sexta-feira, 17 de julho de 2026

Ruídos de família

    

    Como se fosse para-raios, dona Arlete atraía todo tipo de imbróglios familiares. E lá ficava a senhora, cara de paisagem, diante de uma das partes interessadas. Quem tinha alguma coisa para reclamar, que reclamasse, mas também não quisesse nada além do que ouvidos e um tanto de ironia.

    — Mamãe, você não vai acreditar.

    — Então, nem me conte.

    — Hum! Mamãe, você acredita que o Álvaro me chamou de dramática?

    — Não me diga. Você?

    — Pois é, mamãe! Pra senhora ver o que passo no meu casamento.

    — Coitada de você, minha filha. Tá, mas e eu com isso?

    — Mamãe! A senhora é a minha mãe.

    — Sei lá, Patrícia. Trocam tanto de bebês na maternidade.

    — Mas, mamãe, eu sou a cara da senhora!

    — Vai me culpar por isso também?

    — Mamãe!

    Humberto, sobrinho da dona Arlete, vez ou outra, aparecia na casa da tia. Por coincidência, artimanha ou obra do acaso, sempre no período da tarde, por volta das quatro, quando a mulher costumava tomar chá com torradas crocantes e queijos finos.

    — Titia, que saudade!

    — Oi.

    — Já falei que a senhora é a minha tia favorita?

    — Hum... Com esta, creio que já são três mil oitocentas e trinta e sete vezes. 

    — Só? Que sobrinho sem coração sou eu.

  — Talvez um pouco mais. É que a sua tia está ficando velha e nunca foi boa em matemática. 

    — Preciso me redimir, titia. Mas que cheirinho convidativo é esse? Não vai me dizer que a senhora preparou aquele café especial?

     Já sentados à mesa na varanda, Humberto puxava assunto, enquanto a tia queria mesmo é aplicar um bom pontapé nos glúteos do parente.

    — A senhora está sabendo?

    — Sabendo o quê?

    — Papai me disse que chegou a hora de eu bater asas e sair de casa.

    — Jura? O Ernesto fez isso?

    — Pois é, titia, pra senhora ver como são as coisas. A senhora acredita?

    — Bem, chega uma hora na vida... Tu fez quarenta anos, né!?

    — Completei trinta e nove no mês passado, titia.

    — Ah, tá! Cá estou eu sempre atrapalhada com os números. É a matemática, Humberto. Nunca fui boa nisso. E tu, com apenas 39 anos, ainda é um molecote. 

    O homem encarou a tia, que manteve o olhar firme, apesar da gargalhada silenciosa dentro da mente. Aliás, tamanho talento não é para todos. Dona Arlete não titubeava por coisa boba.

    Bom mesmo era quando juntava a família inteira, às vezes em algum aniversário, quase sempre no Natal. Ih, era aquela concorrência sem qualquer discrição para ter um dedo de prosa com a dona Arlete. Sem chance! A senhora sorria seu melhor sorriso de matriarca e dizia:

    — Hoje é dia de festejar, minha gente!

    No íntimo, dona Arlete não escolhia palavras: "Hum! Só digo uma coisa. Querem mesmo saber, bando de imbecis? Ah, querem mesmo? Pois digo é nada!"

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