quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Santana e o caso do buraco no muro

     

    Santana, para manter a tradição, foi trabalhar com o mau humor que todos na delegacia já conheciam. Mal entrou, fez questão de fazer bico e ir direto para cozinha, onde a Sissi acabara de passar o milagroso café que mantinha toda a equipe de plantão acordada. 

          — Tem café? 

          — Tem.

          — Cadê? Cadê?

          — Num tá vendo aí na sua frente, Santana?

          — Hum! Me serve um pouco aí.

          — O quê? 

          — Me serve um pouco aí! Tô mandando!

          — Olha aqui, Santana! Me respeite, que sou capaz de colocar veneno no café pra te ver estrebuchando aqui no chão. 

          Diante da pequena gigante, o mal-humorado recuou. Serviu-se e foi trabalhar no balcão da delegacia, onde Ricky Ricardo (chefe da equipe), Pedrito e Evelina já estavam atendendo o público. O agente, assim que percebeu a pequena aglomeração na recepção, quis refugar. No entanto, Ricky Ricardo, ressabiado que era com a preguiça do colega, foi firme.

          — Ei, Santana, trate de sentar a poupança na cadeira e começar a atender o povo.

          Cara amarrada, lá foi o Santana. E os quatro agentes trabalharam tanto naquela manhã, que imaginaram que todos os cidadãos de Sobradinho teriam combinado para registrarem ocorrência policial justamente no mesmo horário. Por sorte, à tarde, foi uma calmaria e, à noite, quando o clima ameno parecia se firmar, eis que o telefone tocou.

Evelina, que estava mais próxima, atendeu. Ricky Ricardo e Pedrito ficaram atentos à conversa, enquanto Santana resolveu tirar o time de campo. Foi arrumar a cama na certeza de que aquele telefonema seria apenas alguém reclamando da música alta vinda da casa de algum vizinho sem-noção. 

          Que nada! Dona Carmita, a cidadã do outro lado da linha, parecia desesperada, pois teria visto um homem no quintal de sua residência. Desse modo, Ricky Ricardo chamou toda a equipe para ir ao local, antes que algo pior acontecesse à pobre senhora. 

          Para não deixar o balcão da delegacia vazio, Ricky Ricardo pediu para o escrivão Gilmarildo ficar atento à chegada de qualquer do povo que quisesse registrar boletim. E o delegado Rupereta, que acabara de retornar do jantar, ficou lhe fazendo companhia.

        Assim que a viatura chegou ao local, perceberam que a residência possuía um muro alto. Dona Carmita, sentindo-se segura, abriu a porta e apontou para onde teria visto o bandido através da janela da sala. Ricky Ricardo, Evelina e Pedrito revistaram o local, enquanto Santana ficou perambulando pelo quintal de maneira displicente. 

        Evelina percebeu que havia um buraco no muro, mas insuficiente para passar uma pessoa. A policial perguntou o motivo daquela espaço aberto para a proprietária da casa, que respondeu que era para a Sonja sair e entrar.

        — Sonja?

        — É a minha gata.

        Após vasculharem tudo, nem sinal do criminoso. Ricky Ricardo, Evelina e Pedrito conversaram com a vítima para tranquilizá-la. Nisso, lá foi o Santana, curioso como ele só, olhar o buraco no muro. Como se quisesse provar para si mesmo que aquela história estava mal contada, arma em punho, ele enfiou todo o braço no buraco até dar do lado da calçada. 

        — Dona Carmita, a senhora tem certeza de que a sua gata passa por aqui?

        Antes que a mulher tivesse a chance de responder àquela bobagem, eis que o Santana sentiu alguém puxando a pistola de suas mãos. Em seguida, o ladrão gritou e se evadiu do local.

        — Perdeu, gorducho! 

        Somente após quase duas semanas é que a arma foi encontrada, graças às investigações feitas em conjunto pela equipe do plantão e os agentes Daniel, Ana Luísa, Rogério e Alexandre, vulgo Vascão.

Quanto ao Santana, nem ele acreditava que um dia teria sua pistola de volta. Mesmo assim, não foi poupado de uma brincadeira feita pelo Gilmarildo.

