domingo, 1 de fevereiro de 2026

Recalque de uma paixão

   

        Leopoldo fazia questão de se fechar como ostra. Foi o modo como ele havia encontrado para não revelar as fragilidades que lhes eram próprias. Se fosse ator, seria escada para a estrela de peça ou película.

          Deitado no divã, o sujeito buscava se entender aos olhos atentos de uma psicóloga.

          — Você me acha recalcado?

          — Você se considera recalcado?

          — Talvez.

          — É assim que você se enxerga?

          — Sou sem graça. 

          Não foi o filho favorito, muito menos o neto. Enjeitado pelas garotas na adolescência, imaginava-se na pele de Augusto, espécie de queridinho da rua. Não que fosse feio, mas a comparação parecia-lhe inevitável.

          — Augusto? E quem é Augusto?

          — Um amigo. Quer dizer, nunca fomos amigos, éramos mais como conhecidos. 

          — Conhecidos?

          — Bem, na verdade, fomos amigos, mas a inveja consumiu nossa amizade. Não por culpa do Augusto, que era um cara legal. Mas aquela aparência... Sabe?

          — Como assim?

          — É que penso que ninguém poderia ser tão bonito aos 15, 16 anos. Isso é muito injusto com as outras pessoas, que estão passando por um monte de problemas. Sabe? Insegurança, espinhas na cara, hormônios que transformam crianças fofas em monstros.

          — Monstros? Você se acha um monstro, Leopoldo?

          — Bem, hoje não mais. Quer dizer, sei que não sou tão bonito, mas aprendi a conviver com o que vejo no espelho. Mas naquela fase... Puxa, como foi difícil!

          — Parece que você ainda não superou isso.

          — Não, não! Já! Quer dizer, não sei ao certo. Cruzei com o Augusto na semana passada, logo que saí daqui. Acredita?

          — E como foi esse reencontro com o seu amigo?

          — Bem, na verdade, não foi um reencontro. Creio que ele nem me reconheceu. Foi nessa padaria aqui embaixo. Fui comprar cigarros e lá estava ele tomando café. Ele me olhou, mas foi só uma passada de olhos. Sabe? Não tem aquela coisa de dar uma conferida no ambiente?

          — Sei. 

          — Pois é, foi assim que aconteceu. Depois fiquei bravo comigo mesmo por não ter ido lá falar com ele. Mas talvez tenha sido melhor assim. Sei lá. 

          — A beleza do seu amigo ainda o incomoda?

          — Engraçado é que ele nem está tão bonito assim. Ainda conserva aquele charme. É, por que estou fazendo isso?

           — Fazendo o quê?

           — Mentindo pra mim mesmo.

           — Como assim?

           — O Augusto continua lindo. Puxa vida! Acho que até mais.

           — E isso ainda te incomoda?

          — Talvez. Ninguém poderia ser tão lindo daquele jeito. Pelo menos não fora das telas de cinema. 

          — Você odeia o seu amigo por isso?

           — Odiar? Não! Jamais! Eu sempre amei aquele desgraçado!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Recalque de uma paixão" foi publicado no Notibras no dia 1º/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/recalque-de-uma-paixao/

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