quinta-feira, 30 de julho de 2026

A teoria dos Osvaldos

     

    Salete, língua ferina, não escolhia ouvidos para destilar veneno. Bastava oportunidade e desenrolava a língua, muito bem treinada por anos de prática.

        Churrasco na casa da dona Aurora, festeira das boas.

        — Mulher, tu por acaso sabe quem é aquele bonitão ali sentado?

        — Sei muito bem, Salete. É o novo namorado da Laurentina.

        — Sério?

        — Por quê? Tá interessada, é?

        — Hum! E eu sou lá mulher de dar trela pra qualquer um, Roberta?

        — Sei... Então, por que perguntou?

        — Melhor não falar, amiga. Você bem sabe que não sou de arrumar confusão.

        — Ih, Salete, para com isso. Se começou, tem que ir até o fim.

        As mulheres se entreolharam por um instante. Salete puxou o ar com força para ganhar fôlego e, em seguida, desandou a falar.

        — Pois tu acredita que ele já deu em cima de duas só nesses dez minutos que estamos aqui?

        — Hum! O Osvaldo?

        — E o nome do bofe é Osvaldo?

        — É. Por quê?

        — Já vi tudo!

        — Viu o quê, Salete?

        — Todo Osvaldo é safado. Nenhum presta.

        — Olha aqui, Salete, que história é essa? Meu avô se chama Osvaldo.

        — Hum... E ele nasceu antes ou depois de 1970?

        — Bem antes, né, Salete?

        — Ah, então, está explicado. O seu avô pertence aos Osvaldos antigos, quando ainda eram confiáveis. O problema é com a safra mais nova, esses que vieram depois de 1970. E ainda há os piores.

            — Piores?

            — Sim, Roberta. Os nascidos entre 1980 e 1990. E, olhando pra cara daquele ali... acho que 1985. São os piores dos piores, mulher.

        — Salete, fica quieta. A Laurentina está vindo pra cá.

        Foi o tempo para que as amigas se recompusessem e cumprimentassem a Laurentina.

        — Pensei que vocês não fossem vir.

        — Laurentina, e tu acha mesmo que a Roberta é de perder essa boca-livre da dona Aurora?

        — Eu? Tu que é uma esfomeada, Salete.

    Depois de alguns bons minutos de conversas e risadas entre as colegas, eis que a Laurentina quis porque quis apresentar o novo namorado para a Salete. Esta, por sua vez, encarou a Roberta, mas nada disse. E lá foram as três na direção do Osvaldo. Um tipão. Vesgo, é verdade, mas um tipão mesmo assim.

        Feitas as devidas apresentações, o quarteto de última hora engrenou num bate-papo descontraído até perto do final da confraternização. Laurentina, braços dados com o amado, foi embora, enquanto Salete e Roberta se prolongaram um pouco em despedidas com a anfitriã.

       Quase meia hora depois, as duas também saíram e, já na calçada, a Roberta não perdoou a amiga:

        — Nossa, tu é fofoqueira, hein, Salete!

           — E como sou! Adoro! 

        — Mas, Salete, e tu não tem vergonha de falar mal do Osvaldo?

        — Ah, e como eu ia lá saber que o sujeito tinha os olhos trocados?

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