terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Primo rico e primo pobre


         Não sei se você conhece o antigo quadro humorístico Primo rico e primo pobre, criado por Max Nunes e encenado pelos lendários Paulo Gracindo e Brandão Filho. Além de ser muito engraçado, esteve no ar por décadas. Bem, não sou historiador que nem o escritor Daniel Marchi, mas não consegui deixar de imaginar o que aconteceu minutos antes de a esquete entrar no ar na rádio Nacional, em 1950. 

          Paulo Gracindo havia sido escalado para ser o primo pobre, enquanto caberia ao Brandão Filho interpretar o parente abastado. Mas eis que Gracindo, diante da figura inconfundível do colega de ofício, virou-se para o diretor e disparou:

          — Não posso ser o primo pobre. Tem que ser o Brandão Filho.

          — Mas, Paulo, por quê? 

          — Olhe pra cara dele. Ele tem cara de pobre, cara de coitado. Eu tenho cara de rico.

          — Mas, Paulo, isso é rádio. Ninguém vai ver vocês.

          — Não importa! Eu sei!

          Para não atrasar a programação, os papéis foram invertidos, conforme Paulo Gracindo bateu o pé. E se transformou em sucesso tremendo, inclusive quando, anos depois, passou para televisão. 

          Bem, não estou aqui para falar sobre esses atores que fazem parte da cultura brasileira, mas dos jovens Igor e Leonardo, que eram primos de verdade. O primeiro poderia facilmente interpretar o primo rico, enquanto Leonardo, todos diriam, se encaixaria perfeitamente no papel do primo desprovido de recursos. 

          Os dois rapazolas teriam ido a uma grande empresa de importação a fim de tentarem ser contratados, mesmo não possuindo qualquer experiência anterior. Para encurtar a história, eis que, após ambos serem entrevistados por um diretor, Leonardo foi contratado para o cargo de gestor de estoque. Lógico que ele ficou feliz da vida e, na semana seguinte, começou a trabalhar.

          Quanto ao Igor, em vez de aceitar ser auxiliar do primo, declinou da proposta de emprego e foi embora. Mal chegou ao lar, doce lar, encontrou a mãe e a avó tomando café na cozinha.

            — E aí, filho, foi contratado?

            — Não, mãe. Mas o Leonardo foi.

            — Hum. Acontece.

            — Puxa, mãe, maior injustiça!

            — O que houve, filho?

            — Eles contrataram o Leonardo e queriam que eu fosse subalterno dele. Acredita nisso? Logo eu, com essa cara de príncipe!

           A mãe tentou consolar o rapaz, enquanto a avó, mais sábia, não deixou de externar sua opinião.

            — Que entrasse em um cargo inferior, não importa. O negócio é entrar. Depois que entra, se resolve. Ou não, mas pelo menos já estaria dentro. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Primo rico e primo pobre" foi publicada no Notibras no dia 27/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/primo-rico-e-primo-pobre/

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