sábado, 4 de julho de 2026

A segunda namorada

   

          A segunda namorada teria profetizado: "Tu vai terminar seus dias sem ninguém." Ele a observou e deve ter sorrido, tamanha a sensação de conforto.

          — Tu é doente, Júlio!

        Ela disse, deu as costas e se foi. Nunca mais se viram, até que o destino resolveu providenciar uma peça nas intenções da mulher.

        — Quem diria que eu o encontraria justamente aqui, seu Júlio César Freire da Silva?

        — Letícia?

        — Pensei que tu tivesse se esquecido do meu nome.

        — Não, é que... Dez anos?

        — Vinte e três, Júlio.

        — Tanto tempo assim?

        Letícia observou o sujeito. Havia ganhado alguns quilos, perdera um tanto de cabelo, o que até conferia certo charme a ele. Por um instante, sentiu interesse, que logo foi descartado.

        — Casei, tenho dois filhos lindos. Hoje as crianças estão com os meus sogros.

        — Legal.

        — E tu?

        — Se casei?

        — É.

        — Não.

         — Filhos?

        — Também não.

        — O Paulo e eu estamos tentando...

        — Paulo?

        — Meu marido. Quer dizer, nem sei se é ex-marido ou qualquer coisa.

        — Legal.

        — Tu tem namorada?

        — Terminamos há... Vinte e três anos?

        Ela sorriu.

        — Sério?

        — Sério.

        — Não é possível.

        — Pois é, mas foi você que cravou o meu destino. Deve ter sido feitiço.

        — Puxa, me desculpe. É que você era tão... Sei lá, nem sei como dizer.

        — Esquisito?

        — Um pouco.

        — É, você tem razão. Ainda sou.

        Os dois sorriram, os olhos dele distantes, os dela tentando buscar redenção.

        — Preciso ir. Foi muito bom te ver, Júlio. Vamos marcar um dia pra colocarmos o papo em dia.  

        — Vamos sim.

        — Buscopan. Acredita que as cólicas não me abandonaram ainda? Não vejo a hora de entrar na menopausa.

       Ele sorriu em apoio. Ela estendeu a mão, os dois se cumprimentaram. No instante seguinte, lá estava Letícia dobrando a esquina. Não olhou para trás. Nem trocaram telefones.

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