O bicho, crista que parecia até topete de cantor de rock, era
garboso, charmoso e até cheiroso, tudo por conta de algumas providenciais gotas
de perfume francês. Pulmões em dia, que não deixavam o galo na mão quando era
preciso dar esporadas na cara dos adversários. Não ficava um de pé.
Meu tio, com o galo nos braços, me
convidou para ir com ele. Olhei para mamãe, que, apesar da cara de contrariada,
concordou com um sorriso que só ela sabia fazer. E lá fui, aos oito ou nove
anos, fazer a minha primeira e última viagem naquele caminhão que bem poderia
ter saído de um filme do Mazzaropi. Sai da frente!
Naquela
noite, nos idos de 1960, pegamos a estrada. Sentado ao lado do meu tio, minhas
pernas não alcançavam o piso do caminhão, que já me parecia antigo naquela
época. O galo, que soube se chamar El Matador, devidamente acomodado em uma
caixa forrada com jornal velho, ficou entre nós dois.
Tio Juvêncio contava um causo novo a cada curva. El Matador e eu
não tirávamos os olhos daquele homem que havia passado por um mundaréu de
histórias. Desde lutas contra três bandidos, que o pegaram à traição durante a
troca de um pneu furado, até encontro com onça-pintada, sem esquecer das belas
senhoritas que se apaixonaram pelo meu parente. E como não se apaixonar por
aquele tipo tão simpático e cheio de vida?
E antes que você pense que aqueles
três assaltantes levaram a melhor contra meu tio, já vou dizendo que está muito
enganado. Capoeirista dos bons, foi sopapo pra todo lado, mas apenas em dois
dos criminosos. É que o terceiro fugiu que nem galo velho no dia da degola.
Quanto à
onça-pintada, ela apareceu em um bar lá pro lado de Icatu, Maranhão. Enquanto
todos ficaram apavorados diante daquela força da natureza, tio Juvêncio teve
uma conversa quase ao pé do ouvido daquele bicho enorme.
— Dona Onça, aqui quem fala é
Juvêncio Campos Sousa, seu criado. Vim preparado pra paz e pra guerra. É a
senhora que decide.
A onça encarou meu tio, que
aproveitou para cofiar os bigodes. Ela rugiu tão alto, que todos se ajuntaram que
nem arroz de cozinheiro de primeira viagem. Tio Juvêncio não arredou pé, até
que a onça mostrou sapiência e saiu do recinto em paz.
— Tio, mas o senhor não ficou
com medo?
— Tem hora que um homem não tem
nem tempo de sentir medo, Robertinho.
Depois de dois dias de viagem,
deixamos El Matador em um sítio, onde ele teria uma bela aposentadoria cercado
de galinhas. Não tive mais notícias dele, mas provavelmente alguns dos seus
herdeiros também tiveram sucesso na rinha. A maioria, certamente, foi parar na
panela.
Voltamos para casa e encontramos todos na varanda. Foi
aquela alegria rever mamãe, papai, vovó e toda a parentada. Tio Juvêncio
parecia satisfeito por tido a companhia do sobrinho e do galo El Matador.
Acabei adormecendo nos braços de mamãe, que, no dia seguinte, me disse que foi
meu tio que me levou para o quarto.
Tio Juvêncio pegou a estrada logo pela manhã sem se
despedir. Somente após dois dias soubemos o que aconteceu. Ele havia dormido ao
volante e, numa curva traiçoeira, caiu em uma ribanceira. Falaram que meu tio
teria dormido ao volante, talvez sonhando com as histórias de que tanto gostava
de contar.
- Nota de esclarecimento: O conto "As histórias do tio Juvêncio" foi publicado por Notibras no dia 28/4/2024.
- https://www.notibras.com/site/frete-de-tudo-e-pra-todo-lado-mas-a-ribanceira/
- O conto "As histórias do tio Juvêncio" faz parte da COLETÂNEA DE CONTISTAS CONTEMPORÂNEOS VOLUME II, da editora Persona, 2024.
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