terça-feira, 14 de julho de 2026

Anatomia de um domingo

     

   Ernesto, viúvo há dois anos, foi acometido de culpa assim que despertou naquele domingo chuvoso. A ausência de Eulália lhe pareceu aceitável diante do sonho que imaginou acompanhá-lo durante a madrugada. 

    Barbeou-se com o esmero de outrora. Debaixo do chuveiro, sentiu a água lhe tocar a pele como se fossem os dedos de Fátima, a vizinha do 304. Por que ela teria puxado conversa na tarde anterior no elevador? Até onde sabia, a mulher era casada. Estaria em crise com o marido? E qual foi o real significado daquele sorriso?

    Enxugou-se, penteou os cabelos ainda com a toalha enrolada na cintura. Notou que havia perdido peso. O apetite já não era o mesmo desde que Eulália sucumbira. Enfarte. Aos 58 anos. Logo ela, que sempre cuidara da saúde.

    — Amor, vamos comigo à academia hoje?

    — Não gosto. Você sabe disso.

    — Ah, Ernesto, até quando você vai resistir? Olha o coração! Não quero ficar viúva, hein!?

    Abriu o armário, pegou uma camisa azul, uma bermuda cinza, meias. Calçou o tênis. Pensativo por alguns instantes, tomou coragem e, já no corredor, confabulou um possível encontro com a vizinha.

        — Que surpresa boa!

        — Bom dia, dona Fátima.

        — Por favor, só Fátima. Ou você vai fazer questão de tanta formalidade entre nós dois, Ernesto?

        Chegou. O elevador chegou. Ernesto abriu a porta e nada além do próprio reflexo no espelho ao fundo.

        — Tu é mesmo um mané, Ernesto! — disse o reflexo.

        — O quê?

        — Mané! Tu não passa de um mané. Tu acha mesmo que aquela gata vai dar trela pra você? Hum! Numa hora dessa, a Eulália deve estar se virando no túmulo de tanto rir.

        — Será?

        — Claro que não, né, Ernesto! Ou tu já esqueceu que ela foi cremada?

        Parou. O elevador parou. Ernesto tocou a porta, que se abriu devido ao puxão do Roberto, justamente o marido da Fátima.

        — Bom dia, seu Roberto.

        — Bom dia por quê? Por acaso você ganhou na loteria?

      Impossível. Ernesto nunca apostava. Não por ser contra o jogo, era consciência do próprio azar. 

        Na calçada, a mente inquieta não deu folga ao sujeito. Será que o Roberto sabia? Não, a Fátima não seria tão sincera a ponto de confessar que estava apaixonada por outro. E por que não diria? Será? Já não duvidava de nada. Foi quando ela surgiu do nada. Não exatamente do nada. Fátima acabara de atravessar a rua, vinha da padaria em frente. 

        — Oi, seu Ernesto. 

        Seu Ernesto? Cadê o simplesmente Ernesto?

        — Oi, dona Fátima.

        Não seria ele a torcer o braço. Era dona Fátima e pronto!

        — O senhor viu o Roberto?

        — Roberto?

        Fingiu desconhecer o nome do rival.

        — É! O Roberto, o meu marido. 

        — Ah, sim! Ele já subiu.

        — Tadinho do meu amor.

        Tadinho? Amor? E onde o Ernesto se encaixava naquilo tudo?

        — Aconteceu alguma coisa?

        — Foi a empadinha. Eu avisei, mas o meu fofo é teimoso que o senhor não imagina.

        Meu fofo? Aquele bruto?

        — Empadinha?

       — É, seu Ernesto. Aquela azeitona não estava com a cara boa. Acho que o meu bichinho está agora mesmo sentado no vaso. 

         Ernesto sentiu a impiedosa realidade bater forte no peito. Nada além de piriri.

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