segunda-feira, 20 de julho de 2026

Drible na segunda-feira

    

      Dizem que pobre aprende a respirar com parcimônia para sobreviver em trem lotado, o que configura praticamente um pleonasmo na hora do rush. Segunda-feira, então, o desânimo estampado na cara do povo é ensurdecedor.

    Segunda-feira, o tempo parece olhar com sarcasmo aqueles corpos amalgamados disputando cada espaço vazio, utopia cruel da ralé. Que se apertem, outro passageiro acabou de entrar.

      Um tipo comum àquela gente. O sujeito retirou o aparelho celular do bolso. Deu um clique. As imagens correm. Futebol. Ledo engano, não é sobre o esporte bretão, é algo maior. Drible para cá, drible para lá. Um sorriso, olhares curiosos que logo se transformaram em gargalhadas. Uma senhora mais ao fundo, curiosa, estica os olhos:

       — O que é?

        Alguém responde:

        — Não sei.

        Gargalhadas se irradiam por todo vagão. A senhora, ainda intrigada, ainda tentando se aproximar, indaga:

        — Gente, o que é?

        Gargalhadas, gargalhadas, gargalhadas. Ela insiste:

        — Ei, alguém pode me dizer o que está acontecendo?

        O dono do celular, num gesto solidário, entrega o aparelho para o homem ao lado, que faz o mesmo para a jovem próxima que, por sua vez, repete o gesto até que chega às mãos pequeninas de uma garotinha, não mais de cinco anos. Ela sorri, vira a tela para a senhora e balbucia:

        — Olha, vovó.

        — Garrincha!

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