Aqueles rapazes do colégio Diocesano, numa importante cidade do interior do Nordeste, estavam dispostos
a pregar uma peça no diretor, o cônego Anderson Magalhães. Os alunos não tinham
lá muita simpatia pelo homem, que possuía fama de rígido, especialmente com
meninos arteiros. Que fossem fazer travessuras bem longe da escola.
Rubens e Jorge, na hora do recreio, confabulavam,
quando Raimundo e Salviano se aproximaram. Os quatro queriam aprontar uma com o
diretor, mas ainda não sabiam como. Ideias pululavam daquelas mentes juvenis,
até que Raimundo se distraiu com um calango correndo pelo pátio.
— Presta atenção, Raimundo! - disse Rubens.
— Desculpe. Só estava vendo o carambolo passar.
— Deixa esse bicho pra lá. Temos que pensar em alguma
coisa pra vingar aquela bronca que levamos do diretor na semana passada.
— Ih, lá vai o padre Clodovil tocar o sino.
Nisso, os olhos dos quatro garotos brilharam ao ver o
padre puxando a corda para decretar o final do recreio. Em seguida, tentaram
encontrar o tal calango que havia distraído Raimundo. Que pena! O lagarto se
escafedeu.
No dia seguinte, os amigos acertaram o plano de vingança
contra o diretor. Eles iriam pegar o carambolo e, depois, o amarrariam à corda
do sino da escola. Caça daqui, caça dali, mas nada do bicho aparecer. Bobo que
não era, ficou ressabiado com tantos olhares em sua direção. Tratou logo de se
mandar daquele lugar, até que as coisas se acalmassem.
Desanimados, os meninos retornaram para
a sala de aula assim que o sino anunciou o fim do recreio. Que tivessem mais
sorte no dia seguinte, o que também não aconteceu. Nem na outra semana, até
que o Raimundo surgiu todo sorridente assim que pisou na escola e encontrou os
companheiros na porta da sala.
— Que sorriso é esse, Raimundo? -
Rubens perguntou.
O rapaz, com a mão esquerda no bolso da calça,
disse que havia capturado um carambolo no quintal da sua casa. Os amigos não
acreditavam naquilo, tamanha felicidade que os tomou. Um carambolo! Um
carambolo! Finalmente, um carambolo!
As duas primeiras aulas daquele dia
foram de matemática. Raimundo, que já não era muito bom com os números, se
perdeu por completo naquele dia, ainda mais porque o danado do calango não
parava de se mexer dentro da calça. Seja como for, finalmente o sinal para o
recreio foi ouvido e todos os alunos correram para o pátio.
Os quatro amigos se aproximaram do
sino, como se tivessem apreciando a paisagem. Ficou acordado de Jorge e
Salviano vigiarem para que ninguém percebesse o que eles iriam
aprontar. Raimundo segurou o carambolo bem firme para que ele não escapasse,
enquanto Rubens o amarrou à ponta da corda do sino. Em seguida, artistas que
eram, os quatro voltaram a passear pelo pátio, como se nada tivesse acontecido.
O que se seguiu foi que o padre
Clodovil, assim que a hora do recreio estava perto de acabar, se aproximou do
sino e, sem perceber aquele calango preso, pegou a corda justamente onde o
bicho estava amarrado. Foi aquele susto! Tanto é que o padre caiu para
trás e ergueu as pernas. Pra quê? Todos os alunos do colégio começaram a
gargalhar e apontar para as vergonhas do padre.
Não pense você que aquilo ficou barato. Não mesmo! O
diretor, assim que os estudantes retornaram para a sala, foi lá ter uma
conversinha com todos. Queria porque queria que o culpado daquele pecado se
entregasse. Ninguém apareceu para assumir a culpa. O cônego insistiu. Os alunos
continuaram mudos, como se santos fossem.
— Deus está vendo! Deus está vendo!
Os estudantes se entreolharam, mas continuaram negando. O
diretor tornou a insistir. No entanto, os meninos, olhos baixos, pela terceira
vez, balançaram negativamente aquelas cabeças repletas de culpa. Que Deus tenha
piedade daquelas pobres almas. Ninguém foi punido.
- Nota de esclarecimento: O conto "O carambolo" foi publicado por Notibras no dia 26/4/2024.
- https://www.notibras.com/site/alunos-dao-troco-por-castigo-em-colegio-diocesano/
Nenhum comentário:
Postar um comentário