quinta-feira, 23 de julho de 2026

Passos e descompassos

  

    Lorena e Miguel, a princípio um casal improvável, se esbarraram em uma roda de samba no Bar do Bosco. Ela, um tanto exuberante, parecia mais interessada nos bambas do local. Já o sujeito, cuja barriga proeminente o fazia se encolher em timidez, preferia se ater a olhares sobre aquela gente.

    Coube à bonitona a iniciativa, mesmo que, caso lhe fosse perguntado, era provável que ela não soubesse apontar o motivo. Combinações esdrúxulas que aparentemente não se encaixam.

    — Tu dança ou só fica com o traseiro colado na cadeira?

    Miguel, que se confundia com os próprios pés, sorriu. Nisso, foi puxado pela mão.

     — Vem, que te ensino a requebrar gostoso.

        E lá foi o homem sem jeito para a coisa. Não se saiu tão mal, pelo menos aos olhos interessados da Lorena. Depois de alguns passos e descompassos, além de vários goles de cerveja, os dois terminaram na cama. E foi assim que o romance se iniciou.

        Dois anos de amor regado a pagode, cerveja, suor e beijos ardentes sob lençóis indiscretos. Aquela paixão fogosa, sem amarras, como se o amanhã fosse mera ilusão. Tanta felicidade, que ninguém poderia supor o que estava por vir.

            Aconteceu em uma noite de sexta-feira, perto das dez horas. O samba rolava solto no Bar do Bosco, o casal ainda no lar, doce lar.

        — Ué, Miguel, tu ainda não tá pronto?

        — Ah, meu amor, hoje não tô a fim. Acho que tô com indisposição.

        — Indisposição? Tu tá doente ou o quê?

        — Num sei. Só não tô a fim mesmo.

        Nada no sábado também. Domingo, então, era dia de recolher os atrevimentos para suportar a labuta da semana. Mas o pior mesmo foi a avalanche de críticas que o Miguel começou a derramar sobre a companheira.

        — Lorena, tu precisa mesmo usar essa saia? E pra que tanta tinta na cara? Cerveja também não é legal. E esse samba... Ih, isso é coisa que não presta!

            Lorena, olhos sem aquele sorriso costumeiro, foi trabalhar na segunda-feira. Quem logo percebeu a carranca no rosto da jovem foi a Shirley, prima e colega na empresa. 

            — O que foi, mulher? Que cara de coxinha sem catupiry é essa?

            — Ah, Shirley, nem te conto.

            — Pois conte, que tu sabe que sou da fofoca.

            — É o Miguel. Acho que ele arrumou outra.

             — Outra? Duvido! O problema do seu homem é muito pior, Lorena.

            — Pior?

            — É! Pensei que tu já estava sabendo.

            — Sabendo o quê, mulher?

            — O seu Miguel virou crente.

            Lorena quase caiu dura. 

            — O quê? Não pode ser! O meu Miguel?

            — Sim, amiga. O seu Miguel.

           — Eita! Agora que a coisa complicou de vez. Com mulher até que dá pra competir, mas com Jesus... Ih, assim nem tem competição. 

            E foi assim que o romance terminou. Cada um seguiu seu caminho e, apesar de tudo, dizem que ainda se falam quando se esbarram na calçada.

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