Naquela época, o sujeito havia se
especializado na compra e revenda de roupas femininas. Ele adquiria as peças
das diversas confecções na cidade de Visconde do Rio Branco e, em seguida,
pegava a estrada para ofertá-las nos diversos outros municípios, entre os quais
Matias Borba e Juiz de Fora. O lucro era razoável, ainda mais porque quase
sempre aquelas indústrias fabris não emitiam nota fiscal.
Para se livrar da fiscalização, Olegário se
embrenhava por um caminho ou outro. Na maioria das vezes, ele conseguia se
desvencilhar das garras da Polícia Rodoviária Federal, mas quando caía, ih, o
momento se tornava tenso, ainda mais porque alguns policiais, naquela época,
não eram conhecidos por serem, digamos, tão probos assim. E pensar que tem
gente que tem coragem de dizer que antigamente que era bom.
Pois bem, lá estava o
caixeiro-viajante retornando para o lar, doce lar depois de vender quase todo o
produto. Havia sobrado apenas 10 ou 12 peças, entre vestidos, saias, blusas e duas
calcinhas. Todas horrorosas por sinal. Mas eis que Olegário, ao volante da sua
Variant 1972, percebeu que havia uma blitz na estrada. Não teve dúvida e, por
impulso, deu marca à ré e, assim que foi possível, retornou e entrou na
primeira vicinal, quando o pior aconteceu.
Acredite ou não, dois soldados do
exército, ao lado de um veículo parado no acostamento. Os militares, que
estavam no local por conta de não se sabe o quê, apontaram os fuzis para
Olegário, que brecou na hora, parando ao lado dos homens.
Mãos erguidas, Olegário já foi
dizendo que o carro não tinha drogas nem armas e, num ímpeto infeliz de
honestidade, acabou confessando que estava portando algumas roupas sem nota
fiscal. Os soldados se entreolharam, conversaram por alguns instantes e, então,
um deles se dirigiu ao caixeiro-viajante.
— Siga a gente.
Sem alternativa, Olegário
ligou a Variant e foi atrás do veículo do exército até a blitz. Lá, os soldados
conversaram por um momento com um dos policiais, que, não tardou, teve o
seguinte interlúdio com o caixeiro-viajante.
— Então, cidadão, você está com
roupas sem nota fiscal, né?!
— Sim, seu policial.
— Cadê essas roupas?
— Estão aqui no banco de trás.
O policial olhou as peças e, com
cara de puro desalento, reclamou:
— Mas só tem roupa feia.
— Pois é, seu policial. Por isso
que não consegui vende-las.
— Bem, como não tem outro jeito,
vou ficar com elas mesmo.
Depois de meter a mão nas peças
de roupas, o agente da lei liberou o Olegário, que parecia consternado com
alguma coisa.
— Pode ir, cidadão. Já tá
liberado.
— Seu policial, posso te pedir um
favor?
— Favor?
— Sim.
— Mas você é mesmo cara de pau.
Mas diga lá.
— O senhor poderia me devolver um
vestido e uma calcinha?
— O quê?
— Pode ser esse amarelo mesmo,
que é o mais feio. E qualquer uma das calcinhas.
— E pra que tu quer isso?
— É pra mim.
— Pra tu?
— Seu policial, é que estou numa
precisão que o senhor não imagina.
— Que precisão, homem?
— É que me borrei todo quando os milicos me apontaram aqueles trabucos.
Não se sabe se foi por compaixão
ou para se livrar logo do Olegário, mas o policial lhe cedeu as peças
solicitadas. E não pense você que o difícil tenha sido a vergonha de voltar
para casa de vestido e calcinha. O pior mesmo foi ter que explicar a história
para a esposa.
- Nota de esclarecimento: O conto "O caixeiro-viajante e o vestido amarelo" foi publicado no Notibras no dia 10/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-caixeiro-viajante-e-o-vestido-amarelo/

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