Depois da morte,
uma pequena placa sobre a relva:
um nome,
duas datas
e um silêncio entre elas.
Como se uma vida inteira
pudesse caber naquele traço.
Como se o começo e o fim
resumissem tudo
o que aconteceu no meio.
Mas a lápide não conta
os sonhos que foram sonhados,
os que se realizaram
e aqueles que permaneceram acesos
até o último instante.
Não guarda o perfume
que ficou nas roupas,
nem o jeito tão único de sorrir,
a voz chamando nosso nome,
a forma particular de chegar
e mudar a atmosfera da casa.
A pedra não sabe dos medos,
das esperanças,
das noites sem dormir,
dos pequenos gestos de cuidado
que ninguém percebeu,
mas que sustentaram o mundo de alguém.
Não diz das mãos que trabalharam,
dos caminhos percorridos,
dos abraços oferecidos,
das lágrimas escondidas
para não preocupar quem se amava.
Uma vida não cabe
num nome gravado,
nem nas datas separadas
por um breve risco.
Porque aquele risco
é uma infância inteira,
uma juventude,
uma família,
uma história de amor,
uma sucessão de dias comuns
que hoje parecem sagrados.
A placa permanece sobre a relva,
quieta e pequena.
Mas quem partiu
continua imenso
na memória de quem ficou.
Vive no perfume que reaparece,
numa palavra repetida,
num costume herdado,
num sorriso que, de repente,
reconhecemos em outro rosto.
A morte pode encerrar os dias,
mas não consegue resumir uma vida.
Porque uma vida não é a lápide.
É tudo aquilo que ainda pulsa
quando alguém pronuncia seu nome
com amor.
- Nota de esclarecimento: O poema "A vida não cabe", de autoria da poetisa Dona Irene, foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 17/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-vida-nao-cabe/

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