Antes de cortarem o bolo,
pediu que todos, não mais de 30, se acomodassem da maneira que quisessem, mas
que prestassem atenção na história que tinha para contar. Aliás, não apenas
sua, pois envolvia Tunico, o filho da falecida Judite, empregada da sua mãe.
Pobre rapaz, cujo destino parece que não foi dos melhores, conforme o velho
passou a contar.
Pois bem, lembro-me
bem desse dia, que aconteceu há exatos 60 anos, pois, assim como hoje, também
era meu aniversário. Dez anos! Agora, minha idade passaria a conter dois dígitos
e, é quase certo, irei para minha futura cova antes de completar três. Se bem
que vovó chegou aos 102.
Tunico,
pouco mais novo que eu, me fazia as vontades nas brincadeiras. Quando não
queria mais desfrutar da sua companhia, o dispensava com um "Pode
ir!" e, não tardava, o moleque ia cabisbaixo para a cozinha ajudar a mãe.
Isso se, por acaso, não tivesse uma cerca para ser consertada ou o jardim não
precisasse de cuidados.
E lá
estava eu montado nas costas do Tunico, que se fazia de meu cavalo, apesar das
vestes puídas, quando ouvi os gritos da minha avó. Minha montaria e eu paramos
a brincadeira por um instante para nos inteirar sobre a situação.
— Quem
roubou o meu relógio? Quem foi o maldito ladrão que roubou o relógio que foi do
meu pai? Ou o relógio aparece agora ou, então, chamo já a polícia!
Tunico, olhos esbugalhados, parecia assustado com tudo aquilo. Devo confessar
que aquela cara de coelho desesperado diante da matilha de cães me trouxe certo
regozijo. Teria sido ele o larápio? Pois foi justamente isso que o delegado
Horácio, chamado às pressas por vovó, descobriu em pouco mais de uma hora.
— Pode
deixar, dona Carmem, que comigo esse pirralho abre o bico num instante.
E não
é que Tunico abriu o bico rapidinho? Resistiu a alguns safanões, mas quando
disseram que era melhor falar ou sua mãe perderia o emprego, assumiu toda a
culpa. E lá foi o Tunico, amarrado que nem porco, para a delegacia. A partir de
então, nunca mais soube notícias dele. Quer dizer, até soube, mas não dei muita
importância. Melhor ficar longe dessa gente.
Quanto
à promessa de não mandar a mãe de Tunico embora, obviamente que mamãe não
poderia tê-la cumprido, ainda mais depois das súplicas de vovó, que não queria
mais saber daquela gente em casa. Fez bem. Não concordam?
Mas percebo que todos aqui estão curiosos quanto ao destino
do Tunico. Como bom anfitrião, sinto-me na obrigação de lhes contar. O moleque
passou alguns meses na cadeia, onde foi colocado na mesma cela dos outros
bandidos, a maior parte composta de homens feitos. Que dessem jeito nele, não
se pode controlar os instintos dessa corja.
Tunico, que nem tenho certeza ter iniciado no crime por causa do relógio de
vovó, acabou se metendo com uma gangue assim que saiu da prisão. Vi, anos mais
tarde, seu retrato num jornal. Estava com a garganta cortada. Quase não o
reconheci, caso não fosse por aqueles olhos esbugalhados.
E,
para finalizar, o relógio nunca foi encontrado. Na certa, deve ter sido vendido
a preço de banana. Esse tipo de gente não sabe apreciar as boas coisas da vida.
Vovó, desolada com a perda do relógio que foi do seu pai, acabou definhando e
faleceu seis meses após. Pobre alma tão bondosa, vítima de um crime cometido
por gente que ela havia acolhido aqui em casa.
Mas
deixemos de lado tais histórias tristes. Vamos festejar, pois hoje é dia de
comemorar. Aposto que vocês não adivinham para quem vai o primeiro pedaço do
bolo.
A
plateia, antes boquiaberta, gargalhou diante da pilhéria do anfitrião. E, após
duas horas, todos foram se despedindo, até que, solitário, o aniversariante se
recolheu. Já no quarto, pegou um banquinho de madeira de lei.
Um pé, depois o outro, conseguiu alcançar a porta superior do armário. O
velho, quase nas pontas dos pés, visualizou uma mala bem ao fundo. Ele esticou
o braço, pegou a alça e puxou a mala para si. Ele a abriu e sorriu o sorriso
dos vitoriosos. Todavia, acabou se desequilibrando e, antes de cair, bateu a
cabeça na cabeceira da cama. O sangue escorreu pelo tapete persa, anunciando o
último suspiro do homem. Um relógio caríssimo, cuspido pelo choque da mala no
chão, repousa no canto.
- Nota de esclarecimento: O conto "Relógio de família" foi publicado por Notibras no dia 11/4/2024.
- https://www.notibras.com/site/tunico-vira-criminoso-sem-crime-verdadeiro-ladrao-morre-aos-70/
- O conto "Relógio de família" foi publicado na revista The Bard, edição 26 de julho/agosto 2024.
- https://revistathebard.com/contos-relogio-de-familia-por-eduardo-martinez/
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