terça-feira, 21 de julho de 2026

A rebeldia do afeto

  

    Alzira, aos 98 anos, enfrentava o crepúsculo dos seus dias na UTI. Desenganada pelos médicos, só lhe restava recordar o tempo de menina, quando corria aos gritos, com os irmãos e primos, no quintal da casa da avó. Quando chegava a hora do lanche da tarde, a criançada se esbaldava com os quitutes dispostos sobre a enorme mesa da varanda.

        — Pudim.

        — O que a senhora disse, vovó?

        — Pudim.

        — Pudim?

        — De leite. Minha avó fazia. Uma delícia. 

        — O médico disse que a senhora não pode com doce. Muito açúcar.

        — Besteira!

        — Vovó, olha a diabete.

        — Paula, vou morrer daqui a pouco mesmo. Que mal morrer com os lábios tocando uma generosa fatia de pudim? Pudim de leite!

        Dois dias depois, a família foi informada sobre a piora do quadro de saúde da paciente. Que as visitas ficassem restritas apenas a familiares e, mesmo assim, com parcimônia. Por conta disso, instalou-se aquele sentimento pré-luto entre os parentes.

            Filhos, netos e bisnetos se revezavam nos cuidados com a matriarca. Era um festival de não pode isso, não pode aquilo, todos querendo prolongar ao máximo a derradeira despedida. No entanto, algo parecia incomodar a Paula.

            Dizem que, quando o tempo é ínfimo, as decisões precisam ser ainda mais ágeis. Às vezes, dá certo, na maioria é um desastre. Seja como for, a culpa por não fazer algo pode corroer o indivíduo por anos, quiçá por toda a sua existência.

        Aconteceu de madrugada. Paula, incomodada por pensamentos, se levantou e foi até a cozinha. Buscou uma antiga receita de família, juntou todos os ingredientes necessários, preparou um pudim. Pudim de leite. Colocou o doce na geladeira para ganhar firmeza e, então, retornou para o quarto. Adormeceu.

        Na manhã seguinte, acordou e, antes de lavar o rosto, foi conferir se o pudim havia saído a contento. Cortou uma fina fatia e a levou à boca.

        — Hum! Vovó tem razão.

        A mulher, decidida que estava, tratou de se arrumar para ir visitar a avó. Colocou o pudim em um pote e foi para o hospital. 

        Na recepção, Paula foi barrada. E não houve argumento que conseguisse convencer os funcionários para deixá-la entrar com o pudim na UTI.

        — Desculpe, mas a senhora não pode entrar com comida na UTI. É proibido. 

        Cabisbaixa, mas nem por isso totalmente entregue, a luz das ideias absurdas acendeu na mente da Paula. Ela notou que as enfermeiras transitavam livremente pelo recinto, inclusive com bolsas e sacolas. Seria possível? Bem, não custava tentar. E foi o que a neta da dona Alzira resolveu colocar em prática.

        Paula observou uma enfermeira sair do hospital. A profissional tirou o aparelho celular do bolso e começou a digitar. E esse foi o momento ideal para que a Paula desse o bote.

        — Oi! Tudo bem?

        — Oi.

        A enfermeira, apesar de estranhar a abordagem, foi receptiva. Ouviu com atenção a proposta da Paula. Que loucura era aquela? Mesmo assim, contrariando qualquer expectativa com um mínimo de sensatez, a enfermeira aceitou.

        Meia hora. Pois foi esse o tempo que se deu para, finalmente, a Paula entrar na UTI. Ela observou a avó, que dormia, talvez sonhando com o paraíso.

        — Vovó. Vovó!

        Dona Alzira abriu os olhos e pareceu não reconhecer a neta. Voltou a dormir.

        — Vovó. Vovó! Sou eu, a Paula.

        A enferma abriu novamente os olhos, observou com estranheza a neta e disse:

        — Paula? Que roupa é essa? Virou enfermeira?

        — Vovó, é uma longa história, mas o importante é que consegui.

        Paula meteu a mão no bolso do jaleco e retirou um copinho plástico, onde havia um pedaço de pudim. Ela pegou uma colherzinha, retirou um naco do doce e o levou aos lábios da avó.

        — Hum!

        — Gostou, vovó?

        — Delícia! Esse é o sabor da minha infância. Obrigada!

       Em uma sala trancada do hospital, a enfermeira, diante de um pote, saboreava o seu suborno.

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