domingo, 12 de julho de 2026

O mofo dos sonhos

   

    Edna se olhou no espelho e buscou o reflexo da jovem cheia de esperança que um dia fora. A imagem de Ronaldo, o amor que ainda resistia, parecia se esvair em desesperança de que, um dia, o casal pudesse viver. 

     — Ronaldo, tem hora que me falta paciência, mas aguento firme. Os meus princípios não me deixam fazer o que eu quero. Talvez seja por covardia, meu amor, que não largo o Sílvio. A essa altura do campeonato, ele com quase 80 anos... É, meu amor, não tenho coragem de abandoná-lo.

    A mulher sabia que Ronaldo a estava esperando para irem embora, talvez para o Mato Grosso. Morariam em um sítio afastado de amigos e familiares. Uma vida tranquila, onde não precisariam fingir. Apenas desconhecidos, que certamente imaginariam que aquele casal, talvez cansado do tumulto da cidade grande, tivesse ido buscar um pouco de paz na velhice. 

    — Não espere por mim, Ronaldo. Vá e arrume uma mulher enquanto tem tempo.

    Um tolo! Ronaldo insistia em esperar por Edna. Sem o grande amor de sua vida, o sujeito não arredaria pé. Ela, realista até a raiz do cabelo, insistia. Até tentava encorajar o homem.

    — Olha, Ronaldo, se um dia eu me vir livre, e você ainda me quiser, prometo que te encontro. Mas vá, por favor, vá!

      Igual cachorro chutado, Ronaldo não aceitava que pudesse existir um mundo longe da Edna. Se fosse destino, ele estava disposto a tragar até o último fumo daquele rolo sem fim. Edna não escondia sua preocupação nem romantizava. 

        — Sei que o Sílvio é mais velho, Ronaldo. Mas quem garante que não será ele que vai ficar livre de mim? Eu posso partir primeiro, meu amor, ninguém sabe. 

            Mesmo não recebendo potes de esperança, Ronaldo, romântico inveterado, guardava no peito a certeza de que ainda viveria muitos anos ao lado da mulher. 

            — Ronaldo, meu amor, você vive no futuro, enquanto o presente me deixa atrelada ao meu marido a cada dia que amanhece.

            Ela sabia o que havia acontecido no passado, quando era jovem e se deitava no mato com Ronaldo. Carregados de esperança, sentimento que hoje só vive nele. Edna sabia o que estava acontecendo naquele exato momento, e a incerteza a tomava quanto aos dez minutos seguintes. Para que fazer planos? Aos 68 anos?

        — Ronaldo, meu amor, à medida que o tempo passa, os sonhos vão perdendo o prazo de validade. Aqui dentro tudo parece mofado. Você entende isso?

        O homem observava a mulher, fazia mil planos, esquecia que cada dia era mais um dia que ficava para trás. 

        — Chega de sofrer, Ronaldo! Cansei de sofrer pelo passado. Cansei disso tudo. O presente já é tão pesado. Velho não tem direito a futuro.

            Ele brigava com Edna, dizia que ela não o levava a sério. 

            — Não tenho coragem de virar as costas pro Sílvio. É essa a verdade, meu amor. A gente não sabe de nada que pode acontecer. Se o Sílvio não fosse a pessoa que é, eu já tinha largado tudo, mesmo ele velho. Mas você sabe, Ronaldo, o meu marido é uma boa pessoa, e eu seria uma ingrata se fizesse isso.

            Ronaldo, apesar de sonhar com o dia em que terá a mulher da sua vida nos braços, nunca disse para que ela largasse tudo. Ele também não acha certo que Edna abandone o esposo. O Sílvio é um bom homem. Tão bom que não condenaria a mulher. Definharia em silêncio. 

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