        — Santana, isso é pra você aprender a não colocar a mão no primeiro buraco que encontrar pela frente. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Santana e o buraco no muro" foi publicado no Notibras no dia 8/1/2025.
  • https://www.notibras.com/site/santana-e-o-caso-do-buraco-no-muro/

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Nicácio Fernández e o arquirrival, o escritor Paulo Coelho

     

    Nicácio Fernández era, antes de tudo, rancoroso por natureza ou, ao menos, circunstâncias. Nascido no dia 24 de agosto de 1947 no Rio de Janeiro, então capital do país, guardava tal similaridade astrológica com o afamado escritor Paulo Coelho. Talvez por isso, o sujeito também tenha sido puxado, de alguma forma, ao mundo da redação dos jornais, onde passou a se destacar por seus textos elogiados pelos editores e colegas, o que não o livrou de intrigas de certos invejosos. 

          De tão bom, alguém, não se sabe exatamente quem, o incentivou a escrever crônicas e contos. Nicácio pensou, pensou, pensou e, não tardou, imaginou-se o próprio Otto Lara Resende. Não era para tanto, mas a ilusão o envolveu de certa maneira que, algum tempo depois, foi diagnosticado como portador da síndrome da realidade paralela.

          Foi justamente quando a sua tragédia pessoal se instalou que o caminho de Nicácio cruzou pela primeira e única vez com o de Paulo Coelho, que, à época, era parceiro de músicas de um tal Raul Seixas. 

          — Bicho, tu tem que partir para romance.

          — Tipo Jorge Amado, Paulo?

          — Se eu fosse você, faria algo exotérico, que vai vender muito mais.

          — Mais do que ele?

          — Muito mais!

          — Sabe, Paulo, uma coisa que considero um absurdo?

          — O quê, Nicácio?

          — Não é revoltante que o Jorge Amado seja o brasileiro que mais vende livros no mundo? Muito mais do que o Machado de Assis. É um acinte! 

          — Gosto é gosto, bicho. Cada um tem o seu.

          — Veja bem, não estou falando mal do Jorge Amado, mas não dá pra compará-lo com o Machado de Assis, com o Lima Barreto...

          — Te entendo, bicho. Mas é como te falei. Parta pra algo exotérico. 

          — Tipo alquimia?

          — Hum...

          — Sabe, Paulo, valeu pelo conselho, mas não estou a fim de ser conhecido como o alquimista da literatura. Vão acabar me colocando a pecha de coach do mundo literário.

          — Hum...

          — O que foi, Paulo? Falei algum absurdo?

          — Nada, nada. O alquimista, né?

          — Seria ridículo, né?!

          Paulo Coelho, com brilho nos olhos, teria apertado a mão do Nicácio e, num gesto de agradecimento, lhe deu um abraço apertado e se despediu.

          — Valeu, bicho! Tenho que ir. O Raulzito tá na loucura de imaginar que nasceu há dez mil anos atrás. Pode uma coisa dessas? 

          Os próximos anos correram que nem poeira no deserto. Paulo Coelho após parceria de sucesso ao lado do Raul Seixas, foi se meter a escrever livros, entre os quais O alquimista, cujo sucesso estrondoso o ajudou a tomar o lugar do Jorge Amado como o escritor brasileiro mais vendido do planeta Terra. Quando ao Nicácio, desde aquele histórico encontro, sua trajetória foi constante ladeira abaixo. 

          O antes cronista número 1 se transformou em persona non grata na redação dos jornais por onde passou. Ninguém suportava sua arrogância, já que o sujeito se achava tanto, que o único jeito que Juvenal, editor-chefe, encontrou foi demiti-lo. E a fama de chatonildo agudo se espalhou por todas as outras redações, o que fez com que Nicácio, precisando sobreviver, implorar um emprego para um político que conhecia. 

          — Olha, Nicácio, o que posso te arrumar é uma vaga de contínuo num cartório lá em Brasília. Topa?

            — Você não tá precisando de um assessor de imprensa?

            — Nicácio, você tá de brincadeira, né?! Eu preciso me reeleger!

           Pois foi no início dos anos 1990 que Nicácio trocou a Cidade Maravilhosa por Brasília. Logo de cara, percebeu que morar no Plano Piloto seria impossível, haja vista a miséria que recebia. O jeito foi arrumar um conjugado na Ceilândia.

