Um sujeito grande, bigode respeitável, cabelos penteados para trás,
sorriu aquele sorriso amigável dos donos de botequim.
— Tem coxinha, amigo?
— Tem, mas eu não arriscaria. O quibe acabou de sair.
O cliente apreciou a sinceridade do comerciante, porém correu os
olhos pela vitrine. Lá estava uma solitária coxinha, generosa camada de óleo lhe lustrava
a pele.
— É, chefe, você me convenceu.
Enquanto degustava o quibe e o refrigerante, Rodrigo percebeu dois
garotos, talvez sete, oito anos, entrarem. As crianças se dirigiram à ponta do
balcão, onde se encontrava um vistoso baleiro giratório. De vidro, igual a
tantos outros que haviam encantado o menino que Rodrigo fora um dia.
— Olá, Maurício! Olá, Joaquim! O que vão querer hoje?
— Seu Lúcio, quero duas balinhas dessas daí de cima.
— Esta?
— Não, a outra.
— Sabia que são as minhas favoritas, Joaquim?
— Sério?
— Sério. E tu vai querer qual, Maurício?
— Hum... Tô na dúvida, seu Lúcio.
Pois dúvida era o que Rodrigo sentia em frente aos baleiros da sua
infância. Também, como decidir quando se tem o mundo diante dos olhos?
— Bom dia, Rodrigo. Como está a sua avó?
— Bom dia, seu Pedro. Vovó tá bem.
— E o que você vai levar hoje?
— Num sei.
— Que tal esse pirulito do Zorro? Você gosta do Zorro?
— Gosto.
— Então, vai querer quantos?
— Num sei. Acho que vou querer esse aqui.
— Um suspiro? É o meu favorito. Pode ser esse amarelo?
— Hum... Gosto mais do rosa.
— Eu também.
Rodrigo, distraído em devaneios, não percebeu quando os meninos
saíram. O que o Maurício teria levado? Alegria, na certa.
— Chefe, quanto te devo?
— Doze reais.
— Você tem suspiro?
— Tem, mas acabou.
Rodrigo abriu a carteira, retirou uma nota graúda e a entregou ao dono do bar. Recebeu o troco e se despediu. Voltaria outro dia quando, quem sabe, finalmente poderia relembrar o sabor dos seus tempos de menino.
- Nota de esclarecimento: O conto "O baleiro de vidro" foi publicado no Notibras no dia 2/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-baleiro-de-vidro/

Nenhum comentário:
Postar um comentário