quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Aniversário do tio Aristarco

          

         Aniversário do tio Aristarco, que chegava aos improváveis 98 anos, a família se reuniu. Ninguém se atreveu a faltar, pois o velho era abastado e, por desventuras amorosas ao longo da vida, não foi possível conceber herdeiros. Dessa forma, cada um a seu modo, dava um jeito de adular o milionário.

          Cada qual utilizava técnicas para tentar se aproximar do aniversariante, seja para elogiar por conta da roupa, seja por causa do novo corte dos parcos cabelos, que era o mesmo desde sempre, seja até mesmo em razão da incrível memória, apesar dos óbvios sinais de senilidade do sujeito. 

          — Tio Aristarco, queria eu chegar à sua idade com essa capacidade de não se esquecer de nada.

          — Obrigado, Fernanda.

          — Tio, eu sou a Isadora.

          — Ah, Isabela, me desculpe. 

          — Isadora, tio!

          — O quê?

          — I-SA-DO-RA!

          — Isadora?

          — Isso, tio! Isadora!

          — Ah, eu tenho uma sobrinha chamada Isadora, mas acho que ela não veio.

          — Tio, a Isadora sou eu!

          A festa prosseguiu com confusões do tipo, até que Júlio, um dos mais bajuladores e que gostava de enaltecer as qualidades de músico do tio, apesar do velho nunca as ter possuído, pegou um violão no canto da sala.

          — Tio, toca aquela música que o senhor sempre tocava pra mim quando criança.

          — E eu sei tocar?

          — Ih, como sabe! O senhor só não é profissional porque não quer.

          De tanto Júlio insistir, tio Aristarco pegou o violão. Dedilhou as cordas, que pareciam desafinadas. Foi o bastante para arrancar aplausos entusiasmados da plateia menos honesta que poderia ser encontrada no quarteirão. 

          — Tio, o senhor é o melhor!

          — Maravilha, tio Aristarco!

          — Quem já foi rei jamais perde a majestade.

          — É como aprender a andar de bicicleta. Nunca se esquece.

          Enquanto os adultos teciam os mais absurdos elogios ao ricaço, eis que Maria Flor, de oito anos, pegou o violão que havia sido deixado sobre o sofá. Ela o ajeitou no colo, quando Augusto, um dos tios, a questionou:

          — Você toca violão?

          — Toco.

          — Não sabia.

          — Pois toco, tio.

          — E desde quando?

          — Hum... Deixa eu pensar... Hum... Ah, desde ontem!

          Silêncio sepulcral, até que tio Aristarco sorriu. Todos sorriram. O velho gargalhou, todos gargalharam. Só quem não pareceu gostar foi a menina.

          — Gente, eu só quero paz!

          Como podia uma coisa daquelas? Cadê os pais daquela garota para lhe aplicar um corretivo? Novo silêncio. Todos dividiam os olhares furiosos sobre a garota e de expectativa sobre o tio Aristarco. 

          A mudez era tamanha, que era possível ouvir o som da revolta, caso ela o possuísse. E quando o clímax começou a instigar alguém a se pronunciar, eis que tio Aristarco aplaudiu a pequena Maria Flor. Levou um átimo até que todos fizeram o mesmo. 

          A criança se aproximou do parente, lhe deu um beijo na face descarnada e soprou no seu ouvido:

          — Feliz aniversário, tio Aristarco. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aniversário do tio Aristarco" foi publicado no Notibras no dia 29/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/aniversario-do-tio-aristarco/

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