sexta-feira, 10 de julho de 2026

O elevador

  

    A porta se abriu. Lúcio constatou que o elevador estava lotado. Quis refugar, mas foi incentivado a entrar.

    — Pode vir, meu amigo, tem vaga.

    Amigo? Como assim? Lúcio não conhecia aquela gente. Quer dizer, já havia cruzado com um ou outro na portaria, no corredor, até na fila da padaria. Nada além de furtivos olhares. Esboçou um sorriso, que não veio. Entrou, ombros encolhidos, olhos voltados para os próprios pés, respiração desconfortável, vontade de desaparecer. Já o tempo, ah, esse brincalhão impiedoso como ele só, parece ter resolvido procrastinar cada segundo.

    — Tu mora no 403, né?

    Como é que aquela senhora, completa estranha, sabia qual era o seu apartamento? Dona Viviane, isso, ele não precisava dissimular para si próprio. Ele, afinal, já a conhecia de nome, de vista e de encontros fortuitos nas dependências do prédio. Fortuitos? Não! Impossível ignorar aquela criatura, quando ela mais parecia uma samambaia de portaria.

    — Sim.

    — Tu não é muito de falar, né?!

    O que aquela senhora queria com ele? Se ele não era muito de falar? E que mal tem isso? Como se já não bastassem os infindáveis diálogos que o sujeito era instigado a manter diariamente com os inúmeros reflexos dos espelhos espalhados pelo seu apartamento.

    — Um pouco.

    Finalmente, o elevador parou, a comporta se fez aberta, aquele mar de gente desaguou na cidade. Empurrado pela maré, Lúcio pensava no seu quarto, luz apagada, apenas o barulho da mente. Só depois do expediente.

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