— Pudim.
— O que a senhora disse, vovó?
— Pudim.
— Pudim?
— De leite. Minha avó fazia. Uma
delícia.
— O médico disse que a senhora
não pode com doce. Muito açúcar.
— Besteira!
— Vovó, olha a diabete.
— Paula, vou morrer daqui a pouco
mesmo. Que mal morrer com os lábios tocando uma generosa fatia de pudim? Pudim
de leite!
Dois dias depois, a família foi
informada sobre a piora do quadro de saúde da paciente. Que as visitas ficassem
restritas apenas a familiares e, mesmo assim, com parcimônia. Por conta disso,
instalou-se aquele sentimento pré-luto entre os parentes.
Filhos, netos
e bisnetos se revezavam nos cuidados com a matriarca. Era um festival de não
pode isso, não pode aquilo, todos querendo prolongar ao máximo a derradeira
despedida. No entanto, algo parecia incomodar a Paula.
Dizem que,
quando o tempo é ínfimo, as decisões precisam ser ainda mais ágeis. Às vezes,
dá certo, na maioria é um desastre. Seja como for, a culpa por não fazer
algo pode corroer o indivíduo por anos, quiçá por toda a sua existência.
Aconteceu de madrugada. Paula,
incomodada por pensamentos, se levantou e foi até a cozinha. Buscou uma antiga
receita de família, juntou todos os ingredientes necessários, preparou um
pudim. Pudim de leite. Colocou o doce na geladeira para ganhar firmeza e, então,
retornou para o quarto. Adormeceu.
Na manhã seguinte, acordou e,
antes de lavar o rosto, foi conferir se o pudim havia saído a contento. Cortou
uma fina fatia e a levou à boca.
— Hum! Vovó tem razão.
A mulher, decidida que estava,
tratou de se arrumar para ir visitar a avó. Colocou o pudim em um pote e foi
para o hospital.
Na recepção, Paula foi barrada. E
não houve argumento que conseguisse convencer os funcionários para deixá-la
entrar com o pudim na UTI.
— Desculpe, mas a senhora não
pode entrar com comida na UTI. É proibido.
Cabisbaixa, mas nem por isso
totalmente entregue, a luz das ideias absurdas acendeu na mente da Paula. Ela
notou que as enfermeiras transitavam livremente pelo recinto, inclusive com
bolsas e sacolas. Seria possível? Bem, não custava tentar. E foi o que a neta
da dona Alzira resolveu colocar em prática.
Paula observou uma enfermeira
sair do hospital. A profissional tirou o aparelho celular do bolso e começou a
digitar. E esse foi o momento ideal para que a Paula desse o bote.
— Oi! Tudo bem?
— Oi.
A enfermeira, apesar de estranhar
a abordagem, foi receptiva. Ouviu com atenção a proposta da Paula. Que loucura
era aquela? Mesmo assim, contrariando qualquer expectativa com um mínimo de
sensatez, a enfermeira aceitou.
Meia hora. Pois foi esse o tempo
que se deu para, finalmente, a Paula entrar na UTI. Ela observou a avó, que
dormia, talvez sonhando com o paraíso.
— Vovó. Vovó!
Dona Alzira abriu os olhos e
pareceu não reconhecer a neta. Voltou a dormir.
— Vovó. Vovó! Sou eu, a Paula.
A enferma abriu novamente os
olhos, observou com estranheza a neta e disse:
— Paula? Que roupa é essa? Virou
enfermeira?
— Vovó, é uma longa história, mas
o importante é que consegui.
Paula meteu a mão no bolso do
jaleco e retirou um copinho plástico, onde havia um pedaço de pudim. Ela pegou uma colherzinha, retirou um naco do doce e o levou aos lábios da avó.
— Hum!
— Gostou, vovó?
— Delícia! Esse é o sabor da
minha infância. Obrigada!
Em uma sala trancada do hospital, a enfermeira, diante de um pote, saboreava o seu suborno.
- Nota de esclarecimento: O conto "A rebeldia do afeto" foi publicado no Notibras no dia 21/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-rebeldia-do-afeto/

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