Deitado no divã, o sujeito
buscava se entender aos olhos atentos de uma psicóloga.
— Você me acha recalcado?
— Você se considera recalcado?
— Talvez.
— É assim que você se enxerga?
— Sou sem graça.
Não foi o filho favorito, muito
menos o neto. Enjeitado pelas garotas na adolescência, imaginava-se na pele de
Augusto, espécie de queridinho da rua. Não que fosse feio, mas a comparação
parecia-lhe inevitável.
— Augusto? E quem é Augusto?
— Um amigo. Quer dizer, nunca
fomos amigos, éramos mais como conhecidos.
— Conhecidos?
— Bem, na verdade, fomos amigos,
mas a inveja consumiu nossa amizade. Não por culpa do Augusto, que era um cara
legal. Mas aquela aparência... Sabe?
— Como assim?
— É que penso que ninguém poderia
ser tão bonito aos 15, 16 anos. Isso é muito injusto com as outras pessoas, que
estão passando por um monte de problemas. Sabe? Insegurança, espinhas na cara,
hormônios que transformam crianças fofas em monstros.
— Monstros? Você se acha um
monstro, Leopoldo?
— Bem, hoje não mais. Quer dizer,
sei que não sou tão bonito, mas aprendi a conviver com o que vejo no espelho.
Mas naquela fase... Puxa, como foi difícil!
— Parece que você ainda não superou isso.
— Não, não! Já! Quer dizer, não
sei ao certo. Cruzei com o Augusto na semana passada, logo que saí daqui.
Acredita?
— E como foi esse reencontro
com o seu amigo?
— Bem, na verdade, não foi um
reencontro. Creio que ele nem me reconheceu. Foi nessa padaria aqui embaixo.
Fui comprar cigarros e lá estava ele tomando café. Ele me olhou, mas foi só uma
passada de olhos. Sabe? Não tem aquela coisa de dar uma conferida no ambiente?
— Sei.
— Pois é, foi assim que
aconteceu. Depois fiquei bravo comigo mesmo por não ter ido lá falar com ele.
Mas talvez tenha sido melhor assim. Sei lá.
— A beleza do seu amigo ainda
o incomoda?
— Engraçado é que ele nem
está tão bonito assim. Ainda conserva aquele charme. É, por que estou fazendo
isso?
— Fazendo o quê?
— Mentindo pra mim mesmo.
— Como assim?
— O Augusto continua lindo. Puxa vida! Acho que até mais.
— E isso ainda te incomoda?
— Talvez. Ninguém poderia
ser tão lindo daquele jeito. Pelo menos não fora das telas de cinema.
— Você odeia o seu amigo por isso?
— Odiar? Não! Jamais! Eu sempre amei aquele desgraçado!
- Nota de esclarecimento: O conto "Recalque de uma paixão" foi publicado no Notibras no dia 1º/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/recalque-de-uma-paixao/

Nenhum comentário:
Postar um comentário