domingo, 18 de janeiro de 2026

O caixeiro-viajante e o imbróglio com a esposa do policial

        

           O velho Olegário estava degustando aquela cerveja estupidamente gelada no Bar do Bosco, ali na quadra 709 Norte, em Brasília, quando Mauro Antônio e Cleidson, dois rapazolas da região, instigaram o sujeito a lhes contar suas antigas aventuras como caixeiro-viajante lá nas Minas Gerais. 

          Naquele tempo, por conta da falta de nota fiscal das mercadorias (exclusivamente roupas femininas) comercializadas por Olegário, ele precisava desviar das rotas óbvias para evitar a Polícia Rodoviária Federal (PRF). No entanto, apesar da malandragem adquirida ao longo dos anos, vez ou outra, o caixeiro-viajante não conseguia se desvencilhar da mão do Estado. Se bem que, no caso em questão, provavelmente o Estado fazia vista grossa para os desvios dos seus não tão nobres servidores. 

          Bem, melhor não deixar a conversa encompridar muito ou, então, periga do Mauro Antônio e do Cleidson irem embora sem ouvirem o fim da história. E não é que, nos idos de 1976, praticamente dois meses após ter caído em uma blitz, Olegário, com a Variant 1972 carregada de produtos, foi parado novamente? Pois foi isso mesmo que aconteceu. 

            — Mas que coincidência, seu guarda!

            — Coincidência digo eu, seu cretino?

            — Uai! Tá me ofendendo por quê?

            — Por tua causa, peste, minha mulher quase que largou de mim.

            — Por minha causa? Mas o que é que eu fiz?

            — Pois você não se lembra daqueles trapos que você estava daquela vez?

            — Tudo roupa de grife!

            — Que grife que nada, que madame da alta não usa aquilo. 

            — Não usa porque não conhece, mas se conhecesse...

            — Pois deixe de conversa fiada, seu, seu...

            — Olegário.

            — Pois que seja, Olegário, seu safado! 

            Olegário observou que o nome de guerra do policial era Graça e, brincalhão que era, resolveu arriscar.

            — E qual é a sua graça, seu guarda.

            — Graça.

            — Sim. É justamente isso que quero saber.

            — Quer saber o quê?

            — A sua graça.

            — Graça! Já disse!

            — O senhor está me dizendo que a sua graça é Graça?

          Já perdendo a paciência, mas não querendo deixá-la escapar por completo, o policial Graça apontou para o nome de guerra costurado logo acima do bolso do uniforme. Obviamente que Olegário sorriu o sorriso dos cínicos, mas sem ser de todo debochado.

            — Que coincidência, né, seu guarda?!

            — Hum! O que você tem aí hoje?

            — Só material do bom.

            — Quero ver!

           Após o caixeiro-viajante abrir as sacolas e mostrar as mercadorias, o policial catou as mais bonitas e as colocou no banco da viatura. Já as demais, ele já foi metendo no porta malas. Foi aí que o Olegário percebeu que dois vestidos dos mais lindos tinham ido parar na traseira do carro da polícia.

            — Uai, seu guarda, acho que a sua digníssima iria adorar aqueles dois vestidos que o senhor acabou de colocar no porta-malas.

            — Hum!

            — Tenho certeza!

            — Aqueles não servem.

            — Não servem? Como assim?

            — É que a minha Maria Rita engordou um tiquinho.

            — Hum! Isso não é problema, meu amigo.

            — Não entendi.

            — Vamos fazer o seguinte. Acordo de cavalheiros, claro.

            — Hum! Pois diga.

            — Se o senhor me devolver todas aquelas roupas do porta-malas, eu prometo, palavra de caixeiro-viajante, que não sou moleque, que vou providenciar dois belos vestidos todos os meses para a sua esposa. Mas o senhor não pode mais confiscar minhas mercadorias. De acordo?

            O policial, apesar de ressabiado, aceitou o acordo. E, por mais de 15 anos, Maria Rita imaginou que havia se casado com o homem mais apaixonado da região. Tudo graças ao acordo firmado entre seu marido, o policial Graça, e o caixeiro-viajante Olegário.

  • Nota de esclarecimento: O conto "O caixeiro-viajante e o imbróglio com a esposa do policial" foi publicado no Notibras no dia 18/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/o-caixeiro-viajante-e-o-imbroglio-com-a-esposa-do-policial/

Nenhum comentário:

Postar um comentário