            Vendo o reconhecimento cada vez maior do Paulo Coelho, Nicácio apostou no próprio talento e juntou seus melhores contos e crônicas e os enviou para várias editoras. Nada. Nem mesmo uma mísera resposta. Aquilo era uma afronta tão grande ao seu talento, que, não satisfeito, decidiu contratar os serviços de uma editora menor. 

                    — Nicácio Fernández, o seu livro será um sucesso!

                    — Você acha mesmo, Lauro?

                    — Se acho? Tenho certeza, meu amigo! Vai vender que nem água.

                    — Se vai vender que nem água, não tem como vocês bancarem a edição?

                    — É o que eu mais queria. Acredite! Mas esses planos do governo atrapalharam com o caixa da nossa editora. 

                     — Entendo.

                    — Mas pode ficar tranquilo, que logo, logo você vai recuperar todo o seu investimento. Ficará rico! Ainda mais porque tenho meus contatos nos principais jornais. Pode deixar a publicidade com a nossa editora.

                     Nicácio, apesar da dinheirama que entregou para o editor, voltou para casa confiante de que, não tardaria, seu livro seria o próximo best-seller. 

                     Dois meses após, lá estava o mais novo maior escritor do mundo, segundo a crítica especializada que nem sabia quem ele era, com os 500 exemplares em mãos. Quanto à tão propalada publicidade, nada além de uma pequena nota de rodapé em um jornal de bairro da capital. Como esperado, o livro encalhou, até que Nicácio, para recuperar o espaço no pequeno apartamento, começou a presentear amigos, colegas, conhecidos e até desconhecidos com sua obra literária.

                     Alguns anos mais, Nicácio imaginou que a virada do milênio era a oportunidade tão aguardada para lançar mais um livro. No entanto, ressabiado que estava com as editoras, resolveu ele mesmo produzir sua nova obra. Deu trabalho, mas a arte em si não ficou nada a dever ao seu livro anterior. 

                    As semelhanças entre os dois livros não acabaram por aí. É que o segundo livro vendeu tanto quando o primeiro, ou seja, nem sequer um mísero exemplar. E olha que Nicácio tentou de todas as formas, inclusive montou uma barraquinha na rodoviária do Plano Piloto. Além do desinteresse completo dos milhares de transeuntes, Nicácio teve o azar de ter uma operação de apreensão de mercadorias de vendedores ambulantes irregulares. Pois é, o rapa apareceu e confiscou tudo. 

            Aquele pareceu ser o golpe fatal na ambição de se tornar escritor reconhecido. Tanto é que Nicácio jurou que nunca mais iria se meter com essa coisa de literatura. E tal intento se manteve firme até que, com a internet bombando, ele, timidamente, começou a publicar seus textos em alguns sites especializados.

            Não tardaram, as curtidas pipocaram, até que alguns leitores começaram a dizer que Nicácio deveria publicar seus contos e crônicas. Impressionado com os incentivos, lá foi o escritor bancar mais uma nova seleção dos seus textos. Afinal, eram os seus fãs que estavam ávidos por ver impressos tantos escritos geniais. 

            Ressabiado que estava, começou a fazer propaganda do seu próximo lançamento. Muita gente elogiando e falando que iria comprar um, dois, três, dez exemplares. Foi o impulso para que Nicácio fizesse pesquisa de preços junto a gráficas. E, não demorou, lá foi o escritor buscar os mil exemplares de seu terceiro livro. 

                Mal chegou ao lar, doce lar, começou a postar nas redes sociais que os volumes já poderiam ser pedidos. E aí veio, sem piedade, o choque de realidade diante das mensagens dos ditos admiradores:

                "Maravilha, Nicácio! Estou apertada neste mês, mas no próximo pagamento vou comprar."

                "Deixa só o cartão virar."

                 "Parabéns, grande Nicácio! Você merece!"

                  "Sucesso!"

                  Vender que é bom, nadica de nada. Nicácio xingou aqueles ditos fãs da internet de falsos, tratantes, lembrou-se com gosto das mães de todos. 

                   Agora era definitivo. Nunca mais iria se deixar iludir por esse insinuante mundo literário. Todavia, não se desfez dos livros. Deixou-os em pacotes nos cantos da sala para se lembrar de jamais voltar a escrever nem mesmo uma mísera linha. 

