sexta-feira, 24 de julho de 2026

O peso da consciência

       

        Ernesto e Augusto, amigos há tanto tempo, agora no crepúsculo da existência, insistem em manter o hábito dos encontros às terças e quintas-feiras. Os dois precisam enfrentar a artrite para se deslocarem até a padaria do velho Manoel, português radicado no Brasil quando as liberdades eram desprovidas de asas. 

          — Ando sem apetite.

          — Velhice é assim, Augusto.

          — Como assim?

          — Sem apetite. Juventude é que é gulosa.

          — É verdade. Nunca havia pensado por esse ângulo. Queria eu ter o apetite dos meus trinta. Falta-me ânimo para tantas coisas, meu amigo. Até mesmo para devorar uma coxinha, mas nem me atrevo. Capaz do meu estômago me processar.

          — Capaz, Augusto. Capaz. 

          Os dois homens são compelidos a mais um gole no café. Observam o movimento na padaria, praticamente os mesmos clientes de ontem, de sempre.

          — A moral às vezes atrapalha.

          — O que você disse, Ernesto?

          — A moral, meu amigo. A moral. Essa coisa que fica à espreita e não perde a oportunidade de entornar o caldo.

          — Não estou te entendendo. 

          — Olha, Augusto, veja esse caso. Aconteceu há poucos dias, sexta-feira passada. Minha nora, a Gláucia, você a conhece.

          — Sim, sim, conheço a Gláucia, esposa do Rubens.

          — Pois a Gláucia, mulher do meu filho... Descobri que... Situação complicada, tudo por causa dessa maldita moral, que me cobra atitude nesta altura da vida. Minha nora trai o meu filho. E agora? 

          — Complicado, meu amigo. Muito complicado.

          — Melhor seria não ter visto. Pior de tudo é que ela me viu também. E, desde então, vivo num impasse, Augusto. Devo eu contar o que sei pro meu filho ou, então, guardar o segredo da minha nora para salvaguardar os que amo?

          — Nem sei o que eu faria no seu caso, meu amigo. Decisão complicada.

          — Pois é, Augusto, mas tenho relutado em atender aos chamados insistentes dessa tal moralidade. E é isso que tem mantido a paz da minha família.

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