— Vamu?
— Tá louco?
— Loucura é ficá aqui.
— Deixa de ser ingrato,
homi.
— Ingrato?
— Sim.
— Tá louco?
— Loucura é ocê que qué fazer.
— Não fico nem mais um dia
aqui.
— Não pensa no sinhô Augusto?
— Tá louco?
— Louco é ocê de não
reconhecer a bondade do homi.
— Tá louco?
— Louco é ocê.
— Já esqueceu daquilo?
— Mereci.
— Tá louco?
— Fiz corpo mole. Mereci.
— Tá mesmo louco.
— Não vá, por favor. Pense
no sinhô Augusto.
— Tá louco?
— O homi vai ter um baita
prejuízo.
Deu de ombros para as
súplicas do companheiro e se embrenhou pela mata adentro. Nunca mais se ouviu
falar dele. Não se sabe se onça comeu ou se continua por aí, livre. Tronco,
nunca mais. A verdade é que o amigo que ficou, mãos calejadas, costas marcadas
por conta de corpo mole, fez tudo para compensar a perda do senhor Augusto,
proprietário de engenho lá para os lados do Quilombo dos Palmares, 1624.
- Nota de esclarecimento: O conto "A doce loucura da liberdade" foi publicado por Notibras no dia 3/4/2024.
- https://www.notibras.com/site/um-vai-e-outro-fica-na-doce-loucura-da-liberdade/
- O conto "A doce loucura da liberdade" faz parte da "Coletânea de Microcontos 2024" da editora Persona.
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