— Pode vir, meu
amigo, tem vaga.
Amigo? Como assim?
Lúcio não conhecia aquela gente. Quer dizer, já havia cruzado com um ou outro
na portaria, no corredor, até na fila da padaria. Nada além de furtivos
olhares. Esboçou um sorriso, que não veio. Entrou, ombros encolhidos,
olhos voltados para os próprios pés, respiração desconfortável, vontade de
desaparecer. Já o tempo, ah, esse brincalhão impiedoso como ele só, parece ter
resolvido procrastinar cada segundo.
— Tu mora no 403,
né?
Como é que aquela
senhora, completa estranha, sabia qual era o seu apartamento? Dona Viviane,
isso, ele não precisava dissimular para si próprio. Ele, afinal, já a conhecia
de nome, de vista e de encontros fortuitos nas dependências do prédio.
Fortuitos? Não! Impossível ignorar aquela criatura, quando ela mais parecia uma
samambaia de portaria.
— Sim.
— Tu não é muito de
falar, né?!
O que aquela
senhora queria com ele? Se ele não era muito de falar? E que mal tem isso? Como
se já não bastassem os infindáveis diálogos que o sujeito era instigado a
manter diariamente com os inúmeros reflexos dos espelhos espalhados pelo seu
apartamento.
— Um pouco.
Finalmente, o elevador parou, a comporta se fez aberta, aquele mar de gente desaguou na cidade. Empurrado pela maré, Lúcio pensava no seu quarto, luz apagada, apenas o barulho da mente. Só depois do expediente.
- Nota de esclarecimento: O conto "O elevador" foi publicado no Notibras no dia 10/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-elevador/

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