— Mamãe, você não vai acreditar.
— Então, nem me conte.
— Hum! Mamãe, você acredita que o Álvaro me chamou de dramática?
— Não me diga. Você?
— Pois é, mamãe! Pra senhora ver o que passo no meu casamento.
— Coitada de você, minha filha. Tá, mas e eu com isso?
— Mamãe! A senhora é a minha mãe.
— Sei lá, Patrícia. Trocam tanto de bebês na maternidade.
— Mas, mamãe, eu sou a cara da senhora!
— Vai me culpar por isso também?
— Mamãe!
Humberto, sobrinho da dona Arlete, vez ou outra, aparecia na casa da
tia. Por coincidência, artimanha ou obra do acaso, sempre no período da tarde,
por volta das quatro, quando a mulher costumava tomar chá com torradas
crocantes e queijos finos.
— Titia, que saudade!
— Oi.
— Já falei que a senhora é a minha tia favorita?
— Hum... Com esta, creio que já são três mil oitocentas e trinta e sete
vezes.
— Só? Que sobrinho sem coração sou eu.
— Talvez um pouco mais. É que a sua tia está ficando velha e nunca foi boa
em matemática.
— Preciso me redimir, titia. Mas que cheirinho convidativo é esse? Não
vai me dizer que a senhora preparou aquele café especial?
Já sentados à mesa na varanda, Humberto puxava assunto, enquanto a
tia queria mesmo é aplicar um bom pontapé nos glúteos do parente.
— A senhora está sabendo?
— Sabendo o quê?
— Papai me disse que chegou a hora de eu bater asas e sair de casa.
— Jura? O Ernesto fez isso?
— Pois é, titia, pra senhora ver como são as coisas. A senhora acredita?
— Bem, chega uma hora na vida... Tu fez quarenta anos, né!?
— Completei trinta e nove no mês passado, titia.
— Ah, tá! Cá estou eu sempre atrapalhada com os números. É a matemática,
Humberto. Nunca fui boa nisso. E tu, com apenas 39 anos, ainda é um
molecote.
O homem encarou a tia, que manteve o olhar firme, apesar da gargalhada
silenciosa dentro da mente. Aliás, tamanho talento não é para todos. Dona
Arlete não titubeava por coisa boba.
Bom mesmo era quando juntava a família inteira, às vezes em algum
aniversário, quase sempre no Natal. Ih, era aquela concorrência sem qualquer
discrição para ter um dedo de prosa com a dona Arlete. Sem chance! A senhora
sorria seu melhor sorriso de matriarca e dizia:
— Hoje é dia de festejar, minha gente!
No íntimo, dona Arlete não escolhia palavras: "Hum! Só digo uma coisa. Querem mesmo saber, bando de imbecis? Ah, querem mesmo? Pois digo é nada!"
- Nota de esclarecimento: O conto "Ruídos de família" foi publicado no Notibras no dia 17/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/ruidos-de-familia/

Nenhum comentário:
Postar um comentário