                    Naquele mesmo ano, durante o amigo oculto dos moradores do edifício, eis que o velho Nicácio Fernández foi tirado pela bela Lucélia, mulher solteira de seus 30 anos. Sorridente, o sortudo logo percebeu que o presente era um livro. Entretanto, não conseguiu adivinhar qual seria o título. 

                Nicácio, assim que rasgou o embrulho, quase teve engulhos ao descobrir que acabara de receber O alquimista, do Paulo Coelho. Tentou disfarçar o desconforto e, em seguida, alegando cansaço por conta da idade, agradeceu pelo presente, se despediu de todos e retornou ao seu apartamento. 

                        Quem visse o sujeito naquele momento, certamente constataria que algo não estava bem. Nicácio jogou um dos livros mais lidos do mundo na lata de lixo. Em seguida, abriu a geladeira, pegou uma cerveja e se sentou à mesa. 

        Sentiu saudade do tempo em que o escritor brasileiro mais lido do mundo era Jorge Amado. Tomou dois ou três goles e, então, percebeu que a mesa estava bamba. Notou que havia uma incongruência entre os pés do móvel. Não teve dúvida. Pegou O alquimista na lixeira e, para sua surpresa, a espessura era exatamente a que fazia com que a mesa voltasse a ficar estável. 

        Nicácio bebeu o resto da cerveja e, criativo que se sentiu, abriu um dos inúmeros pacotes espalhados pela sala. Pegou um exemplar dos seus livros encalhados e, pés sobre a mesa, começou a lê-lo. Sentiu-se vingado por anos e anos de desprezo.     

  • Nota de esclarecimento: O conto "Nicácio Fernández e o arquirrival, /o escritor Paulo Coelho" foi publicado no Notibras no dia 7/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/nicacio-fernandez-e-o-arquirrival-o-escritor-paulo-coelho/

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A catarata e o Frank Sinatra

    

    

    Demerval, aos 84 anos, foi acometido de vaidade, como se quisesse retornar ao vigor dos 30. Eunice, a esposa, nada dizia, apesar de fazer troça às escondidas. Não que ela fosse contra a repentina preocupação do marido em relação à aparência, mas considerava exagero pintar os parcos cabelos de acaju. .

    Eunice, apesar de não ser daquelas que fazem drama ou busquem análise por conta do surgimento de mais uma ruga, gostava de se cuidar. Sem exageros, a não ser quando a traiçoeira balança a afrontava com o movimento ingrato do ponteiro. Aí não tinha jeito, era fechar a boca e aumentar o ritmo das caminhadas diárias ao redor da quadra onde morava, na Asa Norte, em Brasília. 

    — Ah, por que fui comer aquele monte de brigadeiro na casa da Regina?

    — Não gostou?

    — Estava uma delícia, mas olha esta barriga agora?

    — Você está ótima, meu amor.

    A vontade da mulher era mandar o marido para a moradia do Diabo, mas conteve tamanho ímpeto.

    — São os seus olhos, Demerval.

    — Azuis.

    — O quê?

    — Reparou que meus olhos estão ficando azuis?

    — Catarata faz isso.

    — O quê?

    — Catarata, Demerval. Ou já se esqueceu do que o oftalmologista disse na última consulta.

    — É verdade. Mas são azuis, né?

    — São iguaizinhos aos do Frank Sinatra. Só tá faltando você cantar My way pra mim.

    Os dois sorriram e se beijaram nos lábios, como sempre faziam várias vezes durante o dia. 

    Parece que Demerval gostou de ouvir que seus olhos estavam idênticos aos do famoso cantor. Tudo bem que era por causa da catarata cada vez mais avançada. E daí? Não é para qualquer um ter os olhos do Sinatra. 

    O sujeito imprimiu a letra de My way e, apesar de não ser fluente em inglês, sabia mais ou menos a pronúncia de várias palavras. Ensaiou a canção enquanto malhava na academia. Depois foi ao supermercado comprar um vinho de qualidade que o dinheiro de fim de mês conseguisse pagar. 

