quarta-feira, 22 de julho de 2026

Dois chopes e uma teoria

    

    Dois escritores, depois de algumas doses extras, pareceram se travestir de filósofos. O mais novo, um tanto quanto despojado, virou-se para o colega e, sorriso nos lábios, disparou:

      — Pois é, meu amigo, crônica é povo.

        — Hum?

        — E mais! Não só crônica, é pedagogia e até cotidiano.

        Para não parecer idiota, o segundo concordou com a cabeça. O outro prosseguiu:

        — Povo é espaço coletivo da práxis ainda não instrumentalizada. Digo mais, meu querido! Sem povo não há crônica nem haveria motivo para a sua existência. Desse modo, você e eu estaríamos sem ofício.

        — É verdade. Você está coberto de razão.

        — Talvez seja exagero da minha parte, meu amigo. 

        Os dois homens se entreolharam por um instante até que o mais jovem ergueu o indicador e, em tom um pouco mais elevado, chamou o garçom:

        — Ei, chefe, desce mais um. Dois! O copo do meu amigo secou.

        O companheiro agradeceu com os olhos, quase ao mesmo tempo em que o outro continuou:

        — Povo, meu amigo, povo cria e não registra direito autoral. Povo sabe das coisas, já socializa na fonte.

        O garçom traz os dois chopes, os amigos brindam, um gole a mais. O mais jovem se sente compelido a continuar:

        — O capitalismo, meu camarada... O capitalismo, em dado momento... O capitalismo registra propriedade e até distribui sustentos filosóficos e narcísicos.

        O mais velho, confuso, buscou expressões inexistentes na face para tentar acompanhar o raciocínio do colega erudito, que não parava de destilar palavras.

        — Pois é, meu amigo... Narcísicos! Mas vida que segue lenta no seu leito e, nem por isso, antirrevolucionária, pois conta com a força da arte, essa tal categoria do imaginário humano da qual você e eu também fazemos parte.

        Mais um brinde, outro gole. Enquanto houver ócio, a filosofia estará por aí. Quanto às crônicas, só enquanto existir povo. Aqueles tipos, mentes inquietas, pediram a conta e, cambaleantes, se embrenharam pelas ruas da cidade, que adormecia.

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