— Betinho, tu é doido ou corre atrás de avião?
Meu primo, assim como os demais netos, ficou boquiaberto. Um ou outro
olhou o céu em busca de um possível bimotor, tão comum naqueles idos. Eu,
talvez a mais tímida da trupe, encolhida numa das vigas que sustentavam o teto,
tentei acompanhar os pensamentos ligeiros dentro do peito.
O que me tornei
não se deve unicamente àquela longínqua tarde ensolarada de verão. No entanto,
arrisco a dizer que foi a dona Luna a responsável por me fazer entender que
sonho é algo tão precioso, que não dá para simplesmente ignorar.
— Alice, não
tenha medo de sentir medo. Ele está arraigado à natureza humana. Vai sempre
estar ali, por mais camuflado, não importa. O medo continuará pulsando. Mas
viva, minha filha. Viva!
Ontem mesmo falei
com o Betinho. Ele é o parente mais próximo, tomamos café de vez em quando.
Confesso até que tivemos o que as pessoas chamam de atração entre primos
durante a nossa juventude impulsiva. Durou o suficiente para deixar marcas de
saudade, que não se repetiram por conta de outros compromissos.
O
Betinho, há tempos, anexou o título de meritíssimo. Coisas de magistrado, ele
diz.
—
Alice, você me acha doido?
Diante daquele senhor de bigode, cabelos penteados para trás, terno impecável,
não soube o que responder e, por isso, sorri. Meu primo me olhou seriamente por
um instante até que uma lágrima solitária escorreu por sua face.
— Ainda corro
atrás de avião, Alice.
— Eu também. Todos os dias.
- Nota de esclarecimento: O conto "O que o tempo nunca apaga" foi publicado no Notibras no dia 9/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-que-o-tempo-nunca-apaga/

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