Eis que, de repente, me deparo com uma fotografia do escritor J. Emiliano Cruz se fazendo de Wagner Moura em O agente secreto. Penso por um instante nos excelentes ator e filme, mas logo deixo isso de lado para tentar desvendar, detetive que sou, com quem o Jota estaria falando. No entanto, eis que a minha esposa, a Dona Irene, que também já foi fotografada em situação semelhante, me dá quase uma bronca.
— Edu, o Jota não está falando com ninguém. Ele está apenas posando pra foto.
Volto os olhos para a minha linda mulher e apenas sorrio. Não sou besta de contestá-la, pois bem sei que seria incapaz de vencê-la na retórica. Todavia, não duvido que o grande escritor gaúcho, mesmo que em pensamento, estava trocando confidências sobre seu próximo conto. Mas com quem?
Seria com a misteriosa B? Sim, há uma mulher enigmática com esse codinome, que, não raro, aparece nos textos desse autor talentosíssimo. E eu, talvez, seja um dos raros que sabem quem é a dita cuja. Ela é real e, acreditem, também é escritora.
Brígida de Poli. Não falei que sei quem é? Pois é a própria! Jornalista e escritora, autora de No escurinho do cinema - memórias de uma cinéfila. Hum! Tá vendo como minha tese é plausível. Aliás, factível e digna de nota. Mesmo assim, prefiro mantê-la em segredo da Dona Irene. Vá que ela me dê um carão.
Apaixonada por cinema que é, a Brígida é certamente a interlocutora do outro lado da linha. Mas a dúvida não acaba aí, pois também é urgente descobrir o que o nosso agente secreto da literatura estaria conversando com a amiga cinéfila.
Enquanto quebro a cuca tentando desvendar o interlúdio dos escribas, a minha mulher dá uma olhadela nas minhas anotações. Parece que ela encontrou a solução ou, ao menos, a ponta do fio da meada.
— Edu, tu que é escritor, por que não transforma essa crônica num conto?
— O quê? E isso pode?
— Ah, Edu, me poupe, se poupe e nos poupe! Você é um escritor ou um rato?
— Quiiii.
A minha imitação de rato pareceu não receber qualquer nota de empatia da minha gata, que me fuzilou com seus lindos olhos castanhos. Desse modo, sem alternativa, tratei de me apegar àquela ideia.
E lá estava o Jota falando ao orelhão com a enigmática B, quando, do nada, ela se materializou ao seu lado trajando roupas emprestadas da sua amiga Margaretha Geertruida MacLeod. Talvez por conta do susto, o nosso agente secreto não a tenha reconhecido.
— Mata Hari?
— Não, Jota! Sou eu, a B.
— Brígida?
— Desse jeito você vai estragar o meu disfarce.
— Desculpe. É que você não me avisou que vinha tão de pressa.
— Hum! Jota, Jota, e olha que eu recusei um papel de Bond girl com o Sean Connery para estar aqui.
Enquanto o Jota tentava processar tamanhas informações, eis que a B o puxou de volta para a realidade.
— Vamos, antes que seja tarde demais. Comprou os ingressos?
— Sim! Estão aqui.
Cinco minutos após, lá estava o improvável casal sentado em poltronas na frente da telona.
— B, me passa a pipoca.
— Não sei como é que você consegue comer numa hora dessas.
— É que quando estou nervoso bate aquela fome.
— Pelo menos mastiga baixinho, que está tirando a minha concentração.
— Desculpe, B.
O filme O agente secreto prosseguia até que a famosa cena surgiu. Lá estava o Wagner Moura, quer dizer, Marcelo/Armando, diante do orelhão, quando a B cutucou o Jota.
— Vamos! É agora! Ou a cena passa e nosso plano vai pro espaço.
Não me pergunte como aconteceu, mas aconteceu. Pois lá estavam a B e o Jota bem ao lado do Wagner Moura, que imaginou que a cena havia sido cortada. Ele até se desculpou com os dois, pensando que seriam da produção. Entretanto, antes que o ator pudesse dizer alguma coisa, a B colocou um pano com éter nas suas narinas, fazendo-o desfalecer que nem a Bela Adormecida nos braços do Jota.
Graças à intervenção dos nossos heróis, o filme não terminou do mesmo jeito que nas demais salas de exibição. Mas não pense você que a coisa parou por aí. Nananinanão!
— Quem são vocês?
— Boa noite, seu Wagner! Sou o escritor J. Emiliano Cruz, mas pode me chamar de Jota. Esta aqui ao meu lado é a misteriosa B, mas na verdade se trata da grande escritora Brígida de Poli.
— Prazer, seu Wagner. Sou muito fã do senhor.
— Vocês são loucos ou o quê?
Jota e B se entreolharam e, então, a mulher prosseguiu.
— Na verdade, seu Wagner, somos escritores e apaixonados por cinema. E o que fazem com o senhor, quer dizer, com o Marcelo nesse filme é uma maldade tão grande, que pensamos em salvá-lo.
— Sim! Foi exatamente isso, seu Wagner! O senhor quer uma pipoquinha?
Wagner Moura olhou aqueles dois, balançou a cabeça, sorriu e acabou aceitando a tal pipoca. Em seguida, virou as costas e sumiu na escuridão enquanto os letreiros subiam.
- Nota de esclarecimento: O conto "J. Emiliano Cruz, Brígida de Poli e Wagner Moura" foi publicado no Notibras no dia 31/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/j-emiliano-cruz-brigida-de-poli-e-wagner-moura/

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