Cada qual utilizava técnicas para tentar
se aproximar do aniversariante, seja para elogiar por conta da roupa, seja por
causa do novo corte dos parcos cabelos, que era o mesmo desde sempre, seja até
mesmo em razão da incrível memória, apesar dos óbvios sinais de senilidade do
sujeito.
— Tio Aristarco, queria eu
chegar à sua idade com essa capacidade de não se esquecer de nada.
— Obrigado, Fernanda.
— Tio, eu sou a Isadora.
— Ah, Isabela, me desculpe.
— Isadora, tio!
— O quê?
— I-SA-DO-RA!
— Isadora?
— Isso, tio! Isadora!
— Ah, eu tenho uma sobrinha
chamada Isadora, mas acho que ela não veio.
— Tio, a Isadora sou eu!
A festa prosseguiu com confusões
do tipo, até que Júlio, um dos mais bajuladores e que gostava de enaltecer as
qualidades de músico do tio, apesar do velho nunca as ter possuído, pegou um
violão no canto da sala.
— Tio, toca aquela música que o
senhor sempre tocava pra mim quando criança.
— E eu sei tocar?
— Ih, como sabe! O senhor só não
é profissional porque não quer.
De tanto Júlio insistir, tio
Aristarco pegou o violão. Dedilhou as cordas, que pareciam desafinadas. Foi o
bastante para arrancar aplausos entusiasmados da plateia menos honesta que
poderia ser encontrada no quarteirão.
— Tio, o senhor é o melhor!
— Maravilha, tio Aristarco!
— Quem já foi rei jamais perde a
majestade.
— É como aprender a andar de
bicicleta. Nunca se esquece.
Enquanto os adultos teciam os
mais absurdos elogios ao ricaço, eis que Maria Flor, de oito anos, pegou o
violão que havia sido deixado sobre o sofá. Ela o ajeitou no colo, quando
Augusto, um dos tios, a questionou:
— Você toca violão?
— Toco.
— Não sabia.
— Pois toco, tio.
— E desde quando?
— Hum... Deixa eu pensar...
Hum... Ah, desde ontem!
Silêncio sepulcral, até que tio
Aristarco sorriu. Todos sorriram. O velho gargalhou, todos gargalharam. Só quem
não pareceu gostar foi a menina.
— Gente, eu só quero paz!
Como podia uma coisa daquelas?
Cadê os pais daquela garota para lhe aplicar um corretivo? Novo silêncio. Todos
dividiam os olhares furiosos sobre a garota e de expectativa sobre o tio
Aristarco.
A mudez era tamanha, que era
possível ouvir o som da revolta, caso ela o possuísse. E quando o clímax
começou a instigar alguém a se pronunciar, eis que tio Aristarco aplaudiu a pequena
Maria Flor. Levou um átimo até que todos fizeram o mesmo.
A criança se aproximou do parente, lhe
deu um beijo na face descarnada e soprou no seu ouvido:
— Feliz aniversário, tio Aristarco.
- Nota de esclarecimento: O conto "Aniversário do tio Aristarco" foi publicado no Notibras no dia 29/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/aniversario-do-tio-aristarco/

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