    Quando chegou ao lar, doce lar, Demerval colocou a garrafa na geladeira e foi tomar um banho caprichado. Eunice, ciente dos métodos de sedução do esposo, sabia que ele tentaria algo mais tarde. A mulher sorriu aquele sorriso próprio das esperançosas. Tanto é que entrou debaixo do chuveiro e vestiu aquela lingerie comprada há quase seis meses, passou um pouco de perfume e, quando percebeu, a mesa já estava posta.

        Duas taças, a garrafa de vinho, uma porção de queijo e salame. Ao lado, Demerval, microfone imaginário em uma das mãos, começou a cantar My way.

          "And now, the end is near

And so I face the final curtain

My friend, I'll say it clear

I'll state my case, of which I'm certain

I've lived a life that's full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way


Regrets, I've had a few

But then again, too few to mention

I did what I had to do

And saw it through without exemption

I planned each charted course

Each careful step along the byway

And more, much more than this

I did it my way..."

    Eunice ficou admirada com a performance do clone de Sinatra, até que ele começou a fazer algumas expressões faciais, que, a princípio, ela imaginou serem com o intuito de seduzi-la. Uma torção dos lábios do marido, a esposa teve quase certeza de que ele estaria passando de Sinatra para Elvis. Todavia, tais expressões, cada vez mais esquisitas, se transformaram em caretas. Mesmo assim, Eunice, que sabia que o marido era um brincalhão, imaginou que ele estivesse imitando o saudoso Ronald Golias. 

     Que nada! Demerval acabara de ter um AVC e, no segundo seguinte, tombou sobre o tapete felpudo da sala. Morreu ali mesmo. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "A catarata e o Frank Sinatra" foi publicado no Notibras no dia 6/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/a-catarata-e-o-frank-sinatra/

        

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O inusitado dentro do coletivo

          

        Entediada de ficar em casa, Salete decidiu, logo após tomar café, ir fazer uma visita para Paula, uma amiga que acabara de se separar. Não se sabe se houve traição ou, então, seriam meras incompatibilidades de convivência. O problema é que, já devidamente acomodada no banco do seu velho Chevette, girou a chave e nada do carango dar sinal de vida. 

          Salete girou duas, três, quinze vezes. E não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil. 

          Telefonou para Paula e disse que iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A colega disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.

          — Creio que será até bom relembrar os tempos de pobretona.

          — E por acaso ficou milionária e está escondendo o jogo?

          — Sou bancária e não banqueira, Paula.

          Já no ponto, Salete ficou atenta aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume. Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe a quantia, passou a roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.

          Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.

        — Você promete?

        — Vou ver se consigo, meu amor.

        — Ah, mas ontem você disse que iria.

        — Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?

         — Mas você promete?

         — Tá. Preciso descer no próximo ponto.

          O homem, antes de se levantar, deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os nomes dos pombinhos. 

        Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de ir para o emprego? 

           Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do século XVII, não estava enganado: "O coração tem razões que a própria razão desconhece".

            — Você é louco!

            — Louco por você, meu amor!

            — Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o Ademir sempre desce aqui.

            — Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.

            Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate ou num quarto de motel. 

            — Para! Não dá pra esperar?

            — Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade. 

            — Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!

            Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem provocar barulho. 

           Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.

            Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los... Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O inusitado dentro do coletivo" foi publicado no Notibras no dia 5/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/o-inusitado-dentro-do-coletivo/

domingo, 4 de janeiro de 2026

Astolfo, as crianças e o parquinho

    

        Astolfo, aos 97 anos, cuja mobilidade era limitada pela idade avançada, tinha o costume de tomar banho de sol confortavelmente sentado em sua cadeira de rodas, que era empurrada por Lourdes, a bela cuidadora de 32 anos. Rumavam para praça e ficavam próximos ao parquinho, de onde podiam apreciar os cantos dos passarinhos e os gritos de histérica alegria dos miúdos. 

          Entre tantas crianças que corriam de um lado para outro, o idoso concentrou o olhar sobre uma menina e um menino, cada um com seus sete, oito anos. A energia daqueles filhotes de gente parecia sem limites, tamanha a quantidade de vezes que subiam e desciam o escorrega. Impossível não se lembrar de quando, ele, ainda molecote, fazia o mesmo. 

          — Como o tempo voa, Lourdes.

          — O que o senhor disse, seu Astolfo?

