— Tu é doente, Júlio!
Ela disse, deu as costas e se foi. Nunca mais se viram, até que o
destino resolveu providenciar uma peça nas intenções da mulher.
— Quem diria que eu o encontraria justamente aqui, seu Júlio César
Freire da Silva?
— Letícia?
— Pensei que tu tivesse se esquecido do meu nome.
— Não, é que... Dez anos?
— Vinte e três, Júlio.
— Tanto tempo assim?
Letícia observou o sujeito. Havia ganhado alguns quilos, perdera um
tanto de cabelo, o que até conferia certo charme a ele. Por um instante,
sentiu interesse, que logo foi descartado.
— Casei, tenho dois filhos lindos. Hoje as crianças estão com os meus
sogros.
— Legal.
— E tu?
— Se casei?
— É.
— Não.
— Filhos?
— Também não.
— O Paulo e eu estamos tentando...
— Paulo?
— Meu marido. Quer dizer, nem sei se é ex-marido ou qualquer coisa.
— Legal.
— Tu tem namorada?
— Terminamos há... Vinte e três anos?
Ela sorriu.
— Sério?
— Sério.
— Não é possível.
— Pois é, mas foi você que cravou o meu destino. Deve ter sido feitiço.
— Puxa, me desculpe. É que você era tão... Sei lá, nem sei como dizer.
— Esquisito?
— Um pouco.
— É, você tem razão. Ainda sou.
Os dois sorriram, os olhos dele distantes, os dela tentando buscar
redenção.
— Preciso ir. Foi muito bom te ver, Júlio. Vamos marcar um dia pra
colocarmos o papo em dia.
— Vamos sim.
— Buscopan. Acredita que as cólicas não me abandonaram ainda? Não vejo a
hora de entrar na menopausa.
Ele sorriu em apoio. Ela estendeu a mão, os dois se cumprimentaram. No instante seguinte, lá estava Letícia dobrando a esquina. Não olhou para trás. Nem trocaram telefones.
- Nota de esclarecimento: O conto "A segunda namorada" foi publicado no Notibras no dia 4/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-segunda-namorada/

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