Nos idos de 1968, montou um escritório de contabilidade no Setor
Comercial Sul. Apesar do lucro razoável, nem de longe era a sua maior fonte de
renda. É que Raposão era agiota, e o local era perfeito para encobrir tal
atividade, digamos, ilícita.
Já perto de completar 70 anos, Raposão parecia não querer que a
adolescência se desgarrasse do seu dia a dia. Tanto é que, apesar de quase
sempre estar de terno, talvez para aparentar certa seriedade, nunca abandonou
por completo o boné. Em vez de sapatos, chamativo par de tênis. E era assim que
recebia clientela, amigos e autoridades, praticamente todos cientes dos seus
negócios.
Outra faceta do Raposão era o seu trânsito livre no Quilombo dos Calungas,
às margens do rio Paranã. Ele era apaixonado por pescarias e, não raro
arrastava os mais chegados para passarem alguns dias no local, longe do
estresse da cidade. Invariavelmente, Raposão gostava de tomar três ou quatro
doses de aguardente e, somente depois de devidamente calibrado, criava coragem
para ir pescar.
Certa feita, nos idos de 1982 ou 1983, lá foi o Raposão
acompanhado do Antonho e do Ricardão, que passariam facilmente por seus filhos,
haja vista a disparidade de idades. No entanto, apesar de serem de gerações
distantes, havia aquela conexão típica de amizade verdadeira. Os rapazes até
sabiam que a pescaria só começava após as várias rodadas de cachaça, como se
São Pedro, padroeiro dos pescadores, guiasse os embriagados para o local onde
os peixes se aglomeravam.
Após quase uma semana de pescaria e bebedeira, eis que o trio pegou a
estrada de volta para Brasília. Iam num Jeep cheio de irregularidades, além da
carga absurda de peixes, muito acima da permitida por lei. E não deu outra,
foram parados em uma blitz. Antonho ao volante, Ricardão ao lado, enquanto
Raposão transpirava puro álcool no banco de trás. Mas antes embriagado do que
iludido, costumava dizer.
Assim que o policial pediu a documentação para Antonho, que tremia mais
do que vara verde, eis que a voz rascante do Raposão cortou o ar.
— Sou o coronel Raposo. Algum problema, policial?
O homem da lei, pego de surpresa, nem se lembrou de pedir a documentação
do veículo e do graduado. Tratou de bater continência e abriu caminho para o
Jeep passar.
Já na estrada novamente, eis que o Ricardão e o Antonho, surpresos por
descobrirem que estavam na companhia de um oficial do exército, perguntaram por
que Raposão nunca havia lhes informado sobre tal patente.
— Vocês são dois bocós mesmo! Não tenho nem certificado de reservista.
Nunca pisei num quartel.
- Nota de esclarecimento: O conto "Agiota, pescador e coronel" foi publicado no Notibras no dia 16/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/agiota-pescador-e-coronel/

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