
Nicácio Fernández era, antes
de tudo, rancoroso por natureza ou, ao menos, circunstâncias. Nascido no dia 24
de agosto de 1947 no Rio de Janeiro, então capital do país, guardava tal
similaridade astrológica com o afamado escritor Paulo Coelho. Talvez por isso,
o sujeito também tenha sido puxado, de alguma forma, ao mundo da redação dos
jornais, onde passou a se destacar por seus textos elogiados pelos editores e
colegas, o que não o livrou de intrigas de certos invejosos.
De tão bom, alguém, não se sabe exatamente
quem, o incentivou a escrever crônicas e contos. Nicácio pensou, pensou, pensou
e, não tardou, imaginou-se o próprio Otto Lara Resende. Não era para tanto, mas
a ilusão o envolveu de certa maneira que, algum tempo depois, foi diagnosticado
como portador da síndrome da realidade paralela.
Foi justamente quando a sua tragédia pessoal
se instalou que o caminho de Nicácio cruzou pela primeira e única vez com o de
Paulo Coelho, que, à época, era parceiro de músicas de um tal Raul
Seixas.
— Bicho, tu tem que partir para romance.
— Tipo Jorge Amado, Paulo?
— Se eu fosse você, faria algo exotérico, que
vai vender muito mais.
— Mais do que ele?
— Muito mais!
— Sabe, Paulo, uma coisa que
considero um absurdo?
— O quê, Nicácio?
— Não é revoltante que o Jorge Amado seja o
brasileiro que mais vende livros no mundo? Muito mais do que o Machado de
Assis. É um acinte!
— Gosto é gosto, bicho. Cada um tem o seu.
— Veja bem, não estou falando mal do Jorge
Amado, mas não dá pra compará-lo com o Machado de Assis, com o Lima Barreto...
— Te entendo, bicho. Mas é como te falei.
Parta pra algo exotérico.
— Tipo alquimia?
— Hum...
— Sabe, Paulo, valeu pelo conselho, mas não
estou a fim de ser conhecido como o alquimista da literatura. Vão acabar me
colocando a pecha de coach do mundo literário.
— Hum...
— O que foi, Paulo? Falei algum absurdo?
— Nada, nada. O alquimista, né?
— Seria ridículo, né?!
Paulo Coelho, com brilho nos olhos, teria
apertado a mão do Nicácio e, num gesto de agradecimento, lhe deu um abraço
apertado e se despediu.
— Valeu, bicho! Tenho que ir. O Raulzito tá na
loucura de imaginar que nasceu há dez mil anos atrás. Pode uma coisa
dessas?
Os próximos anos correram que
nem poeira no deserto. Paulo Coelho após parceria de sucesso ao lado do Raul
Seixas, foi se meter a escrever livros, entre os quais O
alquimista, cujo sucesso estrondoso o ajudou a tomar o lugar do Jorge
Amado como o escritor brasileiro mais vendido do planeta Terra. Quando ao
Nicácio, desde aquele histórico encontro, sua trajetória foi constante ladeira
abaixo.
O antes cronista número 1 se transformou em persona non grata na
redação dos jornais por onde passou. Ninguém suportava sua arrogância, já que o
sujeito se achava tanto, que o único jeito que Juvenal, editor-chefe, encontrou
foi demiti-lo. E a fama de chatonildo agudo se espalhou por todas as outras
redações, o que fez com que Nicácio, precisando sobreviver, implorar um emprego
para um político que conhecia.
— Olha, Nicácio, o que posso te arrumar é uma
vaga de contínuo num cartório lá em Brasília. Topa?
— Você não tá precisando de um assessor de imprensa?
— Nicácio, você tá de brincadeira, né?! Eu preciso me
reeleger!
Pois foi no início dos anos 1990 que Nicácio trocou a Cidade
Maravilhosa por Brasília. Logo de cara, percebeu que morar no Plano Piloto
seria impossível, haja vista a miséria que recebia. O jeito foi arrumar um
conjugado na Ceilândia.
Vendo o reconhecimento cada vez maior do Paulo Coelho,
Nicácio apostou no próprio talento e juntou seus melhores contos e crônicas e
os enviou para várias editoras. Nada. Nem mesmo uma mísera resposta. Aquilo era
uma afronta tão grande ao seu talento, que, não satisfeito, decidiu contratar
os serviços de uma editora menor.
— Nicácio
Fernández, o seu livro será um sucesso!
— Você acha
mesmo, Lauro?
— Se acho?
Tenho certeza, meu amigo! Vai vender que nem água.
— Se vai
vender que nem água, não tem como vocês bancarem a edição?
— É o que eu mais
queria. Acredite! Mas esses planos do governo atrapalharam com o caixa da nossa
editora.
—
Entendo.
— Mas pode ficar
tranquilo, que logo, logo você vai recuperar todo o seu investimento. Ficará
rico! Ainda mais porque tenho meus contatos nos principais jornais. Pode deixar
a publicidade com a nossa editora.
Nicácio,
apesar da dinheirama que entregou para o editor, voltou para casa confiante de
que, não tardaria, seu livro seria o próximo best-seller.
