sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Antônia, Moacir e a desconfiança

    

    Antônia, atenta a tudo que a rodeava, não tardou, notou algo até então inexistente no sorriso de Moacir, o esposo. Aquilo não era próprio do sujeito, que sempre demonstrara caráter sisudo, como se o mundo lhe pesasse sem piedade sobre os ombros caídos. A mulher o fitou por um instante e disparou:

   — Por acaso está de caso com alguma sirigaita?

  Pego de surpresa, Moacir arregalou os olhos e, mostrando-se ofendido na alma, respondeu:

  — Melhor seria que me desse um tiro na cara a levantar suspeitas mundanas sobre a minha pessoa.

  Esposa e marido se entreolharam e, então, ela gargalhou, o que provocou um sorriso nervoso nele.

   — Tô caçoando, seu bobo! E você caiu que nem um patinho.

   — Ah, bom! Já estava aqui com os meus botões achando que você estivesse variando.

 Moacir riu da própria observação, mas logo parou, pois percebeu um olhar de desaprovação da amada, que, por acaso, estava descascando uma laranja com uma faca mais afiada do que mãe de esposa. 

   — Hum! Apronte comigo, que você vai ver o que faço contigo.

  Instintivamente, o sujeito colocou as duas mãos nas partes baixas. Antônia gargalhou e deu as costas para o marido. 

  — Me Deixa cuidar da vida, que ninguém coloca dinheiro no meu bolso de graça.

  O cara ficou com a pulga atrás da orelha, mas, incauto por natureza, logo aquele interlúdio já havia se tornado coisa do passado. Tanto é que, após o almoço, disse que iria à mercearia da Jurema comprar cigarro. E foi.

  Antônia sorriu e até deu um beijo nos lábios do marido, que saiu que nem galo que se acha dono de todo o terreiro. De tão confiante, não percebeu que a esposa foi no seu encalço.

  Matreira que nem ela só, Antônia seria capaz de se esgueirar em um graveto, caso fosse necessário. Já o sujeito, cuja tolice parecia cegá-lo, nem se deu ao trabalho de olhar para trás para se certificar de que não estava sendo seguido. Passou direto pelo comércio da velha Jurema, dobrou a esquina e seguiu reto. 

  Moacir, após virar à direita e à esquerda um tanto de vezes, entrou em uma rua sem saída, onde abriu o portão de ferro. Nem se deu ao trabalho de tocar a campainha ou bater palmas. Entrou como se aquele fosse local conhecido. 

  Antônia controlou a ansiedade por alguns instantes. Vá que fosse a casa de um amigo ou conhecido. Que nada! Cinco minutos de espera foram o suficiente. E lá foi a mulher.

  Determinada, passou pelo portão, tentou abrir a porta, que estava trancada. Deu dois passos para trás e desferiu um chute tão forte, que a pobre porta não resistiu, tombou no chão da sala, provocando um estrondo. Furiosa, Antônia entrou na residência e foi até o quarto, onde ainda conseguiu ver a dona da casa completamente nua pulando a janela e fugir.

   Fugando de ódio, Antônia fitou o marido em pé encostado na parede ao fundo. O camarada tremia mais do que vara verde.

      — Vista-se, seu cretino!

     Sem alternativa, o adúltero obedeceu e, cabisbaixo, começou a simular um choro. Aquilo foi demais para Antônia, que não suportava cabra frouxo. 

     — Passa! Passa! Que em casa a conversa vai ser outra! 

     Não se sabe exatamente o que aconteceu no lar, doce lar do casal. Todavia, desde então, parece que o Moacir tem andado pianinho. Quanto à amante, sabe-se apenas que se chamava Vera, era casada e, não se sabe como, convenceu o marido a se mudarem para outra cidade. A desculpa? Ah, é que ela não teria se acostumado ao clima de Brasília. Tão seco!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Antônia, Moacir e a desconfiança" foi publicado no Notibras no dia 2/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/antonia-moacir-e-a-desconfianca/

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