A mulher, que também era madrinha da criança,
adiou a missão por mais de ano, até que a consciência lhe pesou mais do que
poderia suportar. Que pegasse logo o afilhado e o levasse para o Rio de
Janeiro, então capital, onde as chances de sobrevivência eram mais favoráveis às
da cidade natal, Caxias, no Maranhão.
A viagem
foi longa o suficiente para que Valdir se acostumasse com os malabarismos das
ondas do mar. Quando o enjoo lhe beirava a goela, o moleque tratava de
engoli-lo de volta. Não era seu costume desperdiçar o que faltava no prato dos
seus.
Ao chegar
à Cidade Maravilhosa, nos idos de 1948, Valdir se assustou com aquela
quantidade infinita de seres humanos. Gente pra dar com pau, gente saindo pelo
ladrão, gente que não acabava mais.
—
Madrinha, aqui tem comida pra toda essa gente?
— Que
cada um se vire por sua conta e risco, Valdir.
Tia Laura
não era má, mas a dureza da vida a ensinou que paisagem não foi feita para
pobre apreciar. Isso era coisa da gente da alta, que vivia em Copacabana. O
destino dos dois era outro e, sem perda de tempo, rumaram para Bangu.
Valdir,
assim que aprendeu a se virar sozinho, tratou de arrumar algum para ajudar nas
despesas da casa. Catava o que a xepa deixava para trás, separava o que não era
de todo ruim, vendia como se fosse coisa boa. Se tivesse limão, fazia limonada
e vendia nas peladas de domingo. Queria dar uns chutes, mas precisava garantir
os trocados.
Quando soube que iriam construir a nova capital no meio do
nada, não deu trela, até que Dorival, que morava na mesma rua, foi ter uma
conversa com ele em uma sexta-feira de julho de 1958, logo após Garrincha
bagunçar com os beques na Suécia,
— Vamos, homem, que vai ser bom pra você.
— Vou nada, Dorival. E tia Laura?
— Ela vai entender.
— Hum!
A conversa encompridou tanto, que a madrinha do Valdir
apareceu e, não tardou, se inteirou da história.
— O que a senhora acha, madrinha?
— Se eu fosse você, eu ia.
— Vou nada!
— Vai. Se for ruim, você volta pra cá.
Duas semanas depois, lá estavam os dois amigos em um ônibus
a caminho do nada no meio do Cerrado. Tirando as horas de sono, conversaram
animadamente durante praticamente toda a viagem até que o silêncio se instalou no
instante que chegaram àquele mundaréu de terra vermelha.
Ficaram ali parados por quase uma hora quando, de repente, chegaram
alguns caminhões, de onde desceram homens carregando pranchetas e cadernos.
Eram os responsáveis pelas contratações dos peões de obra. Não tardou, Valdir e
Dorival estavam empregados.
Quando 1959 se fez presente, Dorival
confidenciou ao amigo que não suportava mais ficar naquela terra. Iria voltar
no dia seguinte.
— Você vem comigo?
— Não tem como, Dorival.
— Por quê, homem?
— Conheci uma moça.
— Moça?
— É
— Que história é essa, Valdir? E de onde
é essa moça, que eu nunca vi?
— Ela não é daqui.
— Pois é de onde?
— De Caxias.
— Da sua terra?
— É.
— Ah, agora que entendi tudo. Aquelas
cartas todas que você escreve e recebe é tudo pra ela?
Valdir assentiu com a cabeça e sorriu.
— E prometi trazê-la pra cá no fim do
ano. Vou me casar, Dorival. Vou me casar!
Dorival puxou o amigo pelo braço e o
abraçou.
— Meus parabéns, Valdir! Você merece,
meu amigo!
No dia seguinte, Dorival
pegou o caminho de volta, enquanto Valdir continuou trabalhando na construção
da nova capital do país. Ele cumpriu a promessa e foi buscar a noiva. Ficou por
lá o tempo necessário para se casar e, assim que arrumou condução, retornou com
a esposa, Martinha, a tempo de ser testemunha da inauguração de Brasília.
- Nota de esclarecimento: O conto "O homem que saiu de casa ainda menino" foi publicado no Notibras no dia 20/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-homem-que-saiu-de-casa-ainda-menino/

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