sexta-feira, 3 de julho de 2026

Autoridade quase serena

    

    Hoje enterramos minha avó, dona Rosângela. Mulher incomum, com autoridade quase serena, de rompantes raros, porém inesquecíveis. Tio Zeca que o diga.

    — Tu acha mesmo que me enrola?

    — Mas, mamãe, é verdade!

    — Hum! Pois conte suas lorotas pro seu pai, que não nasci com ouvido de penico.

    Esse arranca-rabo aconteceu no Natal passado. Tio Zeca, notório canastrão na arte de enganar, tentou convencer dona Rosângela, justamente ela, de que havia sumido do trabalho durante três dias seguidos por ter ficado acamado. Bem, confesso que acreditei no meu parente, mas por motivos diferentes.

        — Acamado? Pois sei muito bem que tu estava mesmo acamado, seu cretino.

        — Mamãe! Cretino? Eu estava gripado! Sou seu filho!

        — Pois até disso tenho cá minhas dúvidas.

        — Mamãe!

        — Hum! Se ainda trocam bebês na maternidade hoje em dia, imagina em 1974.

        Vovó precisou segurar as pontas com o seu Armando, chefe imediato do tio Zeca na repartição. Por sorte, o homem, assim como vários cidadãos respeitáveis da cidade, devia favores à minha avó. 

            Duas semanas depois, almoço na casa da dona Rosângela. Família reunida, eis que tio Zeca, como de costume, chegou atrasado. Estava acompanhado da nova namorada, que ainda não conhecíamos. Carla, atraente e simpática. Vovó, assim que viu a bonitona, virou-se para mim, sorriu e espirrou.

              Dona Rosângela vai fazer muita falta. Aprendi com a minha avó que família é aquele amontoado de incongruências. Mas é assim que é gostoso. Atchim!

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