Dois
meses após, lá estava o mais novo maior escritor do mundo, segundo a crítica
especializada que nem sabia quem ele era, com os 500 exemplares em mãos. Quanto
à tão propalada publicidade, nada além de uma pequena nota de rodapé em um
jornal de bairro da capital. Como esperado, o livro encalhou, até que Nicácio,
para recuperar o espaço no pequeno apartamento, começou a presentear amigos,
colegas, conhecidos e até desconhecidos com sua obra literária.
Alguns anos mais, Nicácio imaginou que a virada do milênio era a
oportunidade tão aguardada para lançar mais um livro. No entanto, ressabiado
que estava com as editoras, resolveu ele mesmo produzir sua nova obra. Deu
trabalho, mas a arte em si não ficou nada a dever ao seu livro anterior.
As semelhanças
entre os dois livros não acabaram por aí. É que o segundo livro vendeu tanto
quando o primeiro, ou seja, nem sequer um mísero exemplar. E olha que Nicácio
tentou de todas as formas, inclusive montou uma barraquinha na rodoviária do
Plano Piloto. Além do desinteresse completo dos milhares de transeuntes,
Nicácio teve o azar de ter uma operação de apreensão de mercadorias de
vendedores ambulantes irregulares. Pois é, o rapa apareceu e confiscou
tudo.
Aquele pareceu ser o golpe fatal na ambição de se tornar
escritor reconhecido. Tanto é que Nicácio jurou que nunca mais iria se meter
com essa coisa de literatura. E tal intento se manteve firme até que, com a
internet bombando, ele, timidamente, começou a publicar seus textos em alguns
sites especializados.
Não tardaram, as curtidas pipocaram, até que alguns
leitores começaram a dizer que Nicácio deveria publicar seus contos e crônicas.
Impressionado com os incentivos, lá foi o escritor bancar mais uma nova seleção
dos seus textos. Afinal, eram os seus fãs que estavam ávidos por ver impressos
tantos escritos geniais.
Ressabiado que estava, começou a fazer propaganda do seu
próximo lançamento. Muita gente elogiando e falando que iria comprar um, dois,
três, dez exemplares. Foi o impulso para que Nicácio fizesse pesquisa de preços
junto a gráficas. E, não demorou, lá foi o escritor buscar os mil exemplares de
seu terceiro livro.
Mal chegou ao lar, doce lar, começou a
postar nas redes sociais que os volumes já poderiam ser pedidos. E aí veio, sem
piedade, o choque de realidade diante das mensagens dos ditos admiradores:
"Maravilha, Nicácio! Estou apertada
neste mês, mas no próximo pagamento vou comprar."
"Deixa só o cartão virar."
"Parabéns, grande
Nicácio! Você merece!"
"Sucesso!"
Vender que é bom,
nadica de nada. Nicácio xingou aqueles ditos fãs da internet de falsos,
tratantes, lembrou-se com gosto das mães de todos.
Agora era definitivo.
Nunca mais iria se deixar iludir por esse insinuante mundo literário. Todavia,
não se desfez dos livros. Deixou-os em pacotes nos cantos da sala para se
lembrar de jamais voltar a escrever nem mesmo uma mísera linha.
Naquele mesmo ano,
durante o amigo oculto dos moradores do edifício, eis que o velho Nicácio
Fernández foi tirado pela bela Lucélia, mulher solteira de seus 30 anos.
Sorridente, o sortudo logo percebeu que o presente era um livro. Entretanto,
não conseguiu adivinhar qual seria o título.
Nicácio, assim que rasgou o embrulho,
quase teve engulhos ao descobrir que acabara de receber O alquimista, do Paulo
Coelho. Tentou disfarçar o desconforto e, em seguida, alegando cansaço por
conta da idade, agradeceu pelo presente, se despediu de todos e retornou ao seu
apartamento.
Quem visse o sujeito naquele momento, certamente constataria que algo não
estava bem. Nicácio jogou um dos livros mais lidos do mundo na lata de lixo. Em
seguida, abriu a geladeira, pegou uma cerveja e se sentou à mesa.
Sentiu
saudade do tempo em que o escritor brasileiro mais lido do mundo era Jorge
Amado. Tomou dois ou três goles e, então, percebeu que a mesa estava
bamba. Notou que havia uma incongruência entre os pés do móvel. Não teve dúvida.
Pegou O alquimista na lixeira e, para sua surpresa, a espessura era exatamente
a que fazia com que a mesa voltasse a ficar estável.
Nicácio
bebeu o resto da cerveja e, criativo que se sentiu, abriu um dos inúmeros
pacotes espalhados pela sala. Pegou um exemplar dos seus livros encalhados e,
pés sobre a mesa, começou a lê-lo. Sentiu-se vingado por anos e anos de
desprezo.
- Nota de esclarecimento: O conto "Nicácio Fernández e o arquirrival, /o escritor Paulo Coelho" foi publicado no Notibras no dia 7/1/2026.
- https://www.notibras.com/site/nicacio-fernandez-e-o-arquirrival-o-escritor-paulo-coelho/