— Tu acha mesmo que me enrola?
— Mas, mamãe, é verdade!
— Hum! Pois conte suas lorotas pro seu pai, que não nasci com ouvido de
penico.
Esse arranca-rabo aconteceu no Natal passado. Tio Zeca, notório
canastrão na arte de enganar, tentou convencer dona Rosângela, justamente ela,
de que havia sumido do trabalho durante três dias seguidos por ter ficado
acamado. Bem, confesso que acreditei no meu parente, mas por motivos
diferentes.
— Acamado? Pois sei muito bem que tu estava mesmo acamado,
seu cretino.
— Mamãe! Cretino? Eu estava gripado! Sou seu filho!
— Pois até disso tenho cá minhas dúvidas.
— Mamãe!
— Hum! Se ainda trocam bebês na maternidade hoje em dia,
imagina em 1974.
Vovó precisou segurar as pontas com o seu Armando, chefe
imediato do tio Zeca na repartição. Por sorte, o homem, assim como vários
cidadãos respeitáveis da cidade, devia favores à minha avó.
Duas semanas depois, almoço na
casa da dona Rosângela. Família reunida, eis que tio Zeca, como de costume,
chegou atrasado. Estava acompanhado da nova namorada, que ainda não
conhecíamos. Carla, atraente e simpática. Vovó, assim que viu a bonitona,
virou-se para mim, sorriu e espirrou.
Dona Rosângela vai fazer muita falta. Aprendi com a minha avó que família é aquele amontoado de incongruências. Mas é assim que é gostoso. Atchim!
- Nota de esclarecimento: A crônica "Autoridade quase serena" foi publicada no Notibras no dia 3/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/autoridade-quase-serena/

Nenhum comentário:
Postar um comentário