— Isso, Jurandir, provoca mesmo.
Quando eu tiver um treco, a culpa vai ser sua.
Dona Santinha, vizinha do terceiro
andar, parece apreciar chamar a atenção de todos. Quanto ao destinatário da
ameaça velada, trata-se do marido, um quase respeitável senhor dos seus no
máximo 60 anos, apesar da carcaça maltratada. Cachaça é um problema, amigo!
— Tu acha mesmo que me engana,
Jurandir? Tu acha mesmo que não sei dos seus rolos com aquela fulana? Como é
que é mesmo o nome da vigarista?
Na verdade, não me pareceu que a
dona Santinha não soubesse o nome da, digamos, outra dona. Diria até que a
esposa do Jurandir desejou chamar os holofotes para a sua próxima fala,
obviamente como se sentisse a própria Fernanda Montenegro, tamanha a
dramaticidade.
— Lindaura! Pois me lembrei,
Jurandir! Ou tu acha que estou virando uma caduca? Tu acha isso mesmo,
Jurandir?
Lindaura, moradora do 602, um tanto mais jovem do que o Jurandir, pele tratada a cremes especiais, parece ser viúva. Bem, pelo menos é o que consta nos anais dos corredores do prédio. Que seja! Não serei eu a bisbilhotar a vida alheia.
Final de tarde, juro que por um desses acasos da vida, eis que estava trocando informações futebolísticas com o Zeca, o porteiro, quando passaram, braços entrelaçados, a dona Santinha e o digníssimo Jurandir. Ainda tive o prazer de testemunhar o sorriso estampado no rosto da senhora, de uma elegância sem igual.
— Boa tarde, Zeca! Boa tarde, Márcio!
O Zeca e eu, ambos felizes e nada surpresos diante da cena digna de matinê, devolvemos o cumprimento.
E vida que segue. Cada um com seu cada um, e que Deus conserve meus ouvidos sãos para que eu possa continuar apreciando a voz inconfundível do Cauby: "Conceição, eu me lembro muito bem, vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem..."
- Nota de esclarecimento: O conto "Janelas indiscretas, ouvidos moucos" foi publicado no Notibras no dia 8/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/janela-indiscreta-ouvidos-moucos/

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