quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Entre mocinhos e bandidos

  

       Bruno da Costa Oliveira só era Bruno para os raros amigos que, teimosos, não desistiam da vida. No entanto, para a maioria, era seu Bruno, já que já havia suplantado a barreira dos 80 há algum tempo e, caso tudo continuasse bem, mesmo que aos trancos e barrancos, chegaria aos 90 anos como seus finados pais. A despeito disso, havia alguém, o pequeno Pedro, de seis anos, que ignorava essas quase regras e, atrevido que era, chamava o sujeito simplesmente de vovô.

          O senhor, que há tempos era viúvo, morava em um apartamento na Asa Norte, em Brasília, para onde havia se mudado no início da década de 1970. A princípio, odiou o local e, nos anos seguintes, continuou desgostando, mas o emprego era bom e, assim, foi ficando, ficando, ficando...

As raízes logo começaram a brotar, quando se apaixonou por Margarida. Casaram-se, tiveram dois filhos, que depois formaram as próprias famílias. O pequeno Pedro era justamente o caçula do mais novo, Augusto.

          — Pai, daqui a pouco passo aí e deixo o Pedro para você passar o dia com ele.

          — E a escola? Ele vai faltar?

          — Pai, hoje é domingo. 

          Pedro, assim que viu o avô, correu para lhe dar um abraço e um beijo chamuscado de saudade na face descarnada. Apesar das discrepâncias de gerações, os dois se davam muito bem, como se um entendesse o mundo do outro ou, ao menos, procurassem se informar sobre. 

          — Vovô, o senhor sempre foi velho?

          — Não, Pedro. Já fui da sua idade. Já fui até mais novo do que você é hoje. Já fui tão pequeno, que minha mãe me carregava no colo. 

          O menino, olhos arregalados, sorria aquele sorriso inocente cheio de dentes de leite.

          — Vovô, queria te conhecer quando você era da minha idade. Assim, a gente poderia brincar mais.

           — Mas a gente pode brincar agora. Você quer brincar de quê?

           — Conte uma história. Pode ser?

           — Bem, você sabe o que é bangue-bangue?

           — Bangue-bangue?

           — É. 

           — É de comer?

           — Não. É filme de cowboy, com cavalos. Você gosta de cavalo?

           — Não muito. Gosto mais de cachorro.

           — Eu também. Você se lembra da Doroteia?

            — Um pouco. Mamãe me mostrou fotos dela, mas não me lembro muito. Era da vovó, né?

           — Sim, era da sua vovó. 

           — E esse bangue-bangue?

            — Ah, é! Bem, quando eu era pouca coisa maior do que você, eu gostava de ver no cinema filmes de bangue-bangue. E sempre havia o mocinho para enfrentar um monte de bandidos. 

           — Sério?

           — Sério. 

           — Coitado desse mocinho.

           — Pois é, Pedro. E havia um que eu adorava. Era o meu favorito. Ele era o mais bem-vestido. E tinha um lindo cavalo chamado Trigger. 

           — Trigo?

           — Quase. Trigger.

           — Que nome maneiro.

          — É mesmo. E dono do Trigger se chamava Roy Rogers. E sempre andava impecavelmente vestido. Ele só tinha um defeito.

            — E qual era?

            — Ih, ele apanhava demais. 

            — Coitado, vovô.

             — É verdade. Mas no final ele prendia todos os bandidos e saía todo pimpão montado no Trigger, que tinha uma sela linda. 

              — Legal, vovô. Mas eu não queria ser mocinho pra apanhar tanto.

              — É verdade, Pedro. Nem eu.

              — E ele chorava quando batiam nele?

              — Hum. Não.

              — Mesmo assim, não quero ser mocinho. Eu choro até quando ralo o joelho no chão.

              — Sabe de uma coisa?

              — O quê, vovô?

               — Eu também choro. Mas não conta pra ninguém. Combinado?

               — Combinado, vovô. 

                Os dois se abraçaram e, logo depois, o garoto sussurrou no ouvido do idoso:

                    — Vovô, sabe de uma coisa?

                     — O quê?

                    — Eu te amo. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre mocinhos e bandidos" foi publicado no Notibras no dia 21/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/entre-mocinhos-e-bandidos/

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