O senhor, que há tempos era viúvo, morava
em um apartamento na Asa Norte, em Brasília, para onde havia se mudado no
início da década de 1970. A princípio, odiou o local e, nos anos seguintes,
continuou desgostando, mas o emprego era bom e, assim, foi ficando, ficando, ficando...
As raízes logo começaram a brotar, quando se apaixonou por
Margarida. Casaram-se, tiveram dois filhos, que depois formaram as próprias
famílias. O pequeno Pedro era justamente o caçula do mais novo, Augusto.
— Pai, daqui a pouco passo aí e deixo o
Pedro para você passar o dia com ele.
— E a escola? Ele vai faltar?
— Pai, hoje é domingo.
Pedro, assim que viu o avô, correu para lhe
dar um abraço e um beijo chamuscado de saudade na face descarnada. Apesar das
discrepâncias de gerações, os dois se davam muito bem, como se um entendesse o
mundo do outro ou, ao menos, procurassem se informar sobre.
— Vovô, o senhor sempre foi
velho?
— Não, Pedro. Já fui da sua
idade. Já fui até mais novo do que você é hoje. Já fui tão pequeno, que minha
mãe me carregava no colo.
O menino, olhos arregalados,
sorria aquele sorriso inocente cheio de dentes de leite.
— Vovô, queria te conhecer quando
você era da minha idade. Assim, a gente poderia brincar mais.
— Mas a gente pode brincar agora. Você quer brincar de quê?
— Conte uma história. Pode ser?
— Bem, você sabe o que é bangue-bangue?
— Bangue-bangue?
— É.
— É de comer?
— Não. É filme de cowboy, com cavalos. Você gosta de cavalo?
— Não muito. Gosto mais de cachorro.
— Eu também. Você se lembra da Doroteia?
— Um pouco. Mamãe me mostrou fotos dela, mas não me lembro
muito. Era da vovó, né?
— Sim, era da sua vovó.
— E esse bangue-bangue?
— Ah, é! Bem, quando
eu era pouca coisa maior do que você, eu gostava de ver no cinema filmes de
bangue-bangue. E sempre havia o mocinho para enfrentar um monte de
bandidos.
— Sério?
— Sério.
— Coitado desse mocinho.
— Pois é, Pedro. E havia um que eu adorava. Era o meu
favorito. Ele era o mais bem-vestido. E tinha um lindo cavalo chamado
Trigger.
— Trigo?
— Quase. Trigger.
— Que nome maneiro.
— É mesmo. E dono do Trigger se chamava Roy Rogers. E sempre
andava impecavelmente vestido. Ele só tinha um defeito.
— E qual era?
— Ih, ele apanhava demais.
— Coitado, vovô.
— É verdade. Mas no final ele prendia todos os
bandidos e saía todo pimpão montado no Trigger, que tinha uma sela linda.
— Legal, vovô. Mas eu não queria ser mocinho
pra apanhar tanto.
— É verdade, Pedro. Nem eu.
— E ele chorava quando batiam nele?
— Hum. Não.
— Mesmo assim, não quero ser mocinho. Eu choro
até quando ralo o joelho no chão.
— Sabe de uma coisa?
— O quê, vovô?
— Eu
também choro. Mas não conta pra ninguém. Combinado?
— Combinado, vovô.
Os dois se abraçaram e, logo
depois, o garoto sussurrou no ouvido do idoso:
— Vovô, sabe de uma
coisa?
— O quê?
— Eu te amo.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre mocinhos e bandidos" foi publicado no Notibras no dia 21/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-mocinhos-e-bandidos/
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