC e, no segundo seguinte, tombou sobre o tapete felpudo da sala. Morreu ali mesmo. 

        

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