Sentado ao
lado dos adultos, o pensamento acompanhava a completa falta de filtro dos
miúdos. Tanta honestidade, que se sentia constrangido com o ser desprovido de
ousadia que se transformara. A altura física era flagrantemente desproporcional
à rara autenticidade que ainda lhe fazia companhia. Como se Alfredo tivesse
deixado que ela, quase por completo, o tivesse abandonado em um ponto de sua
juventude, cada vez mais e mais distante.
Enquanto as vozes à mesa se transformavam em zumbidos, o homem tentou enumerar
as vezes em que tivera vontade de ir contra as atitudes tomadas, principalmente
nos últimos anos. Pura servidão que o impedia de romper com aquela situação.
Desejo de simplesmente ser aceito? Ou seria o pavor de ser rejeitado diante dos
olhos inquisidores?
Até
mesmo na intimidade solitária do lar, Alfredo se sentia compelido a não romper
barreiras. Animal adestrado. Era nisso que se transformara. Era difícil
admitir, mas até ele concordava.
Alfredo, quase em transe voltado completamente para si, foi cutucado por Lúcio,
colega de setor.
—
Festa legal, né, Alfredo?!
—
Demais!
Se o anfitrião lhe mandasse sentar, ele sentaria. Se lhe ordenasse deitar, ele deitaria. Role, ele rolava. Aqui! Lá ia o Alfredo rastejando aos pés do dono. Verme!
- Nota de esclarecimento: O conto "Homem adestrado" foi publicado no Notibras no dia 25/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/homem-adestrado/

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