quinta-feira, 9 de julho de 2026

O que o tempo nunca apaga

    

        E lá estávamos todos nós, a então futura geração da família, quando a nossa avó, dona Luna, se virou, empurrou os óculos de grau até a ponta do nariz e disparou:

        — Betinho, tu é doido ou corre atrás de avião?

        Meu primo, assim como os demais netos, ficou boquiaberto. Um ou outro olhou o céu em busca de um possível bimotor, tão comum naqueles idos. Eu, talvez a mais tímida da trupe, encolhida numa das vigas que sustentavam o teto, tentei acompanhar os pensamentos ligeiros dentro do peito.

    O que me tornei não se deve unicamente àquela longínqua tarde ensolarada de verão. No entanto, arrisco a dizer que foi a dona Luna a responsável por me fazer entender que sonho é algo tão precioso, que não dá para simplesmente ignorar. 

    — Alice, não tenha medo de sentir medo. Ele está arraigado à natureza humana. Vai sempre estar ali, por mais camuflado, não importa. O medo continuará pulsando. Mas viva, minha filha. Viva! 

    Ontem mesmo falei com o Betinho. Ele é o parente mais próximo, tomamos café de vez em quando. Confesso até que tivemos o que as pessoas chamam de atração entre primos durante a nossa juventude impulsiva. Durou o suficiente para deixar marcas de saudade, que não se repetiram por conta de outros compromissos. 

     O Betinho, há tempos, anexou o título de meritíssimo. Coisas de magistrado, ele diz.

     — Alice, você me acha doido?

      Diante daquele senhor de bigode, cabelos penteados para trás, terno impecável, não soube o que responder e, por isso, sorri. Meu primo me olhou seriamente por um instante até que uma lágrima solitária escorreu por sua face.

    — Ainda corro atrás de avião, Alice.

    — Eu também. Todos os dias.

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