Segunda-feira, o
tempo parece olhar com sarcasmo aqueles corpos amalgamados disputando cada
espaço vazio, utopia cruel da ralé. Que se apertem, outro passageiro acabou
de entrar.
Um
tipo comum àquela gente. O sujeito retirou o aparelho celular do bolso. Deu um
clique. As imagens correm. Futebol. Ledo engano, não é sobre o esporte bretão,
é algo maior. Drible para cá, drible para lá. Um sorriso, olhares curiosos que
logo se transformaram em gargalhadas. Uma senhora mais ao fundo, curiosa, estica
os olhos:
— O que é?
Alguém responde:
— Não sei.
Gargalhadas se irradiam por todo vagão. A senhora,
ainda intrigada, ainda tentando se aproximar, indaga:
— Gente, o que é?
Gargalhadas, gargalhadas, gargalhadas. Ela insiste:
— Ei, alguém pode me dizer o que está acontecendo?
O dono do celular, num gesto solidário, entrega o aparelho para o homem
ao lado, que faz o mesmo para a jovem próxima que, por sua vez, repete o gesto
até que chega às mãos pequeninas de uma garotinha, não mais de cinco anos. Ela
sorri, vira a tela para a senhora e balbucia:
— Olha, vovó.
— Garrincha!
- Nota de esclarecimento: A crônica "Drible na segunda-feira" foi publicada no Notibras no dia 20/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/drible-na-segunda-feira/

Nenhum comentário:
Postar um comentário