sábado, 11 de julho de 2026

O bolo, o café e o amigo-oculto

    

    A vida não necessita de hecatombes quando os percalços da rotina em família nos apontam que o caos pode estar debaixo do tapete, atrás da cortina ou camuflado sob uma inocente almofada do sofá. E nem é preciso se dar ao trabalho de procurá-lo, pois, do nada, lá está ele, todo sorridente, que nos salta aos olhos sem aviso. 

    — Que droga!

    — O que foi, mamãe?

    — Quem foi que comeu o pedaço de bolo que deixei no pote dentro da geladeira?

    — Ué, fui eu.

    — E quem mandou?

    — Dona Helena, a senhora me ofereceu ontem. Já se esqueceu? Comi hoje.

    — Hum! Que comesse ontem. Hoje não valia mais. 

    — O quê?

    — Que lave a louça, então.

    — Já lavei, mamãe.

    — Hum! Pois a louça da semana é tua, Orlando.

    — Sem problema.

    No lar, doce lar ao lado, o marido levou a xícara aos lábios frios, a careta se apresentou sem cerimônia.

    — Laura, o café está sem açúcar.

    — O pote está aí ao lado.

    — Você sabe que não tomo café sem açúcar.

    — Sim, sei disso. O pote está aí ao lado.

    — Por que o café está sem açúcar?

    — É mais fácil assim, meu amor.

    — Mais fácil pra quem, Laura?

    — Cansei de fazer duas garrafas de café, Álvaro. Quem gosta com açúcar, o pote está aí ao lado.

    Na repartição pública...

    — Mas por que tu não vai participar do amigo-oculto, Shirley?

    — Não gosto.

    — Mas todo mundo quer.

    — Todo mundo é muita gente, Carlos. Ah, e tem mais uma coisa.

    — O quê?

    — Não estou nesse todo mundo aí.

    — Você é mesmo uma chata!

    — Ih, meu filho, você precisa me conhecer de verdade. Sou ainda pior.

    E vida que segue! Nada como dar uma espiada no quintal do vizinho para termos certeza de que ninguém está só nesta bagunça chamada sociedade. Civilizada, obviamente.

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