          — A infância é a melhor fase da vida. Não é?

          — É verdade. Concordo.

          Quando voltou os olhos para a dupla peralta, Astolfo percebeu a presença de mais um guri, dois ou três anos mais velho, ao lado dos menores. O velho deduziu que seria o irmão mais velho, haja vista as características físicas. 

          O suposto primogênito parecia sério, como se o mundo já estivesse lhe pesando sobre os ombros. Certa altivez no olhar, o que deixou Astolfo intrigado. Nisso, o mais novo se aproximou e puxou conversa com o parente.

          — Quer brincar?

          — Não.

          — Por quê?

          — Só vim vigiar vocês.

          — Vem brincar.

          — Não.

          — Por quê?

          — Por que não.

          A garota chegou mais perto e entrou na conversa.

          — Vem brincar.

          — Não.

          — Por quê?

          — Por que já sou grande.

          — E daí?

          — Daí o quê?

          — Gente grande não pode mais brincar?

          O menino maior, por um momento, pareceu incomodado. Ele voltou os olhos para trás, onde estava um casal conversando. Provavelmente seus pais. Depois olhou os irmãos, sorriu e saiu correndo para subir no escorrega. 

          As crianças brincaram, brincaram, brincaram, até que os adultos as chamaram. Era hora de voltar para casa. Astolfo pareceu satisfeito com as estripulias da meninada. 

          — Sabe, Lourdes, minha mãe sempre me falava uma frase dita por vovó.

           — E qual era, seu Astolfo?

        — Os adultos deveriam aprender com a gurizada a gastar o tempo com o que realmente importa.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Astolfo, as crianças e o parquinho" foi publicado no Notibras no dia 4/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/astolfo-as-criancas-e-o-parquinho/

sábado, 3 de janeiro de 2026

Darlan, bilionário por acaso


          Darlan nasceu pobre. Não tão pobre de passar fome. Pobre que nem a maior parte de nós, que nascemos longe de berço de ouro, meros mortais fadados ao esquecimento ainda em vida. Mas eis que, por um milagre daqueles caprichados, Darlan se tornou o mais novo bilionário do Brasil.

          O único ganhador daquela derradeira rodada acumulada da Mega-Sena. Sim, isso mesmo! Quase um ano após se dirigir a uma agência da Caixa Econômica Federal para receber o vultoso prêmio, Darlan não acreditava na própria sorte. Teria Deus alguma coisa a ver com aquilo? E olha que o gajo, apesar de religioso, não era dos mais devotos. 

          Depois de gastar alguns milhões aqui, outros tantos ali, começou a investir em negócios que o tornaram um multibilionário. Tanto é que, não fazia muito tempo, havia saído na capa da Forbes como o brasileiro que transformava chumbo em ouro. Verdadeiro alquimista do século XXI.  

          Carrões, obras de arte, mansões espalhadas por cidades de todo o planeta, jatos capazes de encurtar distâncias a qualquer tempo. Bastava a vontade do Darlan para que ele fizesse um safári fotográfico no Quênia durante o dia e, à noite, tomasse champanhe acompanhado de uma beldade do cinema em Paris. 

          E foi numa dessas demonstrações de poder que ele acordou em Brasília, onde teria tido vários encontros com políticos. Mal abriu os olhos e, não se sabe por qual motivo, sentiu vontade de pegar a estrada. 

          — Tem certeza, patrão?

          — Tenho.

          — Vou alugar uma Ferrari. Ou o senhor prefere um Porsche?

          — Fusca.

          — O quê?

          — Um Fusca, Lucas. Compre um Fusca.

          — Tem certeza, patrão?

          — Acredita que nunca tive um Fusca? Já andei em um de um amigo, que nem gostava do carro. Era uma coisa com Opala, que achava Fusca carro de pobre. Flavio.

          — Flavio?

          — É. Flavio. É o nome dele. Sei que mora em Brasília. Veja se consegue encontrá-lo. 

          — Tem o sobrenome?

          — Bonesso. 

          — Bonesso?

          — Isso. Flavio Bonesso. 

          — Hum... Não deve ser difícil encontrá-lo. 

          — Pois veja isso o mais rápido possível. 

