— Que droga!
— O que foi, mamãe?
— Quem foi que comeu o
pedaço de bolo que deixei no pote dentro da geladeira?
— Ué, fui eu.
— E quem mandou?
— Dona Helena, a senhora me
ofereceu ontem. Já se esqueceu? Comi hoje.
— Hum! Que comesse ontem.
Hoje não valia mais.
— O quê?
— Que lave a louça, então.
— Já lavei, mamãe.
— Hum! Pois a louça da
semana é tua, Orlando.
— Sem problema.
No lar, doce lar ao lado, o marido levou a xícara
aos lábios frios, a careta se apresentou sem cerimônia.
— Laura, o café está sem
açúcar.
— O pote está aí ao lado.
— Você sabe que não tomo
café sem açúcar.
— Sim, sei disso. O pote
está aí ao lado.
— Por que o café está sem
açúcar?
— É mais fácil assim, meu amor.
— Mais fácil pra quem,
Laura?
— Cansei de fazer duas
garrafas de café, Álvaro. Quem gosta com açúcar, o pote está aí ao lado.
Na repartição pública...
— Mas por que tu não vai
participar do amigo-oculto, Shirley?
— Não gosto.
— Mas todo mundo quer.
— Todo mundo é muita
gente, Carlos. Ah, e tem mais uma coisa.
— O quê?
— Não estou nesse todo
mundo aí.
— Você é mesmo uma chata!
— Ih, meu filho, você
precisa me conhecer de verdade. Sou ainda pior.
E vida que segue! Nada como dar uma espiada no quintal do vizinho para termos certeza de que ninguém está só nesta bagunça chamada sociedade. Civilizada, obviamente.
- Nota de esclarecimento: A crônica "O bolo, o café e o amigo-oculto" foi publicada no Notibras no dia 11/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-bolo-o-cafe-e-o-amigo-oculto/

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