
Vovó hoje
deu para recordações. Mal coloquei o pé na sala, ela já me mandou ir até a
estante e pegar um grosso volume debaixo de um jarro de flores de plástico. Um
álbum de fotografias, que, ao abri-lo, percebi que há muito não era aberto,
pois foi possível enxergar a poeira que subiu, graças à luz que entrava pela
janela entreaberta.
Minha avó me mandou sentar
ao seu lado no sofá de três lugares. Do seu outro lado já se encontrava o
Virgulino, gato vira-lata que poderia se passar por angorá aos olhos de alguém
menos avisado, tamanha exuberância da sua pelagem. Não era puro, mas isso não era
empecilho para os mimos de vovó, que os atendia sem reservas, apesar dos
protestos de vovô, que andava cada vez mais entretido com a própria
rabugice.
As primeiras fotografias, diversas que me recordava de tê-las visto no meu tempo de menino, continuavam
lá. Algumas desbotadas, outras querendo se despregar por conta da cola vencida.
Meu bisavô, sentado em uma poltrona, era a que mais conhecia, mesmo porque
havia um porta-retratos com uma cópia maior bem na mesinha de centro. Seus
olhos claros se destacavam, apesar do preto e branco da fotografia.
— Papai possuía os olhos
azuis que nem céu em dia de brincar no parque. Nenhum dos filhos puxou os olhos
dele. Os seus lembram um pouco os do dele, mas os de papai eram mais
bonitos.
Ao lado da fotografia do
meu bisavô, lá estava a minha bisavó. Ela estava diante do portão da antiga
casa da família. Era nítida a semelhança da minha avó com sua mãe. No entanto,
a filha, hoje aos 80, poderia se passar por avó da própria mãe, que, no retrato, deveria
estar perto dos 30 anos.
Várias páginas viradas,
vovó contando uma coisa ou outra sobre as pessoas, inclusive sobre um cachorro
que surgiu ao lado do irmão, meu tio-avô Reynaldo. Ela me contou que o danado
aprendia truques novos a cada semana, o que divertia a família. Mas eis que uma
fotografia me chamou a atenção. Datava de 1910, que sabia ser bem antes do
nascimento da minha avó.
— Não sei de onde é essa,
Jorge. Mas há dois ou três anos estava passeando e me deparei com ela numa
banca de camelô. Não tive dúvida e resolvi comprá-la. O homem queria vendê-la
por 100 reais. Disse que pagava 10, mas acabamos negociando por 30.
— Excelente negócio,
vovó!
— É uma belezura, não
é?
— Linda!
— Pois ela é sua. Mas
com uma condição!
— Que condição, vovó?
— Escreva uma história sobre ela. - Nota de esclarecimento: O conto "Vovó e a fotografia de 1910" foi publicada por Notibras no dia 19/4/2024.
- https://www.notibras.com/site/vovo-e-a-fotografia-de-1910-oferecida-por-100-levada-por-30/
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