O gato
correu para o quintal em busca de paz. O cachorro fingiu fidelidade. Já a
esposa, apesar da ferrenha religiosidade, chegou a sonhar com a viuvez.
Humberto,
ainda de pestanas cerradas, anteviu o próprio despertar. Moído por mais uma
noite de pesadelos, como se tivesse sido dragado para o fundo de um lago. Sem
ar. Entre a dor e a angústia. Abriu os olhos azuis despidos de ilusões.
— Dormiu
bem, meu amor?
Ainda
absorto por uma avalanche de remorsos, Humberto vasculhou na memória um
sorriso.
— Sim. E
você, Laura?
— E como se
dorme com essa tempestade?
— Choveu?
—
Relâmpagos e trovoadas. Não ouviu?
O homem, com
movimentos incrédulos de cabeça, disse que não. Ele tentou se inteirar da vida
por uma nesga na janela. Apenas alguns fachos de luz que pareciam bailar com o
leve movimento da cortina.
O cachorro
olhou o ser que considerava seu mundo até receber um leve afago. Abanou a
cauda. Tanto sacrifício lhe pareceu ter valido a pena.
— Cadê o
Arquibaldo?
— Não
aguentou.
— Não
aguentou o quê, Laura?
— Na certa,
foi se aliviar no jardim ou, não duvido, foi caçar. Que apanhe um rato. Não
suporto quando ele mata passarinho.
Humberto
lavou o rosto, escovou os dentes. Pensou em se barbear. Entediado, preferiu
deixar para outro dia. Talvez semana que vem, final do mês...
Juca,
bolinha na boca, se postou diante do homem. Olharam-se, o cachorro inclinou o
focinho para frente, soltou a bolinha, que escorregou até os pés do Humberto. O
sujeito sorriu, tomou o último gole do café.
— Ele quer
brincar com você, meu bem.
Humberto
assentiu com a cabeça. Beijou a mulher.
— Vamos,
garoto! Ando tão enferrujado. Se eu não quebrar, termino o dia.
E lá foram aqueles dois brincar no jardim antes que alguém despejasse um temporal sobre eles. Ao fundo, Arquibaldo parecia se refestelar com um canário entre os dentes.
- Nota de esclarecimento: O conto "Dois humanos, um gato e um cachorro" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 30/9/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/dois-humanos-um-gato-e-um-cachorro/

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