          Já na hora do almoço, Lucas encontrou Darlan no restaurante do hotel. Estava com um sorriso nos lábios, o que indicava que tivera sucesso.

          — Já almoçou?

          — Ainda não, patrão.

          — Coma primeiro, então.

          Lucas almoçou arroz, feijão e outras iguarias, enquanto Darlan ficou entretido com a leitura de Quincas Borba, de Machado de Assis. 

          — O senhor gosta mesmo de ler, né, Patrão?!

          — Sabe quantas vezes já li este romance?

          — Duas, três?

          — Mais de 10.

          — Sério?

          — É melhor do que qualquer livro de psicologia, filosofia e, de brinde, ainda dá boas aulas sobre economia. Você deveria lê-lo.

          — Não sou muito de ler, patrão, mas acho que você vai gostar do que consegui.

          — Encontrou o Flavio?

          — Essa foi a parte mais fácil. Difícil mesmo foi encontrar o Fusca.

          — Comprou?

          — Não. Mas consegui alugar um que possui até nome.

          — Nome?

          — É. O danado tem nome, patrão.

          — E qual é?

          — Maggiolino.

          — Gostei.

          — Pois vai gostar ainda mais depois de saber quem é o dono do Maggiolino.

          — Hum... Do Lula?

          — Não, patrão. Menos, né?!

          — Não sei. 

          — Pois o Maggiolino é do Daniel Marchi.

          — O escritor?

          — Sim! Acredita nisso?

          — Que eu saiba, ele mora no Rio de Janeiro. O que, então, esse Fusca está fazendo aqui em Brasília?

          — Ih, patrão, é uma longa história. Mas eu conto depois, pois o Flavio acabou de chegar. Vamos lá receber o seu amigo?

          Assim que se encontraram, Darlan e Flavio se abraçaram e ensaiaram algumas lágrimas. Conversaram por alguns minutos, enquanto Lucas se manteve à certa distância para não incomodar aquele momento. 

            — Lucas, por favor.

            — Pois não, patrão?

            — Que tal irmos até a chácara de outro amigo nosso?

            — Uma chácara, patrão?

            — Sim, homem! Não sabe o que é uma chácara? 

            — Claro que sei, mas...

            — Pois está decidido. Cadê as chaves do Maggiolino? É esse o nome, né?!

            E lá foram os três aventureiros a caminho do município goiano. 

            — Sabe, Flavio, ainda hoje me lembro daquele seu Fusca, o Azulão.

            — Darlan, aquele carro tinha história.

            Lucas, no banco de trás, ouvidos atentos à conversa, olhos se deliciando com a paisagem. Tanto é que começou a se acostumar com a dureza daquele carro, muito diferente das luxuosas máquinas do dia a dia de assistente do ricaço. 

          Apesar de um buraco aqui, outro ali, a viagem estava tranquila. E, no meio do caminho, Darlan se encantou com uma visão que há mais de década não vislumbrava. Uma barraquinha de pastel e caldo de cana na beira da estrada. Não teve dúvida. Parou.

          Em pé, os viajantes fizeram os pedidos. Não tardou, cada um com um pastel e um copo de caldo de cana nas mãos, pareciam crianças diante de algo tão simples.

          — Flavio, você acredita que nem me lembro mais de quando foi a última vez que comi pastel com caldo?

          Antes de responder, Flavio percebeu que Darlan, que já tinha dado a primeira abocanhada, pareceu triste. Engoliu. Mordeu de novo. Mastigou, mastigou, engoliu. Outro naco, mastigou, mastigou, mastigou, engoliu. Lágrimas, agora sem qualquer cerimônia, escorreram pela face do Darlan.

          — Ei, Darlan, o que houve? Você está bem?

           — Preciso colocar os pés no chão novamente.

           — Como assim? Você tem tudo na vida.

           — Não, meu amigo. Não tenho tudo. Percebi isso agora.

           — Agora? Aqui no meio deste fim de mundo?

           — Não consigo sentir mais o gosto de pastel. Acredita nisso?

          Flavio e Lucas só foram entender aquelas palavras quando deram a primeira mordida no pastel. As lágrimas também vieram, mas por motivo oposto. Que delícia!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Darlan, bilionário por acaso" foi publicado no Notibras no dia 3/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/darlan-bilionario-por-acaso/